Recomeço

O longo tempo de pausa deste blogue começa a ter efeito nesta primeira fase de arrumação. Começámos pela apresentação gráfica, mantendo a paleta e a imagem-emblema, mas tornando a coluna única mais legível, larga e limpa. A partir de agora, os textos e imagens serão por princípio originais do blogue, salvo raras excepções (este blogue continuará a não respeitar o chamado «novo acordo ortográfico»). Drama Pessoal irá muito provavelmente descartar uma parte importante do seu conteúdo anterior para recomeçar como registo da experiência de alguém que trabalha para o teatro e artes de palco – a intenção inicial, afinal. (As páginas secundárias «Editorial» e «Artigos» foram temporariamente desligadas, para reformulação; a página até agora dedicada ao escritor António da Silva Teixeira Electricidade será transformada num blogue exclusivamente dedicado ao autor – a anunciar -, mas fica por enquanto disponível, a pedido de alguns interessados; há mais textos de Electricidade para juntar ao conjunto).
Mais teatral, mais pessoal – talvez uma contradição de termos. Este regresso ao teatro faz todo o sentido, precisamente agora que tanto consta em contrário.

 

 

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Gravado a lápis para sempre

 

 

Na semana passada, um amigo achou um escrito de António da Silva Teixeira Electricidade que esta noite faz dezanove anos. Um feito notável, para um escrito a lápis numa parede de um prédio igualmente parado no tempo, na Rua Rodrigues Sampaio. O tema é denso, talvez captado na imprensa internacional à mostra pelas ruas, ou captado, simplesmente. São modestas, as nossas alegrias.

 

Com tempo

 

 

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O Hotel Ritz (Four Seasons) do Parque Eduardo VII, Lisboa, ontem, às 20:34. Cromo a partir de fotografia digital não tratada, com brilho de candeeiro e pequena gota de água sobre a lente de uma prática e maleável Fuji Finepix S1000fd, em modo manual. Exemplo do que se pode ver, com tempo, à hora das tele-notícias ou tele-romances, mesmo numa zona da cidade de Lisboa que foi entregue ao automóvel, e onde é preciso gastar centenas de passos mais do que era habitual, numa serpente de semáforos, motores e barreiras metálicas, acima e abaixo, para ir do lado da rua esquina do Hotel Fénix – em cuja parede Electricidade escreveu muitas centenas de linhas a lápis – para o lado do Ritz e do Parque.

Parede onde Electricidade escreveu notícias de última hora como, a 10-8-1991:

«A Construção Civil não é trabalho, mas SIM – GUERRA – contra MIM».

Ali se encontrou muitas vezes com Novalis, e com o seu princípio que escapa a todas as horas de ponta:
«Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido.»

 

 

Um ano

 

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Drama Pessoal fez ontem um ano.

As opiniões, mesmo recentes, escritas na retórica cívica contrariada de que sempre nos arrependemos, foram. Os textos livres e as imagens que buscámos ou fizemos, mais as suas relações, persistem.

Queremos, como se diz na moda, explorar a segunda tendência. Queremos um blogue ainda mais surdo, como se diz, ao que nos cerca.

Aos blogues interessa, cremos, o princípio de William James, para quem a sabedoria consiste no saber do que vale a pena ignorar.

Não falámos muito de teatro. Uns apartes técnico-líricos de louvor aos amigos actores. Nada de grave. Aí soubemos fugir à opinião.

Não cuidámos intensamente da edição do escritor Electricidade, na sua página própria. Essa edição avançará mais depressa até completar-se.

Obrigado pela companhia.

 

Boarding Pass (Viagens)

 

 

PAN AM

J.F.K., PARIS DE GALLE

P 114

DATUM 21 DEZ

BOARDING PASS

NAME

[ilegível]

 

 

 

 

 

 

 

Começamos assim a pequena série Viagens, para estes dias de Agosto. Para os que já conhecem António da Silva Teixeira Electricidade, nascido na freguesia de Nogueiró, concelho de Braga, e têm buscado aqui a sua visão, eis um dos escritos mais compactos que deixou, não datado. Restos de um bilhete encontrado? Lembrança de uma viagem sua ou de alguém? De alguma imagem observada com atenção? Dois aeroportos com nomes de homens políticos que (também) gostavam de falar directamente à História, De Gaulle e J.F.K. E uma referência à que foi a maior companhia aérea do mundo, a Pan American Airlines, Pan Am, cujos aviões com o emblema do globo azul pareciam infinitos, e ainda hoje fazem a carreira comercial para a estação da órbita lunar, no filme 2001, de Clarke e Kubrick, mas que faliu em 1991. Talvez Electricidade tenha colhido um dos últimos bilhetes Pan Am perdidos no chão de Lisboa. Pouco antes de ele próprio deixar estes céus. [ortografia do autor]

 

 

Eles Se Pudessem

 

Êles se
pudessem
eu nem água
beberia

27-12-91

 

Celebramos a retoma da publicação dos escritos de António da Silva Teixeira Electricidade na sua página própria com este recado íntimo, recolhido por nós numa folha solta, numa fase em que os textos já não eram abundantes, arrancados com os seus cartazes, lavados das paredes de pedra sem serem substituídos por novos.

Vamos agora publicar o Segundo Caderno, o maior, usado durante mais tempo. Agradecemos a todos os amigos que têm respondido com generosidade à experiência deste escritor de Lisboa. Vemos nele maior verdade que em muitos que querem dizer muito.

Um Poema do General Franco Portugal

Retomamos a publicação da escrita de António da Silva Teixeira Electricidade com o último texto que faltava do Primeiro Caderno, quando foi a nossa interrupção técnica. É uma poesia, como diria Álvaro de Campos e não gostam de dizer os doutores. A assinatura de Electricidade variou desta vez para General Franco Portugal. Muitos dos que o conheciam da rua tratavam-no por “O General”.

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Electricidade transformou um poema de Almeida Garrett do livro Folhas Caídas, quem sabe trazido de memória da escola, e fê-lo seu, mudando até o título, de “Saudades” para “Felicidades”, que depois riscou para pôr “Felecidades” (ver interessantíssimo artigo de Anna Beer, no Guardian Online, sobre a instrução da memória na escola renascentista inglesa, através da memorização metódica de poemas e imagens; já agora, veja-se também, da mesma autora, só porque tem interesse, num tempo de banalização da escrita, “How the mainstream dilutes literature”).

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A escolha que vamos ver aqui é uma lição de poesia, por ser uma lição de síntese, que, ao contrário do que muitos acham, é a primeira característica dessa arte, por maiores em extensão que sejam os textos. Os Lusíadas são extraordinariamente sintéticos, assim como o fado “Estranha forma de vida”. Ao contrário, certos poemas curtos que andam aí não têm síntese, têm só conversa. A “Saudades” faltava-lhe a síntese. Electricidade arrancou o coração melancólico do poema e cuidou-o ao ritmo do seu dizer de natural de Nogueiró, concelho de Braga.
Livrou o original de Garrett, que queria ser campestre e tradicional, da canga literária que ainda lhe punha peso.
Curto, o poema ficou mais intacto, mais triste, porque mais declarativo, menos enrolado sobre si próprio. Na página Electricidade deste blogue estará o poema inteiro à maneira do novo autor. Aqui fica a versão de Electricidade com as estrofes de Garrett que foram rasuradas, para se ver como funcionou uma memória poética sobre a outra.
Como fez Mário de Sá-Carneiro, Electricidade também gostava de pôr em maiúsculas os termos com maior sentido simbólico ou emotivo.

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As ilustrações são rascunhos a esferográfica das nossas aulas de Letras do tempo da primeira recolha dos textos de Electricidade, anos oitenta. Miniaturas das edições internacionais de Electricidade: Penguin Classics, Oxford Paperbacks, etc. Edições dos textos, uma tese académica, e um guia de Lisboa, com as torres das Amoreiras na capa. Cartoon da mesma série.

 

Saudades (Felicidades) FELECIDADES

 

Leva este Ramo, Pepita,
De Saudades Portuguezas:
É flor nossa, e tão Bonita
Não na Há noutras devezas

Seu perfume não seduz
não tem variado matiz,
vive à sombra, foge à luz,
as glórias d’amor não diz;

mas na modesta beleza
de sua melodia
é tão suave tristeza,
inspira tal simpatia!…

E tem um Dóte esta flor
que de outro igual se não diz:
Não Perde Viço ou frescôr
Quando a Tiram da Raiz

Antes mais e mais floresce
com tudo o que as outras mata;
até às vezes mais cresce
na terra que é mais ingrata.

Só tem um Cruel Senão
Que te não devo Esconder:
Plantada no Coração
Toda outra flor faz Morrer.

E, se o quebra e despedaça
com as raízes mofinas,
mais ela tem brilho e graça,
é como a flor das ruínas. Não,

Pepita, Não Ta dou
Não te dou esta flor
Que eu Sei que Me Custou
Tratá-la Com Tanto Amor

General Franco Portugal

Tempo Ao Tempo

 

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A 8 de Janeiro de 1989, António da Silva Teixeira Electricidade escreveu sobre uma camada de cartazes o que parece ter sido a sua mensagem para o novo ano. O pedaço de papel escrito foi recortado da parede e guardado, e será reproduzido (a seu tempo) na página Electricidade deste blogue, com o resto da obra que pudemos salvar.

A 7 de Janeiro tinha morrido Hirohito, Imperador do Japão, notícia que causou intensa emoção a Electricidade, depois de ansiosamente ter acompanhado a doença final daquele a quem «Eles» estavam «a fazer sofrer horrorosamente».

8-1-1989
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Dei-a Tempo ao Tempo

 

NÃO Actue Precipitadamente,
Pense Maduramente antes de Actuar,
Dei-a Tempo ao Tempo, Para Actuar,
Com conhecimento do que vai fazêr,
Meça as Distancias, e as Responsabilidades,
E os Perigos, Para que Você não venha
A Sêr Vitima do Seu Precipitado Comportamento
Dei-a tempo ao tempo

 

8-1-1989
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