O sol da tarde

 

 

 

O aquecimento central marcava 24 graus. Mas sentia-se o frio na pedra, e pelos cantos. De sexta para sábado, podia-se ouvi-los perto da casa, em movimento, na noite gelada. Chegaram a banhar-se no arrozal. De manhã cedo, a geada cobria a erva. Aqui seguiam juntos para as terras mais altas, onde receberam o sol da tarde.

 

foto dramapessoal, Alcácer do Sal

 

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Com Chave Mutável (Paul Celan)

 

 

 

Com chave mutável
abres a casa em que
vagueia a neve daquele que foi silenciado.
Conforme o sangue que te brota
dos olhos, da boca ou dos ouvidos,
muda a tua chave.

Muda a tua chave, muda a palavra
que pode vaguear com os flocos caídos.
Conforme o vento que te empurra
assim aumenta a neve em torno da palavra.

 

 

 

foto: the Guardian
da tradução de João Barrento e Y.K. Centeno
(com uma alteração)

Ida e volta, 2ª classe

 

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Quilómetros de quintais industriais, cabos aéreos entre telhados, pinheiros misturados com palmeiras, restaurantes entre garagens e entre armazéns, gente a caminhar pela berma da estrada, de cores amarelas e bordões, com a alegria comum de um clã desportivo. É o país.

O maior inimigo deste blogue é o trabalho. Fomos em missão. Mas a ida e a volta, de propósito pela Nacional 1 e Itinerário Complementar 2, por entre casas fechadas e negócios parados, foi uma excursão pelo incerto e o inacabado. O país é uma estrada secundária.

 

Este Verão Cru

 

 

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Este Verão cru continua o seu estrago. Deixou agora o seu posto de observação elevado o escritor M.S. Lourenço, tradutor de Wittgenstein e autor de obras como O Doge (sob a capa de tradutor do Arquiduque Alexis-Christian von Gribskov) ou Os Degraus do Parnaso, volume de crónicas devotado, em parte importante, à contradição do culto da novidade e da mudança pela novidade, instaurado nas artes e nas vidas pelo império daquilo a que Adorno chamou «A Indústria da Cultura» e alguns chamam, por ser isso o que chamam a tudo o que os cerca, «A Arte Pop».

Devemos-lhe alguns dos poucos ensaios de qualidade que temos sobre Cesário Verde (poeta que tem sofrido terríveis assaltos de banalidade académica) e devemos-lhe o mais digno e bem-humorado obituário da velha Estrada de Sintra, sob a forma de um ensaio intitulado «À sombra das acácias em flor», que seria leitura obrigatória das classes aprendizes que habitam o erro urbanístico alternativo aos campos que foram dessa Estrada, fossem leitores de Literatura os programadores e muitos dos professores que por esses sítios exercem a sua rotina de nivelamento das imaginações.

Não é do extraordinário ensaio «Epopeia crepuscular», louvor de «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, que guardamos uma amostra, mas de «À sombra das acácias em flor», lamento pela devastação estética e ambiental que os povos da periferia lisboeta identificam com a modernidade, ou, como famosamente cunhou o mais alto magistrado da nação, «o pogresso»:

«Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida.

Sobre a linha dos telhados ergue-se um enorme bloco em construção, com a aparência de ser uma das muitas modernas garagens de cinco pisos de altura, onde os muitos automóveis do Cacém vão poder ser arrumados para descanso dos seus proprietários […]. Qual não foi a minha surpresa quando há duas semanas o bloco entrou numa nova fase de construção, da qual se segue, irrefutavelmente, que se trata afinal de uma igreja e, assim, em vez dos automóveis, terão que se arrumar lá dentro as almas do Cacém. É a estas almas do Cacém que, no escasso e sincopado vocabulário do dialecto tropical que agora se fala, vai ser transmitida a doutrina do Infinito, […]»

 

Os Degraus do Parnaso está disponível numa edição Assírio & Alvim.

 

Insónia e marcha (caminhada nocturna)

 

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Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.

 

foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas

 

O Artifício Agradável

 

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No teatro, ou noutras artes, eis o que muitos ignoram e Boileau já sabia, à sua maneira, no auge do neoclassicismo francês. Que:

 

………………………………………. o artifício agradável,
Do mais afrontoso objecto, faz um objecto amável.

(Boileau, Arte Poética, Capítulo 3)

Todas as épocas têm o seu catálogo de tiques estéticos, que fornecem a público e artistas as suas fugas satisfatórias. E, em larga medida, as épocas artísticas constroem a sua segurança vilipendiando os tiques das épocas passadas (mas não vencidas). Os tiques de muitos de agora, em cena, tendem para o inverso do que Boileau acreditava, e certos actores sabem melhor correr (sim, em palco) ou cuspir, ou mastigar impropérios, do que articular completamente, ou, já agora, projectar com rendimento, ou, agora ainda, estar.
Ou seja, a voga presente tende para a convicção de que o artifício desagradável (para usar os termos de Boileau) faz de todo o objecto amável o afrontoso objecto procurado.

 

 

Pormenor de livro exposto no escaparate da Livraria Sá da Costa,
Chiado, Lisboa, com alegoria de louvor a Boileau
(elástico que prende a página à vista, à esquerda).

 

Meus amiguinhos

 

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Nos nichos de um urbanismo tantas vezes absurdamente inclemente para com a memória e os seus animais, a natureza faz por não esquecer os seus hábitos mais disciplinados. O ninho de andorinhas que o Zé acompanhou este ano, no fundo de um saguão do século XIX, serviu desta vez três irmãos. Os fios que se notam são cabelos humanos, colhidos nos salões de coiffure da zona.

 

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À espera que a Staples de Alfragide abrisse, eram 9:30 de um sábado recente, fomos ver o quadro natural nas fendas da que é hoje uma zona industrial e comercial tipicamente sobrelotada. O cheiro a contágio fecal e fosfatos não consegue destruir alguma paz harmónica. A posar para a fotografia do desfiladeiro fabril da ribeira de Algés, acima, descobrimos um amiguinho a tratar do pequeno-almoço.

 

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e (ao alto) JGF.
a imagem ao fundo é um pormenor.

 

Paisagem

 

O resto é paisagem, diz o cliché português. Para falar do que não conta.

Da Torre de Anto, de onde se poderia hoje voltar a ver a distância que António viu, nas suas gazetas visionárias, vê-se hoje aquilo a que se chama, no dialecto local, uma urbanização. Ou seja, um grupo de blocos colectivos distribuídos de acordo com um critério rodoviário.

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Numa pausa deste trabalho que nos tem afastado do blogue, recebemos um e-mail convidativo de uma imobiliária, que nos pareceu resumir toda a televisão que não vemos, e jornais que não lemos, cheios de segredos de justiça, e «casos» do futebol mais entediante de toda a Europa.

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Prometem-nos uma «moradia fantástica». Veja-se-lhe o preço. E a arquitectura, do melhor da escola clandestina portuguesa. Volume interior contra tudo em redor. Espreitámos na mesma altura o New York Times e uma selecção de casas a 130.000 dólares (faça-se a conversão para o nosso mercado suburbano e veja-se a paisagem). Escolhemos fotos de uma delas, uma casa anterior à guerra-civil, em Louisville, no Kentucky, redecorada em estilo eclético. Perdoe-se-nos a mistura caótica desta entrada.

 

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Mas o que temos pena de não ver é a paisagem da «moradia fantástica», no Casal da Mira. Temos apenas um resto, um volume de paredão amarelo com uma janela quadrada, e alguns cabos eléctricos livres de qualquer constrangimento. Na casa do Kentucky, como nota sentimental, veja-se o cartaz Porto Sandeman.

 

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