De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

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Andas na boa-vai-ela («Canção torta»)

 

 

Canção torta

 

 

Andas na boa-vai-ela
Dentadura amarela
Constantemente a raiar

Andas na boa-vai-ela
Foste nado em Portugal
E nem tudo está mal

Andas na boa-vai-ela
Dentadura amarela
Constantemente a raiar

E vais na boa-vai-ela
Prò buraco infernal
E é outra vez Portugal

 

 

poema de Fernando Boas

Poesia pequena e pequena política

 

 

Fim de campanha. No campo da «análise», todos os chavões em parada, até o da distância entre os eleitores e os eleitos. Num país de fracas elites, este lema oco passa por observação política. Neste blogue somos a favor de ainda maior distância. Quando ouvimos aquilo, só nos ocorrem os casos de intensa proximidade entre os eleitores e os seus eleitos: Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, etc.

O pior chavão coube nas palavras de uma comentadora artificiosamente penteada: «…esse é poeta, não sabe a diferença entre uma acção [de empresa] e uma caneta». O lugar-comum da poesia como incapacidade social, cognitiva, política ou científica, só fala da banalidade da ideia de poesia que lhe subjaz. Porém, eis que um credo de mau gosto literário se transforma em argumento político e de campanha eleitoral. Temos poetas engenheiros e matemáticos (e empresários). Mas apetece dizer que, em saber político e económico, Maria João Avillez está algo aquém de Elizabeth I, poeta.

 

No crooked leg, no bleared eye,
No part deformed out of kind,
Nor yet so ugly half can be
As is the inward suspicious mind.

 

Gravado a lápis para sempre

 

 

Na semana passada, um amigo achou um escrito de António da Silva Teixeira Electricidade que esta noite faz dezanove anos. Um feito notável, para um escrito a lápis numa parede de um prédio igualmente parado no tempo, na Rua Rodrigues Sampaio. O tema é denso, talvez captado na imprensa internacional à mostra pelas ruas, ou captado, simplesmente. São modestas, as nossas alegrias.

 

Father death blues

 

Allen Ginsberg - Father Death Blues

 

A presença da morte trouxe a sua monotonia a este blogue. Cada pausa foi sendo alongada por mais uma ocasião de afastamento. Na partida do nosso querido Jorge Vasques, actor, 51 anos, depois de uma récita, louvámos connosco a sua alma calorosa buscando o testemunho de outro comediante triste, o poeta Allen Ginsberg. Quando lhe perguntaram como queria ser lembrado, Ginsberg disse o nome de uma canção, feita para saudar o próprio pai na morte, lembrando a recomendação do pai espiritual na fé budista: «Por favor, deixa-o ir, e continua a tua celebração». Puxou da concertina que tinha aos pés e cantou «Father Death Blues», um hino à graça que tem morrer.

 

A canção deixou de estar disponível em Youtube, mas a entrevista completa, mais o seu remate cantado, do programa Face to Face, com Jeremy Isaacs, autêntica autobiografia compacta com despedida, pode achar-se em Ubuweb (na mesma página de «A video diary of Ginsberg in the days immediately before and after his death», por Jonas Mekas).

 

Father Death Blues

 

Hey Father Death, I’m flying home
Hey poor man, you’re all alone
Hey old daddy, I know where I’m going

Father Death, Don’t cry any more
Mama’s there, underneath the floor
Brother Death, please mind the store

Old Aunty Death Don’t hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moans

O Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts’ll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the rest

Genius Death your art is done
Lover Death your body’s gone
Father Death I’m coming home

Guru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this Blues

Buddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we’ll work it through

Suffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scorn

Father Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell.

Allen Ginsberg

 

Tarde lisboeta (caminhada, com meditação sobre o bloguismo)

 

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«Voltemos ao início. Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato – e tantas vezes durante quanto tempo? – injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»

 

Maria Filomena Molder, «Uma Promessa do Deserto» (último parágrafo),
in A Imperfeição da Filosofia, Relógio d’Água, 2003.

fotos dramapessoal

O Blogue Branco

 

Muitos, mesmo que leiam, não identificam a leitura com acção. Não estava a fazer nada, estava a ler.

Ir a um sítio é fazer alguma coisa. Vamos a um sítio. Quem está num sítio está a fazer. Voltar de um sítio também é fazer. Até acabar de voltar de um sítio é fazer alguma coisa. O que é que estão a fazer? Acabámos de voltar daquele sítio. Havia imensa gente a voltar.

Muito do que é considerado fazer alguma coisa lembra os dois versos de Neil Young: It’s noisy at the fair, but all your friends are there. Está muito barulho na feira, mas estão lá todos, de qualquer maneira.

Ouvindo muitos que foram a sítios bem longe no mundo, parece que sentiram pouco enquanto lá estiveram. O viajante filtrou o lugar à escala das suas possibilidades, raramente interessantes. Nada passa. O viajante não teve de fazer o lugar. Não consegue refazê-lo, para que o vejamos. Não conseguiu ler, não conseguimos lê-lo.

Havia uma menina da Tv que ia a todo o lado. Estivesse nos Andes, em Pisa, no México ou nas banais ilhas tropicais cheias de bananais, tudo para ela era “fascinante”. O mesmo efeito de fascínio, comunicado com um discurso circular e uma expressão ocular rodopiante, teria sido conseguido com um painel de cenário, ou um efeito de ecrã azul. (Não andava muito por interiores, a narradora: monumentos, museus, etc).

A leitura pode trazer painéis de cenário sim, mas tantos e por vezes tão intrincados e activos que a viagem mental supera a viagem de quem, sem imaginação, se perde no cenário a que chama real. Não serve que o cenário seja real, se o viajante não o é.

A melhor forma de viajar é sentir, disse Fernando Pessoa, para quem, anos depois do regresso da África do Sul, muito jovem, uma viagem de comboio ao Carregado foi uma jornada imensa e deu, entre outras coisas, “O Comboio Descendente”. Lisboa, meu lar, disse. E nunca mais saiu. Viajou? Pois claro. E não gastou o que não tinha.

Esta divagação de sábado serve para saudar, e encaminhar alguns amigos para um dos melhores blogues que conhecemos, que, talvez por ser íntimo, não revelámos tão depressa. Chama-se “Spurious”, e tem um arranjo gráfico tão limpo que quase dispensa cabeçalho. Não tem cromos, como este blogue. Não precisa.

 

 

É o único blogue que invejamos. Não tem nada a ver com o tipo médio de blogues que podemos encontrar em língua portuguesa, estéreis, infantis, ou hipertensos por causa das actualidades, agitados e lentos, camaleões de todos os momentos.

Spurious é branco e linear, no justo sentido dos termos. A vida de quem escreve ali chega-nos por um ponto de vista serenamente assente, e por um estilo sem cores artificiais, espelho claro da experiência ilimitada da leitura. Há ficção (talvez na própria figura do eu que assina o blogue, desdobrada na escrita), e há sobretudo lugares mentais e lugares naturais. Mas, ali, quem escreve esteve nos sítios que descreve, e leva-nos por lá.

 

Ligação para a entrada How are We to Disappear? e para uma página pequena, dedicada a E.M. Cioran.

 

O Menino tem de Estudar

 

Quanto ao meu estilo, foi a censura que o apurou. Algumas novelas vinham com tantos cortes que apenas restava a letra dos títulos. Ensinaram-me a insinuar, a sugerir mais que a mostrar.

Corin Tellado

 

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O nosso trabalho actual levou-nos a esta imagem. A fotografia da fotonovela (como a cinematografia da telenovela) raramente alcança a agilidade da composição acima, e, quando a alcança, desperdiça-a imediatamente.

Mas veja-se como aparece ondulada aquela que convida, e ondula ligeiramente aquele que recusa; este, embora arrojadamente capaz de contemplar a possibilidade, dá-lhe o devido nome de acordo com a Doutrina.

Ele fixa o olhar na tentadora, exactamente na mesma linha do olhar do amigo folião, enquanto indica com as mãos um objectivo mais conciso do que o que o leque aberto das mãos dela promete: os livros, o estudo, diz ele, de mãos vazias, desenhando um apertado limite. O amigo folião tem um copo e uma garrafa nas mãos, e pára. A alegria de viver suspende-se, quando se fala em estudo.

A tentadora diz: posso tocar-te e fumar com a mão toda atirada para a frente, ou seja, posso fazer o que me apetece e mostrá-lo. Quero mostrar-te coisas. Sou como um livro que não depende da tua vontade.

Ela agarra-o, roubando-lhe o ónus mediterrânico da iniciativa masculina. Mas agarra-o porque ele disse que só queria estudar. De outro modo, se ele fosse um homem normal, sem ideias de futuro, o gesto teria sido inteiramente obsceno.

No seu canto, a amiga foliona pára também, cigarro meio fora do maço. O prazer também parou por ali. Dela, temos um rosto de admiração, de escândalo, e um par de pernas cruzadas. Não lhe falta mais nada para ser aquela que vai sucumbir aos encantos do renitente.

 

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Um dos interditos, ou sugestões, desta novela em particular, é a intimidade que a foliona que vai acabar seduzida tem com o velho amigo folião. Têm manifestamente um passado, e um presente de impaciências e ironias, como dois que precisam de punir o desejo mútuo. Mas tudo se esconde num mal-entendido sentimental: David, o estudante, acha que o amigo folião, Jaime, ama a jovem mal-disposta, sem ser correspondido. Porém, são apenas bons amigos. De acordo com um cliché francês mais recente, seriam amigos que tinham apenas sexo. O cliché americano torná-los-ia antigos namorados da faculdade. Veja-se como ela o olha. Fotógrafo e actriz sabem mais.

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Perdes o teu tempo, rapaz.

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Lamento, rapazes.

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O menino tem de estudar, homem.

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Uns meses depois, a tentadora, obviamente, já tem par para a festa. Os dois desencontrados apoiam-se no carro, um invejável Simca Barreiros, convite à aventura. Ele pronto para explicar. Ela pronta para ir. Pela pose, ele já parece capaz de mais do que apenas estudar. Todavia, as meias dela concebem um mundo mais vasto do que as meias dele.

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Vamos, meu amante mais que habitual. O teu amigo dá-me ganas de perverter a nossa rotina.

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Estou a olhar para Jaime, mas o adeus é para ti. Não existe, essa fotografia, para não ser demasiado evidente que foi neste momento que vos troquei, à vista de ambos. Seria um gráfico demasiado obsceno. Ia parecer demasiado natural.

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O farol do Simca vê mais longe.
Os dois pontos de ferrugem na capota dizem que o amanhã não tarda.

 

Eles Se Pudessem

 

Êles se
pudessem
eu nem água
beberia

27-12-91

 

Celebramos a retoma da publicação dos escritos de António da Silva Teixeira Electricidade na sua página própria com este recado íntimo, recolhido por nós numa folha solta, numa fase em que os textos já não eram abundantes, arrancados com os seus cartazes, lavados das paredes de pedra sem serem substituídos por novos.

Vamos agora publicar o Segundo Caderno, o maior, usado durante mais tempo. Agradecemos a todos os amigos que têm respondido com generosidade à experiência deste escritor de Lisboa. Vemos nele maior verdade que em muitos que querem dizer muito.