De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

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[sem título]

 

 

Um pedido de desculpas pela demorada suspensão sem aviso. Algum trabalho criativo afastou-nos daqui. Estamos também a pensar em mudar um pouco o conteúdo deste blogue. Esperamos que a imagem escolhida para figurar a pausa seja do agrado dos visitantes. Há anos que a temos guardada, em tamanho maior, talvez para ilustrar um pequeno livro em parte dedicado ao Tempo (enfim; em certo sentido, os livros são todos dedicados ao Tempo). Parece que há uma tribo da Amazónia que não tem a palavra tempo (parece que há uma tribo na Amazónia para cada um dos nossos problemas). Não podemos dar-nos a esse luxo (outra palavra frequentemente dispensada pelas culturas, algumas bastante complexas).

 

Fizemos uma pequena limpeza, sim

 

 

Fizemos uma pequena limpeza, sim. Desde o início, decidimos que, ao contrário da normal postura bloguística, nunca escolheríamos o caminho mais curto. A todos a quem molestou a queda nos estertores (e torpores) quotidianos, o nosso pedido de desculpas. A nós próprios, para começar.

«Não existe pior desperdício do espírito e do coração do que procurar convencer adversários que não se preocupam absolutamente nada em estar de acordo consigo próprios.»

Arthur Schnitzler

 

Por limpeza, voltamos à arte

 

Por limpeza, voltamos à arte, especialmente a que a circula na internet mas não lhe pertence. Eis uma série de contra-guardas de livros, as coberturas duplas que forram as faces interiores da encadernação, e preparam ou substituem a folha de guarda, aquela mais grossa que protege a folha de rosto. Estas foram achadas no blogue Stopping Off Place, em si próprio um autêntico portal de educação pela arte e artes visuais, através da sua escolha de outros blogues, lista que vivamente aconselhamos.

Aqui bastam-nos as miniaturas. Para o tamanho maior, vide a fonte. As mãos gostam de papel. Os olhos também. A computação e o plástico oleoso são para as letras um lugar de passagem.

 







 

ver Stopping Off Place

 

Com grandes dúvidas

 

 

Este blogue tem pouco para oferecer, num tempo em que um grupo desordenado de jogadores de futebol se presta a «reconquistar África» (sic) e um festival de música pop com um ano de publicidade grátis e playback ao vivo tem «ofertas para todos os gostos» (sic).
Entretanto, na loja de animais, um gato preto que ninguém quer adoptar, o último da sua ninhada, cedeu à tristeza com a ida do irmão que lhe restava; o esquilo da gaiola ao lado despertou-o da inércia, e agora dormem juntos. Quem finalmente adoptar o gato salva-lhe a vida e destrói uma amizade.

 

«Estou com grandes dúvidas em relação ao médio prazo.»
«Não te preocupes. O que vai acabar contigo é o longo prazo», respondeu o Zé.

 

Personalização

 

 

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Depois de algumas reclamações de amigos, e após mais umas férias da chamada realidade portuguesa, chegamos para ver a rua animadamente regressada aos princípios dos anos 80.

Nada de novo, sob este sol.

Entretanto, temos a relatar um pequeno episódio português. Ao comprarmos um leitor de dvd externo, para uso com um computador de pequeno formato, ofereceram-nos à escolha dois sólidos rectangulares com gaveta exactamente iguais, um com uma marca coreana e outro com o nome de magalhães em letra pequena, dizem, de tecnologia nacional.

«Olhe, eles são exactamente a mesma coisa, só que este diz magalhães e fica mais barato», disse-nos o vendedor, com genuína simpatia, depois de ter buscado com cuidado no armazém. «Não sei se lhe faz diferença».

Claro que faz diferença. Levámos o mais caro. Explicámos que não queríamos que o leitor de discos nos lembrasse, por um segundo, o programa que assenta no fornecimento de um bem de equipamento (medíocre) a um aprendiz geralmente incapaz de enfrentar um texto durante mais de dez minutos, seja num ecrã, seja numa página de papel impresso.

Um idiota à frente de um computador é um idiota à frente de um computador.

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… O que nos lembra um dos melhores aspectos da internet: a fuga ao condicionamento televisivo. Uma das nossas últimas entradas saudava, de maneira talvez demasiado concisa, a forma de comunicação conhecida por filesharing: a partilha automatizada de conteúdos de arte & entretenimento.

A nossa informação televisiva, sempre paroquial e alegremente mainstream, festejou vivamente a «prisão» dos responsáveis do site de partilha The Pirate Bay, parecendo contentar-se em exibir um conhecimento absolutamente rudimentar do processo judicial, longe de concluído (para além de uma total ignorância da ferramenta informática P2P, confundida com um dos aspectos do seu uso; porém, o tédio de argumentar sobre isto paralisa-nos).

É normal que a televisão colabore na «televisionação» da internet, ou seja, no condicionamento e racionamento comercial da circulação de todos os conteúdos. A mesma televisão que abdicou, tal como as indústrias irmãs do audiovisual, de muitos dos conteúdos de valor artístico que agora circulam democraticamente, muitas vezes exclusivamente, por sistemas de intercâmbio e divulgação como o filesharing.

Continuamos a receber cadeias de e-mails de preocupação pelas ameaças de estreitamento comercial da internet. Entretanto, a defesa da internet como praça aberta está, precisamente, nas mãos dos que se deixaram arrebanhar em facebooks e myspaces e twitterlands onde são diariamente mungidos de dados de perfil e comportamento por aqueles mesmos que lhes querem lotear o espaço.

O rebanho é fácil de tocar. Um opinador antecipava na nossa tv o futuro da internet 3.0 como um ambiente em que o acesso será «mais personalizado».

A personalização, explicada num português elíptico e assintáctico, era então a adequação das nossas (dele) buscas e escolhas aos nossos (dele) gostos. Ou seja, a personalidade toda de acordo com o manual básico da tipificação de grupos de consumo. O indivíduo enquanto cliente satisfeito.

Ou seja, encurtado o jargão pseudo-técnico e os exemplos complacentes, a personalização equivaleria à velha fórmula de mais do mesmo aplicada a cada um (em complemento da fórmula televisiva de mais do mesmo para todos). Quanto a nós, eis o exacto oposto da personalização, se é que o termo designa um aprofundamento individual, mas em relação com o mundo, e em tudo oposto àquele contentamento obsessivo-compulsivo do admirável mundo 3.0.

 

 

Polaróide (2)

 

«Tens Twitter?», perguntava-nos uma menina. «Não», dissemos. Mas podíamos ter respondido com um princípio do budismo Zen: «Não sigas o curso da mente do pássaro».
A lentidão deste blogue às vezes confrange-nos. Mas a maior parte dos blogues de que gostamos são bastante lentos. Graças a um desses, demos com esta fotografia.

 

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Trata-se de uma polaróide autêntica, com a sua ténue margem de fumo. Pertence a Rui Cambraia, artista plástico, fotógrafo e bloguista veterano, dos tempos em que os blogues não eram quase todos pré-formatados, como este (mais tempo poupado, para estar calado mais tempo).

O bloguista em causa é um caminhante, no velho sentido experiencial do termo. Pascoaes disse um dia que viajar num automóvel a quarenta quilómetros por hora era como cavalgar a cauda de um trovão. Este bloguista conhece o poder de ilusão da rapidez presente, e assim cultiva a fotografia mais básica, igual à do começo, conhecida como «pinhole» (ou, mais filologicamente, «fotografia estenopeica»). Cultiva a polaróide, ou a fotografia de revelação instantânea semelhante, que o fabricante Fuji parece querer continuar; para além da fotografia em película e digital, com ponto de partida para todos os caminhos no seu exílio de Portalegre.

No seu caminho de registo online, Rui Cambraia descartou o seu blogue original e mudou o nome e a forma deste mais ligeiro mais do que uma vez. A última mudança intriga-nos, mas recorda-nos o fascínio que temos por um botão no nosso próprio painel de gestão: Delete Blog (que já teve a mais eloquente fórmula: Delete this Blog).

Em vez de mostrar o rol das entradas anteriores, o blogue presente dispensou quase totalmente a memória. A página que está à vista forma a entrada única. A página pode não chegar a ser substituída, mas apenas renovada, com mais ou menos elementos. No painel lateral é possível activar um arquivo de imagens já publicadas, ou partir para as «Extensões» do blogue: para Photoshop.com (galeria de fotos), Polanoid.net (galeria de polaróides e instantâneas), e Pinhole Lab (blogue de actividades da fotografia «pinhole», ou seja: película+lente+caixa preta… +cabeça sensível à luz.

 

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