Um lema

Ah, os blogues que  prometem começar, recomeçar ou continuar. Os tempos não estão para tiradas vãs. Muito menos a respeito do teatro, que elegemos como o tema preferencial deste órgão de comunicação social e que, quanto a nós, continua a ser o pequeno sangramento, a pequena verruga ou obstipação, náusea, inchaço ou comichão que revela o cancro. O teatro não faz sentido nenhum aqui e agora, e isto ser uma evidência é que dá especial sentido e razão de ser ao mesmo teatro. Enfim, isto tudo para deixarmos aqui um lema que brotou em conversa, em saudação ao ridículo «acordo ortográfico» que muito poucos tiveram a lucidez de denunciar como mecanismo para forçar a escrita a imitar a fala, quando o seu registo tem níveis de informação totalmente alheios ao mexerico vocal – tudo em nome da utopia burocrática da lusofonia:

Não quero espetadores nos meus espectáculos.

 

As revoluções do Telephone

 

 

A grande novidade que os jornalistas viram na revolta do Irão foi o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. A grande novidade que os jornalistas vêem na revolta da Tunísia é o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. (Chamam-lhes revoluções; fala a geração de jornalistas que não distingue uma revolta de uma revolução.) As visões de futuro agora em campanha vêem… as redes sociais. Voltámos ao entusiasmo pelo Telephone. Entretanto, uma peça de teatro com página no feicebuque junta mais de novecentos amigos… e seis pessoas no segundo dia.

 

Um tornado tão pequeno

 

 

 

Na Costa do Marfim, hoje.

 

Onze deram a vida por um resultado eleitoral. Por cá, o (bom) costume. Continua a ser necessário entender as regras do futebol para entender as metáforas políticas: cartão amarelo, fora de jogo, jogar à defesa. Parece que houve um tornado horrível. Mas não há portugueses entre as vítimas.

 

fonte: El País (recorte fotográfico deste blogue)

 

Um lavatório verdadeiro

 

 

As generalidades mais instrumentais, tal como Goebbels já sabia, contaminam a realidade e instituem-se em verdade pela repetição. O princípio segundo o qual «Os portugueses vivem acima das suas possibilidades» é dos que ganharam certeza própria. Nesta foto de um apartamento «totalmente remodelado» para arrendar (T0, arredores de Lisboa), vemos que o inquilino à data da publicação do anúncio dispõe, nada mais nada menos, de três escovas de cabelo, para além de um pente. Se é demagógico supor que num T0 viverão mais do que um ou dois ocupantes, ainda assim pelo menos uma escova e um pente, ou duas escovas, ou no mínimo uma delas, estão em excesso. Também parece haver um consumo excessivo de papel higiénico.
À parte a nota sociológica, um pormenor de interesse artístico está nos dois frasquinhos, um laranja-vivo e outro verde, postos lado a lado junto ao frasco de sabonete redondo exactamente pelo mesmo critério harmónico que pôs os dois copos quadrados de loiça antes do copo redondo, da esquerda para a direita.

 

Dias de sol dos antigos

 

 

Os noticiários televisivos locais repetiram o truque publicitário da Amazon.com, que divulgou ter vendido, pela primeira vez, mais livros digitais que livros de capa dura. Os jornalistas portugueses saltaram imediatamente para a conclusão de que o papel morreu. Lessem mais papel e saberiam a diferença entre hardbacks e paperbacks. A Amazon quer vender Kindles, e os jornalistas, tal como disse Salvador Dalí a um jornalista português, querem ser mais Dalí que Dalí.

 

Temos estado ocupados. Não fomos indiferentes à agitação política que mudará este país, bem expressa nos abaixo-assinados e movimentações contra o pagamento de estradas prontas e acabadas, nunca questionadas, ou nas duas ferozes manifestações contra a transferência de dois padres.
Corremos departamentos da Segurança Social e das Finanças para resolver uma questão com o Estado. Uma semana de lento progresso, enquanto em Israel se discutia o destino dos papéis de Kafka. O recorde de espera foi o do dia 22: 5 horas no balcão do Saldanha da Segurança Social.
Na chamada Secção de Processo, na Praça de Londres, o chamado beneficiário (os independentes não beneficiam de nada) tem de ficar em pé diante de um balcão de um palmo e três dedos de fundo por três palmos de largura para dispor o seu caso em papéis, com um mínimo de dez pessoas em redor a ouvirem a narrativa dos seus erros ou pedidos.
Uma ideia simples, que proporciona fluidez no atendimento.

 


As pressões do absurdo burocrático que assola os trabalhadores independentes das artes fomos aliviá-las no último piso do centro comercial Acqua, na Avenida de Roma, cuja zona de restauração está rodeada por fotografias da avenida, dos tempos em que o sol mandava e os carros obedeciam.

 

Em cartaz, já sob a sombra de A Sede do Mal, o filme Nathalie [Agente Secreta], de Henri Decoin, 1959, com Martine Carol, a quem só Brigitte Bardot veio ocultar.

 

[fotos em exibição na zona dos restaurantes e na página online do centro]

 

Choque tecnológico (fotos de Andrew McConnell)

 

 

da série «Rubbish Dump 2.0», fotografias de Andrew McConnell

via Wood S Lot

 

Pelo olhar de formação jornalística de A. McConnell vamos ver o que está debaixo de um dos tapetes da civilização: as lixeiras de objectos electrónicos como a de Agbogbloshie, no Gana, onde crianças e jovens «trabalham» a queimar cabos e peças de computadores para revenda dos metais e algumas peças úteis. Algumas destas crianças fabricam os seus «Magalhães», mas têm de tentar vendê-los.

 

Com grandes dúvidas

 

 

Este blogue tem pouco para oferecer, num tempo em que um grupo desordenado de jogadores de futebol se presta a «reconquistar África» (sic) e um festival de música pop com um ano de publicidade grátis e playback ao vivo tem «ofertas para todos os gostos» (sic).
Entretanto, na loja de animais, um gato preto que ninguém quer adoptar, o último da sua ninhada, cedeu à tristeza com a ida do irmão que lhe restava; o esquilo da gaiola ao lado despertou-o da inércia, e agora dormem juntos. Quem finalmente adoptar o gato salva-lhe a vida e destrói uma amizade.

 

«Estou com grandes dúvidas em relação ao médio prazo.»
«Não te preocupes. O que vai acabar contigo é o longo prazo», respondeu o Zé.

 

«Faz-me um Dodó»

 

 

Em cima, o suspiro do leitor do Guardian lowercaseluke perante a notícia da criação da primeira forma de vida sintética, a partir de DNA artificialmente combinado, pela equipa do cientista Craig Venter (no dia de mais um roubo de valores sem conta, no Museu de Arte Moderna de Paris). Nenhuma destas duas notícias acordará especial interesse público entre nós. Mas o que há-de mais certamente faltar, em relação ao primeiro acontecimento, será o humor de lowercaseluke e dos seus parceiros, que, na maior parte dos casos, brota de saber quotidianizado: científico, filosófico até, com um q.b. de cultura pop. Disto estamos longe, por cá, nos ecos à comunicação de massas e na própria comunicação de massas. Aqui, quem quer que tente uma ironia acaba por explicá-la logo a seguir, ou antes de acabá-la, tantas vezes por defesa.

E dê-se algum desconto ao estilo pseudo-formal deste blogue, que deve mais a uma preocupação de privacidade e de – nas boas palavras de uma leitora – arrefecimento da temperatura corporal.

Aquele espírito de voo curto ficou à vista ontem, na entrevista televisiva a Anna Mascolo. Quase não compreendemos a elegância com que a Professora respondeu à curiosidade romba do jornalista, quando explicava a necessidade da exigência de diploma de ensino superior de dança para a abertura e manutenção de cursos: «Mas não estará a ser um pouco elitista?» (para esta classe média mal escorada tudo se exprime em mediania, até ao paradoxo, como na fórmula «um pouco elitista»). «Mas a dança clássica não tem um público restrito?». A mestra de bailado não perdeu a compostura.

A pergunta simples e necessária não teria sido entendida:
«Onde?»