De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

Postal de Lisboa (2)

 

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A cor radiante da placa de número prendeu-nos a atenção. Mas um mero toque de filtro digital podia ter feito aquele borrão de vermelho. Sempre foi possível retocar fotografias, em laboratório ou em acção. Mas a dúvida e as ferramentas banalizaram-se. Neste caso, ainda assim, quem anda por Lisboa em Agosto não duvidará da relativa legitimidade dos tons. Continua a ser possível manter algum optimismo criativo em relação à fotografia a cores. Como diz David Hockney, finalmente a fotografia vem ter com a pintura. Com o computador, diz, as mãos entram no retrato.

 

foto dramapessoal (não-tratada; em modo de imitação de cromatografia)

Números

 

Recebemos um e-mail de uma amiga com uma foto de outra amiga. Algures no bairro da Graça, em Lisboa.

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A responsável da Educação achou que os números dos exames eram óptimos, embora não soubesse quais eram os números. Embora ainda não soubesse que não se trata de números. Não leu aquele jornal inglês que dizia que, na Europa, há três maneiras de tratar os números da educação.
A primeira é fazer como os ingleses: apresentar os números verdadeiros e falsificar nas desculpas. A segunda é fazer como os italianos: falsificar os números. A terceira é fazer como os gregos e os portugueses: falsificar o sistema para conseguir os números certos.
A Sociedade Portuguesa de Matemática respondeu aos números: pôs miúdos a fazerem os exames dos anos seguintes ao seu nível, com resultados integralmente positivos. Segundo um professor envolvido no estudo, as provas actuais estão armadas com um mínimo de perguntas de matéria não estritamente matemática, de senso-comum e lógica ao nível do senso-comum, para garantir um nível mínimo positivo.

No meio da confusão, os putos é que são números. Os putos ardinas, como o do boneco, treinavam com os trocos, e não era mau, quando havia trocos.

 

Insónia e marcha (caminhada nocturna)

 

caminhadanocturna

 

Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.

 

foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas

 

Meus amiguinhos

 

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Nos nichos de um urbanismo tantas vezes absurdamente inclemente para com a memória e os seus animais, a natureza faz por não esquecer os seus hábitos mais disciplinados. O ninho de andorinhas que o Zé acompanhou este ano, no fundo de um saguão do século XIX, serviu desta vez três irmãos. Os fios que se notam são cabelos humanos, colhidos nos salões de coiffure da zona.

 

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À espera que a Staples de Alfragide abrisse, eram 9:30 de um sábado recente, fomos ver o quadro natural nas fendas da que é hoje uma zona industrial e comercial tipicamente sobrelotada. O cheiro a contágio fecal e fosfatos não consegue destruir alguma paz harmónica. A posar para a fotografia do desfiladeiro fabril da ribeira de Algés, acima, descobrimos um amiguinho a tratar do pequeno-almoço.

 

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e (ao alto) JGF.
a imagem ao fundo é um pormenor.

 

Polaróide

 

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Faz um ano que a empresa Polaroid anunciou a «descontinuação» das suas películas instantâneas, mais tarde ou mais cedo, progressivamente, «de acordo com a procura», num último gesto de chantagem emocional-comercial. Por esta altura, os últimos pacotes de películas produzidos em 2008 começaram a caducar (ver tabela oficial), e irão caducando até ao fim do Verão deste ano.

O filme que fundiu o instante e a sua fixação sem a cerimónia fotográfica – graças a uma transição química que estranhamente beneficiava com o calor do corpo – não é fácil de imitar com os novos meios que banalizaram o imediato e parecem ter arrefecido a relação com ele. A paleta saturada, incendiada ou submersa, conforme o clima do lugar, foi comparada por alguns às cores da própria memória. O filme era dramático por excelência, favorecia a cena, não o pormenor. Foge, que já te apanho. Não fujas, que só tenho dez imagens para gastar.

 

(A polaróide em cima não é autêntica. Falsificação digital & foto dramapessoal).

 

Fora

 

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Foram talvez para Sintra, para buzinar no centro da vila velha, ao fim da Volta do Banho, a atormentar o cadáver do Romantismo, num carrossel de ofensa ao lugar, indignados com os carros uns dos outros. Ou foram antecipar o novo ataque às praias, e cheirar as areias que o mar ainda não acabou de varrer. Ou foram gozar a licença de ridículo desta data, na festa do desprezo pela contemplação. Há ainda menos carros que os que a bendita crise dos combustíveis tirou daqui. Há caminho livre nas ruas mais velhas de Lisboa.

 

 

Foto dramapessoal

Tarde lisboeta (caminhada, com meditação sobre o bloguismo)

 

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«Voltemos ao início. Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato – e tantas vezes durante quanto tempo? – injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»

 

Maria Filomena Molder, «Uma Promessa do Deserto» (último parágrafo),
in A Imperfeição da Filosofia, Relógio d’Água, 2003.

fotos dramapessoal