Sem Sol (adeus Chris Marker)

Não vale a pena resistir a transformar um blogue num obituário. (Não houve quem provasse com cálculo que o próprio Facebook não tardaria a transformar-se num cemitério? – hão-de resolver isso, com um botão R.I.P. que minimiza desaparecidos; mas quem cuidará das suas hortas?)

Chris Marker deu com François Truffaut na rua. Reconheceu-o de vista como um habitual dos serões de cinema de Paris. Truffaut não pediu ajuda. Andava fugido do serviço militar. Mas Marker (pseud.) reparou no calçado gasto sem meias. E tratou de encaminhar o rapaz.

foto: Chris Marker, Sans Soleil (1982)

Donna Michelle (uma vida)

 

 

«Donna Michelle (8 de Dez. de 1945, Los Angeles, Califórnia – 9 de Abril de 2004, Ukiah, Califórnia) foi o pseudónimo de Donna M. Ronne, modelo, actriz, e fotógrafa. Foi «Coelhinha do Mês» da revista Playboy em Dezembro de 1963, e depois «Coelhinha do Ano» em 1964. Os fotógrafos da sessão de 1963 foram Pompeo Posar e Edmund Leja.
Em criança, Michelle estudou ballet e dançou no New York City Ballet. Tinha dezassete anos quando foi fotografada como «Coelhinha do Mês». Aos dezoito anos tornou-se a mais jovem «Coelhinha do Ano» da história da revista, um marco que ainda lhe pertence. Foi namorada de Hugh Hefner durante algum tempo.
Na universidade, Michelle estudou Artes Teatrais, e trabalhou brevemente como actriz, até tornar-se fotógrafa e autora do artigo temático «Donna Faz Cliques» no número de Abril de 1974 da revista Playboy. Donna teve direito a um selo na série comemorativa dos 50 anos da revista, com a sua capa do número de Maio de 1964.
Donna Michelle morreu a 9 de Abril de 2004 em Ukiah, Califórnia, ao sofrer um ataque de coração num supermercado. Tinha 57 anos.»

 

«O teatro é mais honesto» (Manoel de Oliveira)

 

 

«Hoje tenho uma ideia muito diversa da de antigamente. Neste meu último filme, Angélica, até mudei um pouco as ideias do que estava para fazer; foi mais por imposição e interesse do produtor que eu me atrevi e adaptei o filme à realidade. Mas, enfim, porque na verdade a gente chega a estas conclusões, a máquina de filmar… O teatro é mais honesto que o cinema, porque o cinema filma sonhos. Ora a máquina de filmar não pode filmar sonhos, a máquina de filmar não pode filmar pensamentos. No teatro nunca se representa um pensamento, nunca se representa um sonho. O actor chega ao palco e diz “eu sonhei isto e aquilo”. Se é verdade ou mentira, não se sabe. Ou então diz “eu pensei isto ou aquilo”, porque isto não se filma. Por essas razões, mudamos a ideia do contexto do cinema, e por isso acho que o teatro é fundamental. E, para mim, a expressão mais rica é a literatura. Lembro-me de que na Guerra e Paz, um sujeito quando estava para morrer – estava ferido, depois acabou por ficar doente -, estava preocupado em saber o que é a morte. Porque era uma porta por onde ele não entraria. Olhou lá para o fundo da sala e vê uma porta, e diz “Ah, é uma porta.” E eu achei isto admirável: a morte é uma porta. No mundo material, a porta dá para o cemitério. No mundo espiritual, a porta dá para algum lado, ou não.»

 

Entrevista ao Diário de Notícias

 

(Repare-se como, nos comentários à entrevista, na página do jornal, os que objectam ao gasto público no cinema se revelam bem instruídos pelo mesmo manual; dois deles chegam a usar, no seu par de curtas linhas, exactamente as mesmas duas expressões: «contribuintes» para si e para a sua voz colectiva, e «caprichos» para os filmes feitos.)

 

Poesia pequena e pequena política

 

 

Fim de campanha. No campo da «análise», todos os chavões em parada, até o da distância entre os eleitores e os eleitos. Num país de fracas elites, este lema oco passa por observação política. Neste blogue somos a favor de ainda maior distância. Quando ouvimos aquilo, só nos ocorrem os casos de intensa proximidade entre os eleitores e os seus eleitos: Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, etc.

O pior chavão coube nas palavras de uma comentadora artificiosamente penteada: «…esse é poeta, não sabe a diferença entre uma acção [de empresa] e uma caneta». O lugar-comum da poesia como incapacidade social, cognitiva, política ou científica, só fala da banalidade da ideia de poesia que lhe subjaz. Porém, eis que um credo de mau gosto literário se transforma em argumento político e de campanha eleitoral. Temos poetas engenheiros e matemáticos (e empresários). Mas apetece dizer que, em saber político e económico, Maria João Avillez está algo aquém de Elizabeth I, poeta.

 

No crooked leg, no bleared eye,
No part deformed out of kind,
Nor yet so ugly half can be
As is the inward suspicious mind.

 

As Massas Construídas

 

 

Teimosamente, continuámos a investigar as fotos da Avenida de Roma passada. A variedade não nos ocupa neste momento.

Tanto os doutores planeadores e empreendedores como os modestos plantadores de prédios acima, todos são anónimos hoje numa fotografia. Moveram massas de terra e ergueram massas de betão que mal nos ocupam a memória imediata.

 

 

Estamos habituados, não precisamos de notar ou sentir o percurso dos prédios no tempo, mais lento que o nosso, mais duradouro. Mas eis a delicada silhueta feminina na varanda, perto do alto poste de madeira provisório. Talvez dure um pouco mais que as massas construídas.

 


 

Choque tecnológico (fotos de Andrew McConnell)

 

 

da série «Rubbish Dump 2.0», fotografias de Andrew McConnell

via Wood S Lot

 

Pelo olhar de formação jornalística de A. McConnell vamos ver o que está debaixo de um dos tapetes da civilização: as lixeiras de objectos electrónicos como a de Agbogbloshie, no Gana, onde crianças e jovens «trabalham» a queimar cabos e peças de computadores para revenda dos metais e algumas peças úteis. Algumas destas crianças fabricam os seus «Magalhães», mas têm de tentar vendê-los.

 

Um miúdo

 

 

Fecharam mais de duzentas escolas no interior norte, por terem poucos alunos, nos anos mais recentes. Agora vão fechar mais. Cerca de mil, até 2011.
Mas esta «reforma» inconstitucional e genericamente anti-democrática não é apenas mais uma vitória da lógica grossista e de menoridade média no nosso ensino. É mais um episódio da desertificação e da desigualdade na distribuição da riqueza e dos direitos.
Entretanto, o pretexto do saneamento económico não tem efeito em relação aos dois mil gestores de empresas municipais num país de tamanho s ou xs.

Em 1839 havia um só miúdo a aprender em Vilarinho de Samardã, concelho de Vila Real. Chamava-se Camilo Castelo Branco.