O burro come jornais


«Os deputados governamentais acercaram-se dele, convidando-o em termos delicados a aceitar, no banquete do progresso, o lugar que a sua inteligência reclamava. Os deputados oposicionistas conjuravam-no a não levantar a mão de sobre os projectos depredadores com que a facção governamental andava cavando novas voragens ao país.»

Camilo Castelo Branco, A Queda de Um Anjo, 1866.

George Grosz
The Eclipse of the Sun, 1926
The Heckscher Museum of Art, Huntingdon, New York © Estate of George Grosz

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Um miúdo

 

 

Fecharam mais de duzentas escolas no interior norte, por terem poucos alunos, nos anos mais recentes. Agora vão fechar mais. Cerca de mil, até 2011.
Mas esta «reforma» inconstitucional e genericamente anti-democrática não é apenas mais uma vitória da lógica grossista e de menoridade média no nosso ensino. É mais um episódio da desertificação e da desigualdade na distribuição da riqueza e dos direitos.
Entretanto, o pretexto do saneamento económico não tem efeito em relação aos dois mil gestores de empresas municipais num país de tamanho s ou xs.

Em 1839 havia um só miúdo a aprender em Vilarinho de Samardã, concelho de Vila Real. Chamava-se Camilo Castelo Branco.

 

Novembro é o nome desta fotografia

 

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Teixeira de Pascoaes escreveu n’O Penitente, a sua biografia de Camilo Castelo Branco: «Um suicida é, numa só pessoa, o verdugo e o delinquente, ou um animal sacrificando-se no altar do Deus ignoto. Não foi a cegueira a causa do suicídio. As causas próximas dum efeito são as que menos o determinam. Não é a última gota que enche o copo; é a primeira.»

 

Não queria que tivesse peso a primeira entrada, ou o primeiro post deste blogue, mas eis que a primeira gota está contada, enquanto ainda construo o blogue e vou recebendo amigos: uma fotografia da mesa de trabalho como uma paisagem e um livro que voltou à mesa em Novembro. Agora que já ninguém sabe o que é um escritor, Pascoaes pode ajudar a lembrar.

 

No caso destes dois nomes, o cliché «a Net é um mundo» fica ruidosamente aquém. Não me pareceu valer a pena ir muito além dos paupérrimos artigos da Wikipédia, ou das nossas insípidas e feias bases de dados universitárias. Neste caso, o mundo está todo no papel. Não há links para ninguém.