De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

Personalização

 

 

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Depois de algumas reclamações de amigos, e após mais umas férias da chamada realidade portuguesa, chegamos para ver a rua animadamente regressada aos princípios dos anos 80.

Nada de novo, sob este sol.

Entretanto, temos a relatar um pequeno episódio português. Ao comprarmos um leitor de dvd externo, para uso com um computador de pequeno formato, ofereceram-nos à escolha dois sólidos rectangulares com gaveta exactamente iguais, um com uma marca coreana e outro com o nome de magalhães em letra pequena, dizem, de tecnologia nacional.

«Olhe, eles são exactamente a mesma coisa, só que este diz magalhães e fica mais barato», disse-nos o vendedor, com genuína simpatia, depois de ter buscado com cuidado no armazém. «Não sei se lhe faz diferença».

Claro que faz diferença. Levámos o mais caro. Explicámos que não queríamos que o leitor de discos nos lembrasse, por um segundo, o programa que assenta no fornecimento de um bem de equipamento (medíocre) a um aprendiz geralmente incapaz de enfrentar um texto durante mais de dez minutos, seja num ecrã, seja numa página de papel impresso.

Um idiota à frente de um computador é um idiota à frente de um computador.

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… O que nos lembra um dos melhores aspectos da internet: a fuga ao condicionamento televisivo. Uma das nossas últimas entradas saudava, de maneira talvez demasiado concisa, a forma de comunicação conhecida por filesharing: a partilha automatizada de conteúdos de arte & entretenimento.

A nossa informação televisiva, sempre paroquial e alegremente mainstream, festejou vivamente a «prisão» dos responsáveis do site de partilha The Pirate Bay, parecendo contentar-se em exibir um conhecimento absolutamente rudimentar do processo judicial, longe de concluído (para além de uma total ignorância da ferramenta informática P2P, confundida com um dos aspectos do seu uso; porém, o tédio de argumentar sobre isto paralisa-nos).

É normal que a televisão colabore na «televisionação» da internet, ou seja, no condicionamento e racionamento comercial da circulação de todos os conteúdos. A mesma televisão que abdicou, tal como as indústrias irmãs do audiovisual, de muitos dos conteúdos de valor artístico que agora circulam democraticamente, muitas vezes exclusivamente, por sistemas de intercâmbio e divulgação como o filesharing.

Continuamos a receber cadeias de e-mails de preocupação pelas ameaças de estreitamento comercial da internet. Entretanto, a defesa da internet como praça aberta está, precisamente, nas mãos dos que se deixaram arrebanhar em facebooks e myspaces e twitterlands onde são diariamente mungidos de dados de perfil e comportamento por aqueles mesmos que lhes querem lotear o espaço.

O rebanho é fácil de tocar. Um opinador antecipava na nossa tv o futuro da internet 3.0 como um ambiente em que o acesso será «mais personalizado».

A personalização, explicada num português elíptico e assintáctico, era então a adequação das nossas (dele) buscas e escolhas aos nossos (dele) gostos. Ou seja, a personalidade toda de acordo com o manual básico da tipificação de grupos de consumo. O indivíduo enquanto cliente satisfeito.

Ou seja, encurtado o jargão pseudo-técnico e os exemplos complacentes, a personalização equivaleria à velha fórmula de mais do mesmo aplicada a cada um (em complemento da fórmula televisiva de mais do mesmo para todos). Quanto a nós, eis o exacto oposto da personalização, se é que o termo designa um aprofundamento individual, mas em relação com o mundo, e em tudo oposto àquele contentamento obsessivo-compulsivo do admirável mundo 3.0.

 

 

Polaróide (2)

 

«Tens Twitter?», perguntava-nos uma menina. «Não», dissemos. Mas podíamos ter respondido com um princípio do budismo Zen: «Não sigas o curso da mente do pássaro».
A lentidão deste blogue às vezes confrange-nos. Mas a maior parte dos blogues de que gostamos são bastante lentos. Graças a um desses, demos com esta fotografia.

 

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Trata-se de uma polaróide autêntica, com a sua ténue margem de fumo. Pertence a Rui Cambraia, artista plástico, fotógrafo e bloguista veterano, dos tempos em que os blogues não eram quase todos pré-formatados, como este (mais tempo poupado, para estar calado mais tempo).

O bloguista em causa é um caminhante, no velho sentido experiencial do termo. Pascoaes disse um dia que viajar num automóvel a quarenta quilómetros por hora era como cavalgar a cauda de um trovão. Este bloguista conhece o poder de ilusão da rapidez presente, e assim cultiva a fotografia mais básica, igual à do começo, conhecida como «pinhole» (ou, mais filologicamente, «fotografia estenopeica»). Cultiva a polaróide, ou a fotografia de revelação instantânea semelhante, que o fabricante Fuji parece querer continuar; para além da fotografia em película e digital, com ponto de partida para todos os caminhos no seu exílio de Portalegre.

No seu caminho de registo online, Rui Cambraia descartou o seu blogue original e mudou o nome e a forma deste mais ligeiro mais do que uma vez. A última mudança intriga-nos, mas recorda-nos o fascínio que temos por um botão no nosso próprio painel de gestão: Delete Blog (que já teve a mais eloquente fórmula: Delete this Blog).

Em vez de mostrar o rol das entradas anteriores, o blogue presente dispensou quase totalmente a memória. A página que está à vista forma a entrada única. A página pode não chegar a ser substituída, mas apenas renovada, com mais ou menos elementos. No painel lateral é possível activar um arquivo de imagens já publicadas, ou partir para as «Extensões» do blogue: para Photoshop.com (galeria de fotos), Polanoid.net (galeria de polaróides e instantâneas), e Pinhole Lab (blogue de actividades da fotografia «pinhole», ou seja: película+lente+caixa preta… +cabeça sensível à luz.

 

visitar Uma Vista Daqui

 

Tarde lisboeta (caminhada, com meditação sobre o bloguismo)

 

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«Voltemos ao início. Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato – e tantas vezes durante quanto tempo? – injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»

 

Maria Filomena Molder, «Uma Promessa do Deserto» (último parágrafo),
in A Imperfeição da Filosofia, Relógio d’Água, 2003.

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Um ano

 

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Drama Pessoal fez ontem um ano.

As opiniões, mesmo recentes, escritas na retórica cívica contrariada de que sempre nos arrependemos, foram. Os textos livres e as imagens que buscámos ou fizemos, mais as suas relações, persistem.

Queremos, como se diz na moda, explorar a segunda tendência. Queremos um blogue ainda mais surdo, como se diz, ao que nos cerca.

Aos blogues interessa, cremos, o princípio de William James, para quem a sabedoria consiste no saber do que vale a pena ignorar.

Não falámos muito de teatro. Uns apartes técnico-líricos de louvor aos amigos actores. Nada de grave. Aí soubemos fugir à opinião.

Não cuidámos intensamente da edição do escritor Electricidade, na sua página própria. Essa edição avançará mais depressa até completar-se.

Obrigado pela companhia.