Dias de sol dos antigos

 

 

Os noticiários televisivos locais repetiram o truque publicitário da Amazon.com, que divulgou ter vendido, pela primeira vez, mais livros digitais que livros de capa dura. Os jornalistas portugueses saltaram imediatamente para a conclusão de que o papel morreu. Lessem mais papel e saberiam a diferença entre hardbacks e paperbacks. A Amazon quer vender Kindles, e os jornalistas, tal como disse Salvador Dalí a um jornalista português, querem ser mais Dalí que Dalí.

 

Temos estado ocupados. Não fomos indiferentes à agitação política que mudará este país, bem expressa nos abaixo-assinados e movimentações contra o pagamento de estradas prontas e acabadas, nunca questionadas, ou nas duas ferozes manifestações contra a transferência de dois padres.
Corremos departamentos da Segurança Social e das Finanças para resolver uma questão com o Estado. Uma semana de lento progresso, enquanto em Israel se discutia o destino dos papéis de Kafka. O recorde de espera foi o do dia 22: 5 horas no balcão do Saldanha da Segurança Social.
Na chamada Secção de Processo, na Praça de Londres, o chamado beneficiário (os independentes não beneficiam de nada) tem de ficar em pé diante de um balcão de um palmo e três dedos de fundo por três palmos de largura para dispor o seu caso em papéis, com um mínimo de dez pessoas em redor a ouvirem a narrativa dos seus erros ou pedidos.
Uma ideia simples, que proporciona fluidez no atendimento.

 


As pressões do absurdo burocrático que assola os trabalhadores independentes das artes fomos aliviá-las no último piso do centro comercial Acqua, na Avenida de Roma, cuja zona de restauração está rodeada por fotografias da avenida, dos tempos em que o sol mandava e os carros obedeciam.

 

Em cartaz, já sob a sombra de A Sede do Mal, o filme Nathalie [Agente Secreta], de Henri Decoin, 1959, com Martine Carol, a quem só Brigitte Bardot veio ocultar.

 

[fotos em exibição na zona dos restaurantes e na página online do centro]

 

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Bela

 

bela

 

Chamamos-lhe Bela. Não sabemos quem é.
Comprámos a fotografia por dez escudos, há uns vinte anos.
As arcadas de metal que intrigam alguns, nas varandas velhas de Lisboa, funcionavam assim, como suportes de divisórias.
Bela tem uma vida pela frente. É muito jovem.
Talvez demasiado, diria ela.

 

Saudades do que me não foi nada

 

 

[…]

Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais – se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.

O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da Tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim – sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.

 

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ilustração: pormenores em maior definição do nosso postal “Lisboa, Rossio” da entrada anterior.

texto: fragmento do fragmento «Entrei no Barbeiro…», do Livro do Desassossego.