Regresso (com um poema de Juan Luis Panero)

 

 

Madrugada do Nove de Maio

 

 

Desde as áridas paredes alugadas,
entre móveis alheios e pesadas cortinas
que a bruma e a chuva pretendem ocultar.
Desde o hostil refúgio de uma garrafa de genebra,
volto, preciso de voltar, àquela tarde.
Àquele pequeno bar, um nada iluminado,
à segura posse de umas mãos, de uns lábios
que jamais voltarão a ser meus.
Foi um dia, tempos depois de nos termos separado para sempre,
ou pelo menos de o termos prometido, entre insultos e gritos,
na pesada cólera do álcool.
Outra vez juntos, sentados frente a frente,
ouvindo o monótono correr de uma canção,
por entre os rostos e o fumo parado sobre as mesas,
com atitude distante repetíamos os gestos do costume,
a comédia banal da defesa ou do cansaço.
E logo um sorriso, o leve roçar de outra pele,
talvez o doloroso tremor das recordações, enredou os nossos olhos
e por um instante, o bafo cálido da ternura
que não encontra palavras chegou-se aos nossos corpos,
amparando o seu humilhado mendigar sem descanso.
Depois tudo acabou definitivamente,
a vida foi mais poderosa do que nós,
mas agora nada importa senão aquela tarde,
aquele momento de união irrepetível,
a tepidez de uma pele, de uns lábios, cuja mera recordação
protege esta noite o meu coração, dá-me força
para continuar o erro de viver até amanhã.

 

 

[para ti, que te fizeste fotografar
com os homens que conheceste]

tradução dramapessoal

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Um Nocturno (Juan Luis Panero)

 

 

Às Vezes, Muito Raramente

 

Quando pouco na vida nos consola
do tempo, esse verdugo indiferente,
às vezes, muito raramente, na monotonia da noite,
entre repetidos sonhos, surge uma imagem
que reflecte o desejo que ali deixámos
e um rosto – a sua remota aparência – reconstrói
um intenso instantâneo da felicidade.
Quando tão misterioso privilégio nos chega,
despertarmos depois é viver o inferno:
não aquele jogo de chamas e demónios,
mas antes o demónio da luz de novo,
o fogo do primeiro cigarro.