O gosto de um freguês

 

Coelho à Caçador

Doses e Meias Doses

 

 

[escrito ao lado da porta do Abrigo Nocturno da Santa Casa da Misericórdia, à Mãe-de-Água, Lisboa]

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As Massas Construídas

 

 

Teimosamente, continuámos a investigar as fotos da Avenida de Roma passada. A variedade não nos ocupa neste momento.

Tanto os doutores planeadores e empreendedores como os modestos plantadores de prédios acima, todos são anónimos hoje numa fotografia. Moveram massas de terra e ergueram massas de betão que mal nos ocupam a memória imediata.

 

 

Estamos habituados, não precisamos de notar ou sentir o percurso dos prédios no tempo, mais lento que o nosso, mais duradouro. Mas eis a delicada silhueta feminina na varanda, perto do alto poste de madeira provisório. Talvez dure um pouco mais que as massas construídas.

 


 

Gravado a lápis para sempre

 

 

Na semana passada, um amigo achou um escrito de António da Silva Teixeira Electricidade que esta noite faz dezanove anos. Um feito notável, para um escrito a lápis numa parede de um prédio igualmente parado no tempo, na Rua Rodrigues Sampaio. O tema é denso, talvez captado na imprensa internacional à mostra pelas ruas, ou captado, simplesmente. São modestas, as nossas alegrias.

 

Dias de sol dos antigos

 

 

Os noticiários televisivos locais repetiram o truque publicitário da Amazon.com, que divulgou ter vendido, pela primeira vez, mais livros digitais que livros de capa dura. Os jornalistas portugueses saltaram imediatamente para a conclusão de que o papel morreu. Lessem mais papel e saberiam a diferença entre hardbacks e paperbacks. A Amazon quer vender Kindles, e os jornalistas, tal como disse Salvador Dalí a um jornalista português, querem ser mais Dalí que Dalí.

 

Temos estado ocupados. Não fomos indiferentes à agitação política que mudará este país, bem expressa nos abaixo-assinados e movimentações contra o pagamento de estradas prontas e acabadas, nunca questionadas, ou nas duas ferozes manifestações contra a transferência de dois padres.
Corremos departamentos da Segurança Social e das Finanças para resolver uma questão com o Estado. Uma semana de lento progresso, enquanto em Israel se discutia o destino dos papéis de Kafka. O recorde de espera foi o do dia 22: 5 horas no balcão do Saldanha da Segurança Social.
Na chamada Secção de Processo, na Praça de Londres, o chamado beneficiário (os independentes não beneficiam de nada) tem de ficar em pé diante de um balcão de um palmo e três dedos de fundo por três palmos de largura para dispor o seu caso em papéis, com um mínimo de dez pessoas em redor a ouvirem a narrativa dos seus erros ou pedidos.
Uma ideia simples, que proporciona fluidez no atendimento.

 


As pressões do absurdo burocrático que assola os trabalhadores independentes das artes fomos aliviá-las no último piso do centro comercial Acqua, na Avenida de Roma, cuja zona de restauração está rodeada por fotografias da avenida, dos tempos em que o sol mandava e os carros obedeciam.

 

Em cartaz, já sob a sombra de A Sede do Mal, o filme Nathalie [Agente Secreta], de Henri Decoin, 1959, com Martine Carol, a quem só Brigitte Bardot veio ocultar.

 

[fotos em exibição na zona dos restaurantes e na página online do centro]

 

Precisamos cá de gente

 

 

O jornal Público deu voz à indignação dos que querem vir todos os dias de carro para o centro de Lisboa, na ocasião do anúncio pela empresa municipal de estacionamento de que irá arrancar, ao fim de décadas, uma amostra de ordenamento e restrição do volume de trânsito no centro. As opiniões, como é costume entre nós, engarrafam todas no mesmo sentido. Em sentido contrário, e de temperamento perfeitamente estacionado, agradou-nos a opinião de Ramiro, de Tibaldinho, Mangualde:

 

pagar

 

É pagar e acho muito bem. Se querem trabalhar na capital com salários melhores já têm condições para isso. Se não quiserem pagar venham para a minha aldeia, tem lugares com fartura, à sombra, e precisamos cá de gente.

 

Postal de Lisboa (2)

 

dramapessoal-blogue-postal-seis

 

A cor radiante da placa de número prendeu-nos a atenção. Mas um mero toque de filtro digital podia ter feito aquele borrão de vermelho. Sempre foi possível retocar fotografias, em laboratório ou em acção. Mas a dúvida e as ferramentas banalizaram-se. Neste caso, ainda assim, quem anda por Lisboa em Agosto não duvidará da relativa legitimidade dos tons. Continua a ser possível manter algum optimismo criativo em relação à fotografia a cores. Como diz David Hockney, finalmente a fotografia vem ter com a pintura. Com o computador, diz, as mãos entram no retrato.

 

foto dramapessoal (não-tratada; em modo de imitação de cromatografia)

Números

 

Recebemos um e-mail de uma amiga com uma foto de outra amiga. Algures no bairro da Graça, em Lisboa.

troco

 

A responsável da Educação achou que os números dos exames eram óptimos, embora não soubesse quais eram os números. Embora ainda não soubesse que não se trata de números. Não leu aquele jornal inglês que dizia que, na Europa, há três maneiras de tratar os números da educação.
A primeira é fazer como os ingleses: apresentar os números verdadeiros e falsificar nas desculpas. A segunda é fazer como os italianos: falsificar os números. A terceira é fazer como os gregos e os portugueses: falsificar o sistema para conseguir os números certos.
A Sociedade Portuguesa de Matemática respondeu aos números: pôs miúdos a fazerem os exames dos anos seguintes ao seu nível, com resultados integralmente positivos. Segundo um professor envolvido no estudo, as provas actuais estão armadas com um mínimo de perguntas de matéria não estritamente matemática, de senso-comum e lógica ao nível do senso-comum, para garantir um nível mínimo positivo.

No meio da confusão, os putos é que são números. Os putos ardinas, como o do boneco, treinavam com os trocos, e não era mau, quando havia trocos.

 

Insónia e marcha (caminhada nocturna)

 

caminhadanocturna

 

Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.

 

foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas