Fizemos uma pequena limpeza, sim

 

 

Fizemos uma pequena limpeza, sim. Desde o início, decidimos que, ao contrário da normal postura bloguística, nunca escolheríamos o caminho mais curto. A todos a quem molestou a queda nos estertores (e torpores) quotidianos, o nosso pedido de desculpas. A nós próprios, para começar.

«Não existe pior desperdício do espírito e do coração do que procurar convencer adversários que não se preocupam absolutamente nada em estar de acordo consigo próprios.»

Arthur Schnitzler

 

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Revulsão tecnológica

 

 

A internet no Egipto foi cortada aos primeiros sinais da rebelião. No primeiro par de dias o assunto noticioso já não foi a deslumbrante influência que os famigerados feicebuque e tuíter tiveram na revolta, mas a influência que poderiam ter tido (!). Imagine-se a influência que poderiam ter tido na Revolução Francesa. No 25 de Abril, o capitão Salgueiro Maia teria tuítado: «O Sr. Professor não se quer render a uma baixa patente. Vamos esperar com dignidade». Será que o povo, de telemóvel em punho, teria aguentado? Quem seria o primeiro a re-tuítar: «Vamos a ele»? O que se teria perdido em dignidade talvez se tivesse ganho em rapidez, dirão alguns. Ainda que o ganho tecnológico tivesse resultado, curiosamente, numa descida do nível civilizacional.

Todavia, eis que a revolta egípcia teimou em permanecer artesanal, e curiosamente mais eficaz que outras bem tuítadas e feicebucadas, feita à base de ingredientes tradicionais: querer, voz, resistência e risco físico, fogo e pedras. E muito boca-a-boca. Os meios também fortemente tecnológicos e novos da fotografia digital e vídeo muito mais facilitados – para além do telefone «fixo» – não são assunto, obviamente porque já não são tão picantes comercialmente. Em breve, a revolução só será possível com tabletes (que jornalistas e políticos deslumbrados continuam a tratar obsessivamente por um nome comercial), do mesmo modo que ter mais do que um filho só é possível com uma carrinha multifuncional, ou as pazes do namoro só seriam possíveis por telemóvel com videochamada (esta receita parece que falhou enquanto coisa urgente, talvez porque o mercado da sedução aposta bastante no produto descartável e não tanto na recuperação para uso prolongado; ou, ainda mais simplesmente, porque a voz é muito mais prática do que a pose espelho-meu à frente da caixinha de plástico com câmara).

Anteontem, um comentador de tevê gabava-se de poder consultar os jornais internacionais «rapidamente» a respeito da revolta egípcia, graças à sua tablete da empresa Apple (como se não o pudesse fazer de nenhuma outra maneira). A apresentação das eleições presidenciais foi feita de tabletes na mão, e anunciada como tal ao longo de dias, o que manifestamente não teve qualquer utilidade televisiva (à parte a entorpecedora função de teleponto manual, e à parte o lucrativo patrocínio comercial, o único critério substantivo para quem televisiona, como se sabe). O Presidente da Câmara de Lisboa António Costa acabou uma entrevista na rádio escolhendo falar da sua tablete da empresa Apple, em vez de outro tema da cidade (em vez de, por exemplo, responder ao facto de o estacionamento nos bairros circundantes ao Bairro Alto ser totalmente isento de controlo nocturno, e de o recenseamento dos veículos de moradores datar de 1991 (vinte anos), no caso do bairro de São Mamede, ao Príncipe Real, por exemplo, e de os moradores serem sistematicamente vítimas de multas e reboque por não conseguirem estacionar ao fim do dia e à noite, por perderem o «jogo das cadeiras» com os turistas da bebedeira durante as 12 horas de suspensão do Código da Estrada e da Lei do Ruído, aliás não-regulamentada, portanto impossível de aplicar directamente pelas forças de segurança, em nome de alguma qualidade de vida mais urgente). Mas, enfim, este assunto é demasiado local, não tem valor globalizante. Se tivéssemos uma tablete teríamos outra capacidade.

 

 

[note-se como, nas televisões que se apressaram a adoptar o «acordo ortográfico», o Egipto passou a «Egito», mas os locutores continuam a dizer «egípcios», já que «egícios» ninguém dirá; Egito/egípcios – um de muitos casos de desordenamento e estupidez da sinalização etimológica, tal como no caso que interessa ao espectáculo: «espetadores»; é feio, inútil]

 

«O teatro é mais honesto» (Manoel de Oliveira)

 

 

«Hoje tenho uma ideia muito diversa da de antigamente. Neste meu último filme, Angélica, até mudei um pouco as ideias do que estava para fazer; foi mais por imposição e interesse do produtor que eu me atrevi e adaptei o filme à realidade. Mas, enfim, porque na verdade a gente chega a estas conclusões, a máquina de filmar… O teatro é mais honesto que o cinema, porque o cinema filma sonhos. Ora a máquina de filmar não pode filmar sonhos, a máquina de filmar não pode filmar pensamentos. No teatro nunca se representa um pensamento, nunca se representa um sonho. O actor chega ao palco e diz “eu sonhei isto e aquilo”. Se é verdade ou mentira, não se sabe. Ou então diz “eu pensei isto ou aquilo”, porque isto não se filma. Por essas razões, mudamos a ideia do contexto do cinema, e por isso acho que o teatro é fundamental. E, para mim, a expressão mais rica é a literatura. Lembro-me de que na Guerra e Paz, um sujeito quando estava para morrer – estava ferido, depois acabou por ficar doente -, estava preocupado em saber o que é a morte. Porque era uma porta por onde ele não entraria. Olhou lá para o fundo da sala e vê uma porta, e diz “Ah, é uma porta.” E eu achei isto admirável: a morte é uma porta. No mundo material, a porta dá para o cemitério. No mundo espiritual, a porta dá para algum lado, ou não.»

 

Entrevista ao Diário de Notícias

 

(Repare-se como, nos comentários à entrevista, na página do jornal, os que objectam ao gasto público no cinema se revelam bem instruídos pelo mesmo manual; dois deles chegam a usar, no seu par de curtas linhas, exactamente as mesmas duas expressões: «contribuintes» para si e para a sua voz colectiva, e «caprichos» para os filmes feitos.)