Um lema

Ah, os blogues que  prometem começar, recomeçar ou continuar. Os tempos não estão para tiradas vãs. Muito menos a respeito do teatro, que elegemos como o tema preferencial deste órgão de comunicação social e que, quanto a nós, continua a ser o pequeno sangramento, a pequena verruga ou obstipação, náusea, inchaço ou comichão que revela o cancro. O teatro não faz sentido nenhum aqui e agora, e isto ser uma evidência é que dá especial sentido e razão de ser ao mesmo teatro. Enfim, isto tudo para deixarmos aqui um lema que brotou em conversa, em saudação ao ridículo «acordo ortográfico» que muito poucos tiveram a lucidez de denunciar como mecanismo para forçar a escrita a imitar a fala, quando o seu registo tem níveis de informação totalmente alheios ao mexerico vocal – tudo em nome da utopia burocrática da lusofonia:

Não quero espetadores nos meus espectáculos.

 

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«O teatro é mais honesto» (Manoel de Oliveira)

 

 

«Hoje tenho uma ideia muito diversa da de antigamente. Neste meu último filme, Angélica, até mudei um pouco as ideias do que estava para fazer; foi mais por imposição e interesse do produtor que eu me atrevi e adaptei o filme à realidade. Mas, enfim, porque na verdade a gente chega a estas conclusões, a máquina de filmar… O teatro é mais honesto que o cinema, porque o cinema filma sonhos. Ora a máquina de filmar não pode filmar sonhos, a máquina de filmar não pode filmar pensamentos. No teatro nunca se representa um pensamento, nunca se representa um sonho. O actor chega ao palco e diz “eu sonhei isto e aquilo”. Se é verdade ou mentira, não se sabe. Ou então diz “eu pensei isto ou aquilo”, porque isto não se filma. Por essas razões, mudamos a ideia do contexto do cinema, e por isso acho que o teatro é fundamental. E, para mim, a expressão mais rica é a literatura. Lembro-me de que na Guerra e Paz, um sujeito quando estava para morrer – estava ferido, depois acabou por ficar doente -, estava preocupado em saber o que é a morte. Porque era uma porta por onde ele não entraria. Olhou lá para o fundo da sala e vê uma porta, e diz “Ah, é uma porta.” E eu achei isto admirável: a morte é uma porta. No mundo material, a porta dá para o cemitério. No mundo espiritual, a porta dá para algum lado, ou não.»

 

Entrevista ao Diário de Notícias

 

(Repare-se como, nos comentários à entrevista, na página do jornal, os que objectam ao gasto público no cinema se revelam bem instruídos pelo mesmo manual; dois deles chegam a usar, no seu par de curtas linhas, exactamente as mesmas duas expressões: «contribuintes» para si e para a sua voz colectiva, e «caprichos» para os filmes feitos.)

 

Poesia pequena e pequena política

 

 

Fim de campanha. No campo da «análise», todos os chavões em parada, até o da distância entre os eleitores e os eleitos. Num país de fracas elites, este lema oco passa por observação política. Neste blogue somos a favor de ainda maior distância. Quando ouvimos aquilo, só nos ocorrem os casos de intensa proximidade entre os eleitores e os seus eleitos: Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, etc.

O pior chavão coube nas palavras de uma comentadora artificiosamente penteada: «…esse é poeta, não sabe a diferença entre uma acção [de empresa] e uma caneta». O lugar-comum da poesia como incapacidade social, cognitiva, política ou científica, só fala da banalidade da ideia de poesia que lhe subjaz. Porém, eis que um credo de mau gosto literário se transforma em argumento político e de campanha eleitoral. Temos poetas engenheiros e matemáticos (e empresários). Mas apetece dizer que, em saber político e económico, Maria João Avillez está algo aquém de Elizabeth I, poeta.

 

No crooked leg, no bleared eye,
No part deformed out of kind,
Nor yet so ugly half can be
As is the inward suspicious mind.

 

As revoluções do Telephone

 

 

A grande novidade que os jornalistas viram na revolta do Irão foi o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. A grande novidade que os jornalistas vêem na revolta da Tunísia é o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. (Chamam-lhes revoluções; fala a geração de jornalistas que não distingue uma revolta de uma revolução.) As visões de futuro agora em campanha vêem… as redes sociais. Voltámos ao entusiasmo pelo Telephone. Entretanto, uma peça de teatro com página no feicebuque junta mais de novecentos amigos… e seis pessoas no segundo dia.

 

Respeitinho, inho, inho

 

 

Campanha presidencial. A gente cristã escorraça um candidato à presidência da sua «festa religiosa», festa onde pode haver cueca variada, fartura e CD de baile, talvez até o telemóvel desbloqueado, mas não pode haver meia dúzia de bandeiras de uma das candidaturas menos povoadas. «Respeitinho, respeitinho, hã!?», dizem, com um ódio entredentes à festa política, longamente aprendido e já antigo. O re-candidato já tinha feito um discurso em que invocava a «falta de respeito». Em que país europeu democratizado poderia um candidato presidencial invocar o conceito da falta de respeito como coisa pertinente?

Isto não vai a lado nenhum, e drama pessoal vai tentar esquecer Portugal.

[Ao menos hoje surgiu na conversa informativa a clamorosa situação contributiva dos independentes, os dos recibos verdes, trabalhadores individuais que estão a ser taxados como se fossem empresas; proporcionalmente, mais do que as empresas, num saque que afecta tantos do teatro, gente mais cara e chegada a este blogue; «é assim que estão feitas as regras», respondem os funcionários da Segurança Social, com um gosto pela redundância burocrática que nunca acabou com o anúncio da democracia, vai para quarenta anos.]

 

A Cruzada da Caridade

 

 

Passou o Natal, todo dedicado pela comunicação social popular à grande Cruzada da Caridade (posta de parte toda a análise das tiradas acácias do autocrata que quer ser reeleito).

O Banco Alimentar é que está a dar.

Os simpáticos escuteiros da mercearia de emergência estenderam por todo o lado os seus saquinhos, para recolherem os uísques e aguardentes de estágio prolongado, os conhaques, os presuntos, as trufas, os caviares. A alegria por esta jornada compensatória de uma distribuição da riqueza digna de uma democracia foi quase comovente, e contagiou até muitos dos despromovidos sociais mais recentes. O pobre preferirá sempre o impacto do sentimento ao abstracto do rendimento.

Dar é bom (não é?).

O assalto pelas «agências de comunicação» aos conteúdos informativos, por meio de antigos jornalistas tornados vendedores, continua sem ser notícia. A venda de espaço informativo imita a venda do espaço de exposição no mercado: na têvê, uma «especialista» da Corporação Dermo-histérica tem vinte minutos para desbobinar conselhos ao nível do senso-comum mais elementar «para nos ajudar a eliminar os excessos deste Natal». Digerir e defecar não basta. Dar também não. A mulher disse o nome da empresa sempre que pôde, o que na forma publicitária normal seria cobrado ao segundo, e naquela forma ofende um preceito jornalístico básico e até há pouco universalmente respeitado.

É um tempo de balanços. As referências ao avanço civilizacional acabaram sempre com as mesmas duas palavras: feicebuque, tuíter. Um antigo ministro feito conversador televisivo definiu as novas tecnologias com uma lista de produtos de uma só marca: ipod, ipad, iphone. As cabeças já nem sabem o que emitem. Entretanto, os pássaros caem dos céus aos magotes, provavelmente atingidos por vagas de 140 caracteres.

 

[o resto do artigo foi oferecido à caridade]

 

Um tornado tão pequeno

 

 

 

Na Costa do Marfim, hoje.

 

Onze deram a vida por um resultado eleitoral. Por cá, o (bom) costume. Continua a ser necessário entender as regras do futebol para entender as metáforas políticas: cartão amarelo, fora de jogo, jogar à defesa. Parece que houve um tornado horrível. Mas não há portugueses entre as vítimas.

 

fonte: El País (recorte fotográfico deste blogue)

 

Vozes do trabalho

 

 

Temos falado pouco. Os tempos não estão para vozearia (um daqueles termos que um parlamentar descobre e depois são zurrados até se gastarem).
Passada a greve geral, sob a sombra de uma «utilidade» questionada (como se os direitos constitucionais da greve, da liberdade de expressão e de manifestação tivessem de justificar alguma mais-valia), a discussão paupérrima ficou-se pela aritmética disfarçada de estatística, e outras facilidades.

Dizem os ingleses que há duas maneiras de mentir em política: mentindo, ou recorrendo à estatística. A banalidade da estatística no nosso meio passou as fronteiras do hilário.
Na semana passada, um deputado socialista comparava a carga fiscal, e, como que por inferência, a política fiscal e orçamental dos países nórdicos com a nossa, tirando a divertidíssima conclusão de que seriam «idênticas».

A facilidade mais recorrente é a de que é preciso «trabalhar mais». A ministra do trabalho e o líder da oposição gostam dessa tecla, como se o factor trabalho determinasse a produtividade, e não fosse o factor valor muito mais importante nesse cálculo – assim confirmará qualquer caloiro de economia e gestão.

Por mais que nos estafemos a fazer chinelos ou lençóis, nunca teremos a produtividade de quem faz circuitos impressos.

As opções quanto ao valor a produzir cabem aos empresários, gestores e planeadores empresariais e políticos, muitos dos quais aparecem agora a caluniar a massa dos que executam, tendo falhado todos estes anos (falhado é como quem diz… apenas do ponto de vista do ganho comum).

E depois há os que nem sequer passam por ser trabalhadores, e na hora de se exprimirem – e é da expressão que se faz o seu trabalho – se mostram passivos e ignorantes.

Espectáculo no Teatro da Trindade, casa do Inatel, construído a partir de música do trabalho portuguesa que o etnólogo corso Michel Giacometti dedicou anos da vida a recolher, e a quem o Estado Português nunca soube merecer enquanto vivo.
Uma Agenda Cultural da têvê lembra-se de interrogar os actores que encarnam a gente da labuta sobre a greve do dia 24. Duas veteranas da nossa cena abrem a boca.

Uma diz que «o Ministério da Cultura é o que tem menos dinheiro, pelo menos é o que me dizem» e que é «preciso dar a volta a esta situação». A outra diz que «na situação em que estamos, uma greve, não acho correcto». Ou seja, uma acha que é tudo uma questão de dinheiro ministerial. A outra bate na tecla do trabalho. E esta gente ignorante andou anos a representar dificuldades da vida, conflitos de interesses, pessoais, sociais e políticos. Não aprenderam nada. Merecem menos do que têm.

Na peça jornalística seguinte, uma actriz mais nova de olhos redondos a trabalhar em Almada diz qualquer coisa sobre uma peça de Tennessee Williams. Diz o quê?
«É muito actual…»

 

Gravado a lápis para sempre

 

 

Na semana passada, um amigo achou um escrito de António da Silva Teixeira Electricidade que esta noite faz dezanove anos. Um feito notável, para um escrito a lápis numa parede de um prédio igualmente parado no tempo, na Rua Rodrigues Sampaio. O tema é denso, talvez captado na imprensa internacional à mostra pelas ruas, ou captado, simplesmente. São modestas, as nossas alegrias.