O burro come jornais


«Os deputados governamentais acercaram-se dele, convidando-o em termos delicados a aceitar, no banquete do progresso, o lugar que a sua inteligência reclamava. Os deputados oposicionistas conjuravam-no a não levantar a mão de sobre os projectos depredadores com que a facção governamental andava cavando novas voragens ao país.»

Camilo Castelo Branco, A Queda de Um Anjo, 1866.

George Grosz
The Eclipse of the Sun, 1926
The Heckscher Museum of Art, Huntingdon, New York © Estate of George Grosz

Anúncios

Deus em Pacote

 

Depois de fazermos o «louvor e simplificação» da obra de M.S. Lourenço apenas pelo mais caricatural dos seus humores, nada nos poderia fazer sentir ainda mais a areia das palavras ao vento que um pacote de açúcar dedicado a Deus. O açúcar que não consumimos insiste em mandar-nos recados.
O certo é que nunca perceberemos por que razão à cólera dos homens corresponde por hábito justamente o oposto do que diz o pacote.

pacotededeus-s

 

O Blogue Branco

 

Muitos, mesmo que leiam, não identificam a leitura com acção. Não estava a fazer nada, estava a ler.

Ir a um sítio é fazer alguma coisa. Vamos a um sítio. Quem está num sítio está a fazer. Voltar de um sítio também é fazer. Até acabar de voltar de um sítio é fazer alguma coisa. O que é que estão a fazer? Acabámos de voltar daquele sítio. Havia imensa gente a voltar.

Muito do que é considerado fazer alguma coisa lembra os dois versos de Neil Young: It’s noisy at the fair, but all your friends are there. Está muito barulho na feira, mas estão lá todos, de qualquer maneira.

Ouvindo muitos que foram a sítios bem longe no mundo, parece que sentiram pouco enquanto lá estiveram. O viajante filtrou o lugar à escala das suas possibilidades, raramente interessantes. Nada passa. O viajante não teve de fazer o lugar. Não consegue refazê-lo, para que o vejamos. Não conseguiu ler, não conseguimos lê-lo.

Havia uma menina da Tv que ia a todo o lado. Estivesse nos Andes, em Pisa, no México ou nas banais ilhas tropicais cheias de bananais, tudo para ela era “fascinante”. O mesmo efeito de fascínio, comunicado com um discurso circular e uma expressão ocular rodopiante, teria sido conseguido com um painel de cenário, ou um efeito de ecrã azul. (Não andava muito por interiores, a narradora: monumentos, museus, etc).

A leitura pode trazer painéis de cenário sim, mas tantos e por vezes tão intrincados e activos que a viagem mental supera a viagem de quem, sem imaginação, se perde no cenário a que chama real. Não serve que o cenário seja real, se o viajante não o é.

A melhor forma de viajar é sentir, disse Fernando Pessoa, para quem, anos depois do regresso da África do Sul, muito jovem, uma viagem de comboio ao Carregado foi uma jornada imensa e deu, entre outras coisas, “O Comboio Descendente”. Lisboa, meu lar, disse. E nunca mais saiu. Viajou? Pois claro. E não gastou o que não tinha.

Esta divagação de sábado serve para saudar, e encaminhar alguns amigos para um dos melhores blogues que conhecemos, que, talvez por ser íntimo, não revelámos tão depressa. Chama-se “Spurious”, e tem um arranjo gráfico tão limpo que quase dispensa cabeçalho. Não tem cromos, como este blogue. Não precisa.

 

 

É o único blogue que invejamos. Não tem nada a ver com o tipo médio de blogues que podemos encontrar em língua portuguesa, estéreis, infantis, ou hipertensos por causa das actualidades, agitados e lentos, camaleões de todos os momentos.

Spurious é branco e linear, no justo sentido dos termos. A vida de quem escreve ali chega-nos por um ponto de vista serenamente assente, e por um estilo sem cores artificiais, espelho claro da experiência ilimitada da leitura. Há ficção (talvez na própria figura do eu que assina o blogue, desdobrada na escrita), e há sobretudo lugares mentais e lugares naturais. Mas, ali, quem escreve esteve nos sítios que descreve, e leva-nos por lá.

 

Ligação para a entrada How are We to Disappear? e para uma página pequena, dedicada a E.M. Cioran.