Por limpeza, voltamos à arte

 

Por limpeza, voltamos à arte, especialmente a que a circula na internet mas não lhe pertence. Eis uma série de contra-guardas de livros, as coberturas duplas que forram as faces interiores da encadernação, e preparam ou substituem a folha de guarda, aquela mais grossa que protege a folha de rosto. Estas foram achadas no blogue Stopping Off Place, em si próprio um autêntico portal de educação pela arte e artes visuais, através da sua escolha de outros blogues, lista que vivamente aconselhamos.

Aqui bastam-nos as miniaturas. Para o tamanho maior, vide a fonte. As mãos gostam de papel. Os olhos também. A computação e o plástico oleoso são para as letras um lugar de passagem.

 







 

ver Stopping Off Place

 

Um lavatório verdadeiro

 

 

As generalidades mais instrumentais, tal como Goebbels já sabia, contaminam a realidade e instituem-se em verdade pela repetição. O princípio segundo o qual «Os portugueses vivem acima das suas possibilidades» é dos que ganharam certeza própria. Nesta foto de um apartamento «totalmente remodelado» para arrendar (T0, arredores de Lisboa), vemos que o inquilino à data da publicação do anúncio dispõe, nada mais nada menos, de três escovas de cabelo, para além de um pente. Se é demagógico supor que num T0 viverão mais do que um ou dois ocupantes, ainda assim pelo menos uma escova e um pente, ou duas escovas, ou no mínimo uma delas, estão em excesso. Também parece haver um consumo excessivo de papel higiénico.
À parte a nota sociológica, um pormenor de interesse artístico está nos dois frasquinhos, um laranja-vivo e outro verde, postos lado a lado junto ao frasco de sabonete redondo exactamente pelo mesmo critério harmónico que pôs os dois copos quadrados de loiça antes do copo redondo, da esquerda para a direita.

 

Choque tecnológico (fotos de Andrew McConnell)

 

 

da série «Rubbish Dump 2.0», fotografias de Andrew McConnell

via Wood S Lot

 

Pelo olhar de formação jornalística de A. McConnell vamos ver o que está debaixo de um dos tapetes da civilização: as lixeiras de objectos electrónicos como a de Agbogbloshie, no Gana, onde crianças e jovens «trabalham» a queimar cabos e peças de computadores para revenda dos metais e algumas peças úteis. Algumas destas crianças fabricam os seus «Magalhães», mas têm de tentar vendê-los.

 

Com Chave Mutável (Paul Celan)

 

 

 

Com chave mutável
abres a casa em que
vagueia a neve daquele que foi silenciado.
Conforme o sangue que te brota
dos olhos, da boca ou dos ouvidos,
muda a tua chave.

Muda a tua chave, muda a palavra
que pode vaguear com os flocos caídos.
Conforme o vento que te empurra
assim aumenta a neve em torno da palavra.

 

 

 

foto: the Guardian
da tradução de João Barrento e Y.K. Centeno
(com uma alteração)

Uma desculpa melhor do que outra qualquer

 

no secrecy in art

Temos estado ocupados. A nossa desculpa para a ausência fomos buscá-la a William Blake, pela mão do desenhador Robert Crumb, na sua Art & Beauty Magazine (Taschen). Reflexão desenhada e comentada sobre o modelo artístico feminino. Temos para nós que o teatro nunca deve esquecer que é uma arte popular. Blake, exemplo daquele que não pára na escada da visão e do sublime, pensava o mesmo da poesia: «Todo o empenho do homem está nas artes, e em tudo o que é comum». As Artes. Espanta-nos sempre o sentido manual e oficinal que o místico dá ao termo Artes. Como se a sua voz laboral fosse sempre a do desenhador.

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