De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

O burro come jornais


«Os deputados governamentais acercaram-se dele, convidando-o em termos delicados a aceitar, no banquete do progresso, o lugar que a sua inteligência reclamava. Os deputados oposicionistas conjuravam-no a não levantar a mão de sobre os projectos depredadores com que a facção governamental andava cavando novas voragens ao país.»

Camilo Castelo Branco, A Queda de Um Anjo, 1866.

George Grosz
The Eclipse of the Sun, 1926
The Heckscher Museum of Art, Huntingdon, New York © Estate of George Grosz

Revulsão tecnológica

 

 

A internet no Egipto foi cortada aos primeiros sinais da rebelião. No primeiro par de dias o assunto noticioso já não foi a deslumbrante influência que os famigerados feicebuque e tuíter tiveram na revolta, mas a influência que poderiam ter tido (!). Imagine-se a influência que poderiam ter tido na Revolução Francesa. No 25 de Abril, o capitão Salgueiro Maia teria tuítado: «O Sr. Professor não se quer render a uma baixa patente. Vamos esperar com dignidade». Será que o povo, de telemóvel em punho, teria aguentado? Quem seria o primeiro a re-tuítar: «Vamos a ele»? O que se teria perdido em dignidade talvez se tivesse ganho em rapidez, dirão alguns. Ainda que o ganho tecnológico tivesse resultado, curiosamente, numa descida do nível civilizacional.

Todavia, eis que a revolta egípcia teimou em permanecer artesanal, e curiosamente mais eficaz que outras bem tuítadas e feicebucadas, feita à base de ingredientes tradicionais: querer, voz, resistência e risco físico, fogo e pedras. E muito boca-a-boca. Os meios também fortemente tecnológicos e novos da fotografia digital e vídeo muito mais facilitados – para além do telefone «fixo» – não são assunto, obviamente porque já não são tão picantes comercialmente. Em breve, a revolução só será possível com tabletes (que jornalistas e políticos deslumbrados continuam a tratar obsessivamente por um nome comercial), do mesmo modo que ter mais do que um filho só é possível com uma carrinha multifuncional, ou as pazes do namoro só seriam possíveis por telemóvel com videochamada (esta receita parece que falhou enquanto coisa urgente, talvez porque o mercado da sedução aposta bastante no produto descartável e não tanto na recuperação para uso prolongado; ou, ainda mais simplesmente, porque a voz é muito mais prática do que a pose espelho-meu à frente da caixinha de plástico com câmara).

Anteontem, um comentador de tevê gabava-se de poder consultar os jornais internacionais «rapidamente» a respeito da revolta egípcia, graças à sua tablete da empresa Apple (como se não o pudesse fazer de nenhuma outra maneira). A apresentação das eleições presidenciais foi feita de tabletes na mão, e anunciada como tal ao longo de dias, o que manifestamente não teve qualquer utilidade televisiva (à parte a entorpecedora função de teleponto manual, e à parte o lucrativo patrocínio comercial, o único critério substantivo para quem televisiona, como se sabe). O Presidente da Câmara de Lisboa António Costa acabou uma entrevista na rádio escolhendo falar da sua tablete da empresa Apple, em vez de outro tema da cidade (em vez de, por exemplo, responder ao facto de o estacionamento nos bairros circundantes ao Bairro Alto ser totalmente isento de controlo nocturno, e de o recenseamento dos veículos de moradores datar de 1991 (vinte anos), no caso do bairro de São Mamede, ao Príncipe Real, por exemplo, e de os moradores serem sistematicamente vítimas de multas e reboque por não conseguirem estacionar ao fim do dia e à noite, por perderem o «jogo das cadeiras» com os turistas da bebedeira durante as 12 horas de suspensão do Código da Estrada e da Lei do Ruído, aliás não-regulamentada, portanto impossível de aplicar directamente pelas forças de segurança, em nome de alguma qualidade de vida mais urgente). Mas, enfim, este assunto é demasiado local, não tem valor globalizante. Se tivéssemos uma tablete teríamos outra capacidade.

 

 

[note-se como, nas televisões que se apressaram a adoptar o «acordo ortográfico», o Egipto passou a «Egito», mas os locutores continuam a dizer «egípcios», já que «egícios» ninguém dirá; Egito/egípcios – um de muitos casos de desordenamento e estupidez da sinalização etimológica, tal como no caso que interessa ao espectáculo: «espetadores»; é feio, inútil]

 

Poesia pequena e pequena política

 

 

Fim de campanha. No campo da «análise», todos os chavões em parada, até o da distância entre os eleitores e os eleitos. Num país de fracas elites, este lema oco passa por observação política. Neste blogue somos a favor de ainda maior distância. Quando ouvimos aquilo, só nos ocorrem os casos de intensa proximidade entre os eleitores e os seus eleitos: Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, etc.

O pior chavão coube nas palavras de uma comentadora artificiosamente penteada: «…esse é poeta, não sabe a diferença entre uma acção [de empresa] e uma caneta». O lugar-comum da poesia como incapacidade social, cognitiva, política ou científica, só fala da banalidade da ideia de poesia que lhe subjaz. Porém, eis que um credo de mau gosto literário se transforma em argumento político e de campanha eleitoral. Temos poetas engenheiros e matemáticos (e empresários). Mas apetece dizer que, em saber político e económico, Maria João Avillez está algo aquém de Elizabeth I, poeta.

 

No crooked leg, no bleared eye,
No part deformed out of kind,
Nor yet so ugly half can be
As is the inward suspicious mind.

 

As revoluções do Telephone

 

 

A grande novidade que os jornalistas viram na revolta do Irão foi o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. A grande novidade que os jornalistas vêem na revolta da Tunísia é o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. (Chamam-lhes revoluções; fala a geração de jornalistas que não distingue uma revolta de uma revolução.) As visões de futuro agora em campanha vêem… as redes sociais. Voltámos ao entusiasmo pelo Telephone. Entretanto, uma peça de teatro com página no feicebuque junta mais de novecentos amigos… e seis pessoas no segundo dia.

 

Respeitinho, inho, inho

 

 

Campanha presidencial. A gente cristã escorraça um candidato à presidência da sua «festa religiosa», festa onde pode haver cueca variada, fartura e CD de baile, talvez até o telemóvel desbloqueado, mas não pode haver meia dúzia de bandeiras de uma das candidaturas menos povoadas. «Respeitinho, respeitinho, hã!?», dizem, com um ódio entredentes à festa política, longamente aprendido e já antigo. O re-candidato já tinha feito um discurso em que invocava a «falta de respeito». Em que país europeu democratizado poderia um candidato presidencial invocar o conceito da falta de respeito como coisa pertinente?

Isto não vai a lado nenhum, e drama pessoal vai tentar esquecer Portugal.

[Ao menos hoje surgiu na conversa informativa a clamorosa situação contributiva dos independentes, os dos recibos verdes, trabalhadores individuais que estão a ser taxados como se fossem empresas; proporcionalmente, mais do que as empresas, num saque que afecta tantos do teatro, gente mais cara e chegada a este blogue; «é assim que estão feitas as regras», respondem os funcionários da Segurança Social, com um gosto pela redundância burocrática que nunca acabou com o anúncio da democracia, vai para quarenta anos.]

 

A Cruzada da Caridade

 

 

Passou o Natal, todo dedicado pela comunicação social popular à grande Cruzada da Caridade (posta de parte toda a análise das tiradas acácias do autocrata que quer ser reeleito).

O Banco Alimentar é que está a dar.

Os simpáticos escuteiros da mercearia de emergência estenderam por todo o lado os seus saquinhos, para recolherem os uísques e aguardentes de estágio prolongado, os conhaques, os presuntos, as trufas, os caviares. A alegria por esta jornada compensatória de uma distribuição da riqueza digna de uma democracia foi quase comovente, e contagiou até muitos dos despromovidos sociais mais recentes. O pobre preferirá sempre o impacto do sentimento ao abstracto do rendimento.

Dar é bom (não é?).

O assalto pelas «agências de comunicação» aos conteúdos informativos, por meio de antigos jornalistas tornados vendedores, continua sem ser notícia. A venda de espaço informativo imita a venda do espaço de exposição no mercado: na têvê, uma «especialista» da Corporação Dermo-histérica tem vinte minutos para desbobinar conselhos ao nível do senso-comum mais elementar «para nos ajudar a eliminar os excessos deste Natal». Digerir e defecar não basta. Dar também não. A mulher disse o nome da empresa sempre que pôde, o que na forma publicitária normal seria cobrado ao segundo, e naquela forma ofende um preceito jornalístico básico e até há pouco universalmente respeitado.

É um tempo de balanços. As referências ao avanço civilizacional acabaram sempre com as mesmas duas palavras: feicebuque, tuíter. Um antigo ministro feito conversador televisivo definiu as novas tecnologias com uma lista de produtos de uma só marca: ipod, ipad, iphone. As cabeças já nem sabem o que emitem. Entretanto, os pássaros caem dos céus aos magotes, provavelmente atingidos por vagas de 140 caracteres.

 

[o resto do artigo foi oferecido à caridade]

 

Vozes do trabalho

 

 

Temos falado pouco. Os tempos não estão para vozearia (um daqueles termos que um parlamentar descobre e depois são zurrados até se gastarem).
Passada a greve geral, sob a sombra de uma «utilidade» questionada (como se os direitos constitucionais da greve, da liberdade de expressão e de manifestação tivessem de justificar alguma mais-valia), a discussão paupérrima ficou-se pela aritmética disfarçada de estatística, e outras facilidades.

Dizem os ingleses que há duas maneiras de mentir em política: mentindo, ou recorrendo à estatística. A banalidade da estatística no nosso meio passou as fronteiras do hilário.
Na semana passada, um deputado socialista comparava a carga fiscal, e, como que por inferência, a política fiscal e orçamental dos países nórdicos com a nossa, tirando a divertidíssima conclusão de que seriam «idênticas».

A facilidade mais recorrente é a de que é preciso «trabalhar mais». A ministra do trabalho e o líder da oposição gostam dessa tecla, como se o factor trabalho determinasse a produtividade, e não fosse o factor valor muito mais importante nesse cálculo – assim confirmará qualquer caloiro de economia e gestão.

Por mais que nos estafemos a fazer chinelos ou lençóis, nunca teremos a produtividade de quem faz circuitos impressos.

As opções quanto ao valor a produzir cabem aos empresários, gestores e planeadores empresariais e políticos, muitos dos quais aparecem agora a caluniar a massa dos que executam, tendo falhado todos estes anos (falhado é como quem diz… apenas do ponto de vista do ganho comum).

E depois há os que nem sequer passam por ser trabalhadores, e na hora de se exprimirem – e é da expressão que se faz o seu trabalho – se mostram passivos e ignorantes.

Espectáculo no Teatro da Trindade, casa do Inatel, construído a partir de música do trabalho portuguesa que o etnólogo corso Michel Giacometti dedicou anos da vida a recolher, e a quem o Estado Português nunca soube merecer enquanto vivo.
Uma Agenda Cultural da têvê lembra-se de interrogar os actores que encarnam a gente da labuta sobre a greve do dia 24. Duas veteranas da nossa cena abrem a boca.

Uma diz que «o Ministério da Cultura é o que tem menos dinheiro, pelo menos é o que me dizem» e que é «preciso dar a volta a esta situação». A outra diz que «na situação em que estamos, uma greve, não acho correcto». Ou seja, uma acha que é tudo uma questão de dinheiro ministerial. A outra bate na tecla do trabalho. E esta gente ignorante andou anos a representar dificuldades da vida, conflitos de interesses, pessoais, sociais e políticos. Não aprenderam nada. Merecem menos do que têm.

Na peça jornalística seguinte, uma actriz mais nova de olhos redondos a trabalhar em Almada diz qualquer coisa sobre uma peça de Tennessee Williams. Diz o quê?
«É muito actual…»