De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

Father death blues

 

Allen Ginsberg - Father Death Blues

 

A presença da morte trouxe a sua monotonia a este blogue. Cada pausa foi sendo alongada por mais uma ocasião de afastamento. Na partida do nosso querido Jorge Vasques, actor, 51 anos, depois de uma récita, louvámos connosco a sua alma calorosa buscando o testemunho de outro comediante triste, o poeta Allen Ginsberg. Quando lhe perguntaram como queria ser lembrado, Ginsberg disse o nome de uma canção, feita para saudar o próprio pai na morte, lembrando a recomendação do pai espiritual na fé budista: «Por favor, deixa-o ir, e continua a tua celebração». Puxou da concertina que tinha aos pés e cantou «Father Death Blues», um hino à graça que tem morrer.

 

A canção deixou de estar disponível em Youtube, mas a entrevista completa, mais o seu remate cantado, do programa Face to Face, com Jeremy Isaacs, autêntica autobiografia compacta com despedida, pode achar-se em Ubuweb (na mesma página de «A video diary of Ginsberg in the days immediately before and after his death», por Jonas Mekas).

 

Father Death Blues

 

Hey Father Death, I’m flying home
Hey poor man, you’re all alone
Hey old daddy, I know where I’m going

Father Death, Don’t cry any more
Mama’s there, underneath the floor
Brother Death, please mind the store

Old Aunty Death Don’t hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moans

O Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts’ll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the rest

Genius Death your art is done
Lover Death your body’s gone
Father Death I’m coming home

Guru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this Blues

Buddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we’ll work it through

Suffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scorn

Father Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell.

Allen Ginsberg

 

Eu sou a minha mãe

 

Uma das fraquezas da ficção dramática popular, para além do maniqueísmo católico que racha a sua colecção de tipos básicos em dois grupos, os justos e os perversos (há um terceiro grupo, o dos figurantes, parte dos quais falam), é a falta de um elemento de escrita que no teatro romântico dava pelo nome de «grande deixa»: a tensão de uma cena resolvida numa fala, ou numa riposta a uma fala.

 

Prusik-Parkin

 

O novaiorquino Thomas Prusik-Parkin foi recentemente forçado a levar à cena da sua própria vida este recurso estilístico, e fê-lo com eficácia. Foi acusado de falsificação de documentos, fraude, uso de falsa identidade, e etc, depois de ter usado peruca, vestido, maquilhagem e óculos escuros para se fazer passar pela própria mãe, falecida em 2003, e poder receber, em nome dela, cerca de 115 mil dólares em benefícios sociais e subsídios de renda.

Quando foi preso, declarou às autoridades: «Segurei a minha mãe nos meus braços enquanto morria, e respirei o seu último suspiro. Portanto, eu sou a minha mãe».

 

via BBC NEWS

 

Polaróide

 

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Faz um ano que a empresa Polaroid anunciou a «descontinuação» das suas películas instantâneas, mais tarde ou mais cedo, progressivamente, «de acordo com a procura», num último gesto de chantagem emocional-comercial. Por esta altura, os últimos pacotes de películas produzidos em 2008 começaram a caducar (ver tabela oficial), e irão caducando até ao fim do Verão deste ano.

O filme que fundiu o instante e a sua fixação sem a cerimónia fotográfica – graças a uma transição química que estranhamente beneficiava com o calor do corpo – não é fácil de imitar com os novos meios que banalizaram o imediato e parecem ter arrefecido a relação com ele. A paleta saturada, incendiada ou submersa, conforme o clima do lugar, foi comparada por alguns às cores da própria memória. O filme era dramático por excelência, favorecia a cena, não o pormenor. Foge, que já te apanho. Não fujas, que só tenho dez imagens para gastar.

 

(A polaróide em cima não é autêntica. Falsificação digital & foto dramapessoal).

 

Regresso (com um poema de Juan Luis Panero)

 

 

Madrugada do Nove de Maio

 

 

Desde as áridas paredes alugadas,
entre móveis alheios e pesadas cortinas
que a bruma e a chuva pretendem ocultar.
Desde o hostil refúgio de uma garrafa de genebra,
volto, preciso de voltar, àquela tarde.
Àquele pequeno bar, um nada iluminado,
à segura posse de umas mãos, de uns lábios
que jamais voltarão a ser meus.
Foi um dia, tempos depois de nos termos separado para sempre,
ou pelo menos de o termos prometido, entre insultos e gritos,
na pesada cólera do álcool.
Outra vez juntos, sentados frente a frente,
ouvindo o monótono correr de uma canção,
por entre os rostos e o fumo parado sobre as mesas,
com atitude distante repetíamos os gestos do costume,
a comédia banal da defesa ou do cansaço.
E logo um sorriso, o leve roçar de outra pele,
talvez o doloroso tremor das recordações, enredou os nossos olhos
e por um instante, o bafo cálido da ternura
que não encontra palavras chegou-se aos nossos corpos,
amparando o seu humilhado mendigar sem descanso.
Depois tudo acabou definitivamente,
a vida foi mais poderosa do que nós,
mas agora nada importa senão aquela tarde,
aquele momento de união irrepetível,
a tepidez de uma pele, de uns lábios, cuja mera recordação
protege esta noite o meu coração, dá-me força
para continuar o erro de viver até amanhã.

 

 

[para ti, que te fizeste fotografar
com os homens que conheceste]

tradução dramapessoal

Pausa

 

 

Pausa. Tirando Sai, e outras assim curtas que pedem muito pouco, Pausa é a didascália mais vulgar, mais impessoal e mais vazia (cheia de possibilidade, para um actor) da escrita teatral do nosso tempo. Às vezes, é um fio de prumo num poço.

Celebramos o primeiro aniversário do lançamento em Dvd de Je Vous Salue, Marie, de Godard, e tencionamos falar disso. Entretanto, uma amiga actriz de palco pôs-se a interrogar pela razão de ser do seu trabalho, e é talvez esse mesmo o osso mais sensível do seu ofício. A fractura exposta do seu ofício. «Aceito a pausa, mas não vou tolerar mais do que isso», foi uma resposta possível. «Só posso mostrar-te alguns colegas na pausa deles. Estão como aquele parceiro que soube dessa vontade de parar e não te disse nada. Abraçou-te e andou. Porque sabe que nada mais passa e já lá esteve». Em palco ou fora dele, a pausa é trabalho.

 

Actores fotografados: Kristin Scott Thomas, Jeremy Irons, Ian McKellen, Julie Walters.

 

Fotografia: Simon Annand via Times Online

 

A Contracena

 

 

As duas contribuições na entrada anterior completaram-na tão redondamente que nos deixaram em silêncio.

Duas pessoas que conhecemos do irreal quotidiano e da cena reagiram à evocação que o pintor hiper-realista Richard Estes fez da profissão do actor, falando do que será comum às duas artes, em planeamento, em controlo artístico, em execução técnica.

Estamos todos com Oscar Wilde, se negamos uma visão sentimental da expressão artística como maná criativo de um ego mediúnico (ou mediático, num certo presente) e espontâneo. Sim, com bons sentimentos não se faz senão má poesia. O pintor Richard Estes pôs o seu acento no trabalho de repetição do actor, para comparar as faces conscientes dos esforços cénico e pictórico.

Mas uma das duas reacções imediatas ao pequeno texto do pintor que pusemos neste blogue levantou a enorme lebre da contracena. Que rigor pode haver na contracena? Que controlo? Que plano? Que medida? No panorama de uma cena construída, que canais cria esta ou aquela contracena, mais ou menos sensíveis, de dentro e para fora?

A contracena é a maior interrogação do teatro. A maior das peças é um estudo da contracena: Hamlet.

Pensar a contracena empurra-nos para o nevoeiro de energia e dúvida daquela peça. O dilema de Hamlet é o do actor, se o virmos repartido entre dois fossos, o da introspecção e o da expressão. O Fantasma, a voz que instrui, é verdadeira ou falsa? É verdadeira e falsa.

Nós aqui nem conseguimos – epígonos ainda mais ansiosos de Hamlet – chegar a pensar a contracena. “Pensar” é logo o nosso problema. Isto é: até que ponto será produtivo pensar o teatro, se é óbvio que pensar no teatro é sempre um problema?

 

 

David Mamet (preferimos o pensador da cena ao autor, porque pende melhor para o primeiro fosso), mexeu neste lodo do pensamento e da cena com o pragmatismo da sua escola. No capítulo “Find Your Mark/Encontra a Tua Marca” (eis mais um pequeno eco do sarilho hamletiano) do livro True and False, tenta ser o mais categórico possível:

 

Por mais que nós, gente do teatro, gostemos de nos ver como intelectuais, não o somos. A nossa profissão não é uma profissão intelectual. O saber literário inteiro do mundo, as «ideias» todas, não vão capacitar ninguém a fazer Hedda Gabler, e toda a conversa sobre o «arco da personagem» e «baseei a minha personagem nisto…» é tudo babugem. Não há nenhum arco da personagem; e é tão inútil basear uma personagem numa ideia como é basear uma relação amorosa numa ideia. Essas frases não passam de talismãs do actor, que lhe permitem, a ele ou a ela, espantar o mal, e o mal que tentam espantar é o terrível imprevisto.

Essas frases e rituais mágicos são esconjuros para diminuir o terror de sair à frente de corpo nu. Mas é assim que o actor sai à frente, queira ou não queira.

 

O terrível imprevisto é o chão da contracena.

Pensar o terrível imprevisto é uma actividade condenada à contradição. O livro de Mamet nega ali a sua própria razão de ser, e ao mesmo tempo é certo que um livro sobre o teatro assim faça. O pensamento do teatro é um desertor do palco, e tem de viver com essa condição. Mas, queira Mamet ou não, tem de viver.

Tem de viver, por exemplo, para que um workshop sobre Hamlet suba acima de algumas inquietações caseiras, como aquela a que um amigo assistiu no ano passado: «Se o meu tio matasse o meu pai e casasse com a minha mãe, eu também ficava chateado. Não é?»

Não. Não é. Para chegares à «chatice» de Hamlet precisas de mais que da tua mãe.

 

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Pintura de James Ensor. Dois quadros de 1891:

“Esqueletos disputando um arenque fumado”
“Esqueletos disputando um enforcado”

 

O Estrado

 

Incomoda-nos tanto descair para o dia-a-dia. Mas decidimos louvar o Estrado.

Consta que em várias escolas, por indicação da responsabilidade directa ou indirecta do Ministério da Educação, os estrados foram retirados das salas de aula «para que os professores fiquem ao nível dos alunos».

O princípio entre aspas tem um potencial caricatural que fala por si.

Os burocratas estruturalistas que administram a catástrofe educativa, vendo bem, têm, na sua grande massa, apenas um defeito: nunca deram aulas.

Caso contrário, saberiam respeitar o estrado.

Um, o estrado pode ser contornado. E o efeito dramático da descida do estrado não é de desprezar, assim como o da subida. Quem quer que tenha tido um grande professor sabe do que falamos.

O estrado não impede a aproximação. Apenas encoraja a que o seu momento seja escolhido, controlado pelo professor, em vez de uma mera sujeição ao espaço.

Dois, o estrado é um palco. O seu uso traduz-se num enorme ganho acústico. Quando o professor fala do estrado, na maioria das salas, todos os alunos ouvem melhor e por igual. Verdadeiramente ao mesmo nível.

Três, enquanto palco, o estrado permite, na maioria das salas, muito melhor visão de todos os alunos em relação à figura do professor ou a qualquer material exposto. Verdadeiramente ao mesmo nível.

Quatro, o estrado permite ao professor uma visão completa da sala em qualquer momento, o que lhe permite atender instantaneamente o contacto dos alunos sentados nas cadeiras recuadas, em vez de se aproximar de alguns virando as costas a todos os outros. Verdadeiramente ao mesmo nível. Os alunos.

Cinco, o que não vêem os que chegam à teoria pelo caminho da estupidez empírica: enquanto palco, o estrado permite aos alunos que subam a ele, e demonstrem, exponham, expliquem aos colegas numa posição que tem todas as qualidades da mais elementar arte dramática, e lhes permite o que esta escola lhes nega constantemente ou não sabe permitir: um teste formal à autonomia da sua voz individual.

 

O Menino tem de Estudar

 

Quanto ao meu estilo, foi a censura que o apurou. Algumas novelas vinham com tantos cortes que apenas restava a letra dos títulos. Ensinaram-me a insinuar, a sugerir mais que a mostrar.

Corin Tellado

 

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O nosso trabalho actual levou-nos a esta imagem. A fotografia da fotonovela (como a cinematografia da telenovela) raramente alcança a agilidade da composição acima, e, quando a alcança, desperdiça-a imediatamente.

Mas veja-se como aparece ondulada aquela que convida, e ondula ligeiramente aquele que recusa; este, embora arrojadamente capaz de contemplar a possibilidade, dá-lhe o devido nome de acordo com a Doutrina.

Ele fixa o olhar na tentadora, exactamente na mesma linha do olhar do amigo folião, enquanto indica com as mãos um objectivo mais conciso do que o que o leque aberto das mãos dela promete: os livros, o estudo, diz ele, de mãos vazias, desenhando um apertado limite. O amigo folião tem um copo e uma garrafa nas mãos, e pára. A alegria de viver suspende-se, quando se fala em estudo.

A tentadora diz: posso tocar-te e fumar com a mão toda atirada para a frente, ou seja, posso fazer o que me apetece e mostrá-lo. Quero mostrar-te coisas. Sou como um livro que não depende da tua vontade.

Ela agarra-o, roubando-lhe o ónus mediterrânico da iniciativa masculina. Mas agarra-o porque ele disse que só queria estudar. De outro modo, se ele fosse um homem normal, sem ideias de futuro, o gesto teria sido inteiramente obsceno.

No seu canto, a amiga foliona pára também, cigarro meio fora do maço. O prazer também parou por ali. Dela, temos um rosto de admiração, de escândalo, e um par de pernas cruzadas. Não lhe falta mais nada para ser aquela que vai sucumbir aos encantos do renitente.

 

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Um dos interditos, ou sugestões, desta novela em particular, é a intimidade que a foliona que vai acabar seduzida tem com o velho amigo folião. Têm manifestamente um passado, e um presente de impaciências e ironias, como dois que precisam de punir o desejo mútuo. Mas tudo se esconde num mal-entendido sentimental: David, o estudante, acha que o amigo folião, Jaime, ama a jovem mal-disposta, sem ser correspondido. Porém, são apenas bons amigos. De acordo com um cliché francês mais recente, seriam amigos que tinham apenas sexo. O cliché americano torná-los-ia antigos namorados da faculdade. Veja-se como ela o olha. Fotógrafo e actriz sabem mais.

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Perdes o teu tempo, rapaz.

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Lamento, rapazes.

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O menino tem de estudar, homem.

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Uns meses depois, a tentadora, obviamente, já tem par para a festa. Os dois desencontrados apoiam-se no carro, um invejável Simca Barreiros, convite à aventura. Ele pronto para explicar. Ela pronta para ir. Pela pose, ele já parece capaz de mais do que apenas estudar. Todavia, as meias dela concebem um mundo mais vasto do que as meias dele.

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Vamos, meu amante mais que habitual. O teu amigo dá-me ganas de perverter a nossa rotina.

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Estou a olhar para Jaime, mas o adeus é para ti. Não existe, essa fotografia, para não ser demasiado evidente que foi neste momento que vos troquei, à vista de ambos. Seria um gráfico demasiado obsceno. Ia parecer demasiado natural.

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O farol do Simca vê mais longe.
Os dois pontos de ferrugem na capota dizem que o amanhã não tarda.