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Um pedido de desculpas pela demorada suspensão sem aviso. Algum trabalho criativo afastou-nos daqui. Estamos também a pensar em mudar um pouco o conteúdo deste blogue. Esperamos que a imagem escolhida para figurar a pausa seja do agrado dos visitantes. Há anos que a temos guardada, em tamanho maior, talvez para ilustrar um pequeno livro em parte dedicado ao Tempo (enfim; em certo sentido, os livros são todos dedicados ao Tempo). Parece que há uma tribo da Amazónia que não tem a palavra tempo (parece que há uma tribo na Amazónia para cada um dos nossos problemas). Não podemos dar-nos a esse luxo (outra palavra frequentemente dispensada pelas culturas, algumas bastante complexas).

 

Por limpeza, voltamos à arte

 

Por limpeza, voltamos à arte, especialmente a que a circula na internet mas não lhe pertence. Eis uma série de contra-guardas de livros, as coberturas duplas que forram as faces interiores da encadernação, e preparam ou substituem a folha de guarda, aquela mais grossa que protege a folha de rosto. Estas foram achadas no blogue Stopping Off Place, em si próprio um autêntico portal de educação pela arte e artes visuais, através da sua escolha de outros blogues, lista que vivamente aconselhamos.

Aqui bastam-nos as miniaturas. Para o tamanho maior, vide a fonte. As mãos gostam de papel. Os olhos também. A computação e o plástico oleoso são para as letras um lugar de passagem.

 







 

ver Stopping Off Place

 

Deus em Pacote

 

Depois de fazermos o «louvor e simplificação» da obra de M.S. Lourenço apenas pelo mais caricatural dos seus humores, nada nos poderia fazer sentir ainda mais a areia das palavras ao vento que um pacote de açúcar dedicado a Deus. O açúcar que não consumimos insiste em mandar-nos recados.
O certo é que nunca perceberemos por que razão à cólera dos homens corresponde por hábito justamente o oposto do que diz o pacote.

pacotededeus-s

 

Este Verão Cru

 

 

Riviera - Palm Springs - small

 

Este Verão cru continua o seu estrago. Deixou agora o seu posto de observação elevado o escritor M.S. Lourenço, tradutor de Wittgenstein e autor de obras como O Doge (sob a capa de tradutor do Arquiduque Alexis-Christian von Gribskov) ou Os Degraus do Parnaso, volume de crónicas devotado, em parte importante, à contradição do culto da novidade e da mudança pela novidade, instaurado nas artes e nas vidas pelo império daquilo a que Adorno chamou «A Indústria da Cultura» e alguns chamam, por ser isso o que chamam a tudo o que os cerca, «A Arte Pop».

Devemos-lhe alguns dos poucos ensaios de qualidade que temos sobre Cesário Verde (poeta que tem sofrido terríveis assaltos de banalidade académica) e devemos-lhe o mais digno e bem-humorado obituário da velha Estrada de Sintra, sob a forma de um ensaio intitulado «À sombra das acácias em flor», que seria leitura obrigatória das classes aprendizes que habitam o erro urbanístico alternativo aos campos que foram dessa Estrada, fossem leitores de Literatura os programadores e muitos dos professores que por esses sítios exercem a sua rotina de nivelamento das imaginações.

Não é do extraordinário ensaio «Epopeia crepuscular», louvor de «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, que guardamos uma amostra, mas de «À sombra das acácias em flor», lamento pela devastação estética e ambiental que os povos da periferia lisboeta identificam com a modernidade, ou, como famosamente cunhou o mais alto magistrado da nação, «o pogresso»:

«Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida.

Sobre a linha dos telhados ergue-se um enorme bloco em construção, com a aparência de ser uma das muitas modernas garagens de cinco pisos de altura, onde os muitos automóveis do Cacém vão poder ser arrumados para descanso dos seus proprietários […]. Qual não foi a minha surpresa quando há duas semanas o bloco entrou numa nova fase de construção, da qual se segue, irrefutavelmente, que se trata afinal de uma igreja e, assim, em vez dos automóveis, terão que se arrumar lá dentro as almas do Cacém. É a estas almas do Cacém que, no escasso e sincopado vocabulário do dialecto tropical que agora se fala, vai ser transmitida a doutrina do Infinito, […]»

 

Os Degraus do Parnaso está disponível numa edição Assírio & Alvim.

 

O Artifício Agradável

 

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No teatro, ou noutras artes, eis o que muitos ignoram e Boileau já sabia, à sua maneira, no auge do neoclassicismo francês. Que:

 

………………………………………. o artifício agradável,
Do mais afrontoso objecto, faz um objecto amável.

(Boileau, Arte Poética, Capítulo 3)

Todas as épocas têm o seu catálogo de tiques estéticos, que fornecem a público e artistas as suas fugas satisfatórias. E, em larga medida, as épocas artísticas constroem a sua segurança vilipendiando os tiques das épocas passadas (mas não vencidas). Os tiques de muitos de agora, em cena, tendem para o inverso do que Boileau acreditava, e certos actores sabem melhor correr (sim, em palco) ou cuspir, ou mastigar impropérios, do que articular completamente, ou, já agora, projectar com rendimento, ou, agora ainda, estar.
Ou seja, a voga presente tende para a convicção de que o artifício desagradável (para usar os termos de Boileau) faz de todo o objecto amável o afrontoso objecto procurado.

 

 

Pormenor de livro exposto no escaparate da Livraria Sá da Costa,
Chiado, Lisboa, com alegoria de louvor a Boileau
(elástico que prende a página à vista, à esquerda).

 

A velha zona dos livros novos e velhos

 

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O Guardian dedicou no sábado uma página interactiva à velha zona dos livros da Charing Cross Road. Vale a pena ver os três curtos filmes de minuto e meio sobre a Murder One, a Any Amount of Books e a Quinto, e espreitar as caves das duas últimas.

O título da peça, qualquer coisa como «O Desvanecente Mundo dos Livros», é demasiado drástico (ou demasiado livresco), mas acaba por oferecer-se uma comoção bastante suave, a propósito do fecho da livraria Murder One, casa especialista da ficção do crime e mistério, vítima da mudança de hábitos (de percurso a pé, de busca e encomenda de livros, de consumo, em tempo de credit crunch).

Já tínhamos visto fechar outras casas daquela rua, na crise de 1992. Assistimos a uma enorme mudança, em 2002, quando descobrimos a desarrumada, labiríntica e infinita Foyles convertida em loja de grandes novidades, limpa, colorida, sem surpresas e cheia de manuais de estilo de vida e fitness. Muitas das outras livrarias foram transformadas em Waterstones, ou semelhantes, todas com os mesmos destaques, os mesmos chamarizes, cheias daqueles objectos que valem seis meses de conversa e ocasionalmente alguma fraca filmografia, a que famosamente Alexandre O’Neill chamou as bestas-céleres.

A Waterstones Booksellers até comprou a verde-escura Hatchards («desde 1797»), a livraria que aceita listas de casamento, e a cuja modesta página também é possível aceder através da página do grossista do livro («Waterstones – discover something new»).

Na cave da Any Amount of Books encontrámos uma cópia da edição Arden d’A Tempestade de Shakespeare, Segunda Série, comentada por Frank Kermode, para substituir a que afinal não tínhamos perdido (a edição de Kermode reinou desde 1954 a 1999 como edição universitária). E pudemos conversar com quem estava na loja sobre pormenores da superioridade dessa edição em relação ao volume da nova Terceira Série (uma coisa carregada dos clichés do multiculturalismo, cheia de pobres escolhas textuais e inchada de falatório, montada por um casal de suburbanos new age que agradecem aos cães e um ao outro a companhia e o mau serviço).

Isto tudo para contrapor à pequena tragédia lenta da rua de Londres o que se passa em Lisboa, no Calhariz, e pela Calçada do Combro até ao Poço dos Negros (incluindo a boca da Rua d’O Século, a caminho da nova sala de teatro «Negócio», a cargo da Zé dos Bois), onde se têm juntado mais lojas dedicadas aos livros sem tempo, e onde há quem conheça o que vende – para quem o que saiu hoje ou vai sair para a semana só talvez interesse daqui a uns bons anos.

 

Guardian: «Charing Cross – the fading world of books»

(Na página de abertura, clique «Next», no canto inferior esquerdo, e, no mapa, em cada video-bt para os mini-vídeos; nos quadrados vermelhos para as fotos).

 

Por razões que já não recordo

 

Regressamos muito à autobiografia de Luis Buñuel, O Meu Último Suspiro, um tratado das tropelias da criatividade de grupo, e dos limites da vida e do espectáculo, ou entre ambos. Teve uma edição portuguesa, que hoje se perderia entre novelas de mulheres árabes sofredoras, folhetos de auto-ajuda com receitas místicas e dietéticas, manuais de assassínio comercial e romances portugueses no mau sentido dos dois termos.

Temos falado pouco de teatro. Mas a melhor maneira de falar dele é cada vez mais não falar muito.

«… Quanto a La Mort En Ce Jardin, recordo-me sobretudo de problemas dramáticos em relação ao argumento, o que é a pior das coisas. Não conseguia resolvê-los. Muitas vezes, levantava-me às duas horas da manhã para escrever, durante a noite, as cenas que entregava a Gabriel Arout para que ele me pudesse corrigir o francês. Tinha de rodar essas mesmas cenas no próprio dia. Raymond Queneau veio passar quinze dias ao México para tentar, em vão, ajudar-me a sair desta alhada. Recordo ainda o seu humor, a sua delicadeza. Ele nunca dizia: «Não gosto disto, não é bom», mas fazia sempre começar as suas frases por um: «Pergunto-me se…»

Ele foi o autor de uma descoberta engenhosa. Simone Signoret, no papel de uma prostituta que vive numa pequena cidade mineira onde já tinham ocorrido distúrbios, está a fazer as suas compras numa mercearia. Compra sardinhas, agulhas, diversos produtos de que precisa, e, depois, pede um sabão. Nesse momento, ouvem-se os toques de corneta dos soldados que vinham restabelecer a ordem na cidade. Ela muda de repente de opinião e pede cinco sabões.

Infelizmente, por razões que já não me recordo, esta curta cena de Queneau não pôde figurar no filme.

Julgo que Simone Signoret não tinha qualquer desejo de fazer La Mort En Ce Jardin, preferindo ficar em Roma com Yves Montand. Tendo de passar por Nova Iorque a caminho do México, ela introduziu ostensivamente no seu passaporte documentos comunistas, ou soviéticos, na esperança de que as autoridades americanas a mandassem para trás – no entanto, deixaram-na passar sem qualquer comentário.

Como se mostrou bastante turbulenta durante a rodagem do filme, distraindo os outros actores, um dia pedi ao chefe maquinista que pegasse numa fita métrica, medisse uma distância de cem metros a partir da máquina de filmar e instalasse a esta distância os lugares dos actores franceses.

Em contrapartida, graças a La Mort En Ce Jardin conheci Michel Piccoli, que se tornou um dos meus melhores amigos. Fizemos cinco ou seis filmes juntos. Gosto do seu sentido de humor, da sua generosidade secreta, do seu grão de loucura e do respeito que nunca me tem.»

 

Signoret & Piccoli, La Mort En Ce Jardin

 

O Blogue Branco

 

Muitos, mesmo que leiam, não identificam a leitura com acção. Não estava a fazer nada, estava a ler.

Ir a um sítio é fazer alguma coisa. Vamos a um sítio. Quem está num sítio está a fazer. Voltar de um sítio também é fazer. Até acabar de voltar de um sítio é fazer alguma coisa. O que é que estão a fazer? Acabámos de voltar daquele sítio. Havia imensa gente a voltar.

Muito do que é considerado fazer alguma coisa lembra os dois versos de Neil Young: It’s noisy at the fair, but all your friends are there. Está muito barulho na feira, mas estão lá todos, de qualquer maneira.

Ouvindo muitos que foram a sítios bem longe no mundo, parece que sentiram pouco enquanto lá estiveram. O viajante filtrou o lugar à escala das suas possibilidades, raramente interessantes. Nada passa. O viajante não teve de fazer o lugar. Não consegue refazê-lo, para que o vejamos. Não conseguiu ler, não conseguimos lê-lo.

Havia uma menina da Tv que ia a todo o lado. Estivesse nos Andes, em Pisa, no México ou nas banais ilhas tropicais cheias de bananais, tudo para ela era “fascinante”. O mesmo efeito de fascínio, comunicado com um discurso circular e uma expressão ocular rodopiante, teria sido conseguido com um painel de cenário, ou um efeito de ecrã azul. (Não andava muito por interiores, a narradora: monumentos, museus, etc).

A leitura pode trazer painéis de cenário sim, mas tantos e por vezes tão intrincados e activos que a viagem mental supera a viagem de quem, sem imaginação, se perde no cenário a que chama real. Não serve que o cenário seja real, se o viajante não o é.

A melhor forma de viajar é sentir, disse Fernando Pessoa, para quem, anos depois do regresso da África do Sul, muito jovem, uma viagem de comboio ao Carregado foi uma jornada imensa e deu, entre outras coisas, “O Comboio Descendente”. Lisboa, meu lar, disse. E nunca mais saiu. Viajou? Pois claro. E não gastou o que não tinha.

Esta divagação de sábado serve para saudar, e encaminhar alguns amigos para um dos melhores blogues que conhecemos, que, talvez por ser íntimo, não revelámos tão depressa. Chama-se “Spurious”, e tem um arranjo gráfico tão limpo que quase dispensa cabeçalho. Não tem cromos, como este blogue. Não precisa.

 

 

É o único blogue que invejamos. Não tem nada a ver com o tipo médio de blogues que podemos encontrar em língua portuguesa, estéreis, infantis, ou hipertensos por causa das actualidades, agitados e lentos, camaleões de todos os momentos.

Spurious é branco e linear, no justo sentido dos termos. A vida de quem escreve ali chega-nos por um ponto de vista serenamente assente, e por um estilo sem cores artificiais, espelho claro da experiência ilimitada da leitura. Há ficção (talvez na própria figura do eu que assina o blogue, desdobrada na escrita), e há sobretudo lugares mentais e lugares naturais. Mas, ali, quem escreve esteve nos sítios que descreve, e leva-nos por lá.

 

Ligação para a entrada How are We to Disappear? e para uma página pequena, dedicada a E.M. Cioran.

 

Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher

 

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A maior parte das pessoas possui apenas uma imaginação fraca. O que não as fere directamente, enterrando-se-lhes como uma punhalada em pleno cérebro, não as chega a impressionar; porém, se diante dos seus olhos se produz qualquer coisa, mesmo de pouca importância, mas que esteja ao alcance da sua sensibilidade, imediatamente brota nelas uma paixão desmedida. Assim, com uma veemência imprópria e exagerada, essas pessoas compensam, de certo modo, o pouco interesse que têm pelos outros acontecimentos.

 

Segundo parágrafo de Vinte e Quatro Horas da Vida Duma Mulher, de Stefan Zweig, tradução de Alice Ogando.

máquina de escrever Adler 30, propriedade de Karina Jeppesen

 

Olhem Para a Cena

O regresso à normalidade da máquina que nos comanda foi mais complicado do que se esperava. «Vamos fazer figas», dizia-nos um técnico. «Felizmente você tem intuição para estas coisas». Figas, intuição, e alguma compatibilidade entre drivers e sistema, três aspectos essenciais para uma boa estabilidade informática.

Esta saga técnica meio artesanal fez lembrar um livro querido dos tempos da longa antecipação do ano maravilhoso de 2000. Muitos anos depois da publicação, já amarelados, ainda se vendiam os volumes da colecção Emílio Salgari, com as páginas por separar (para garantir a novidade e limpeza), edição Romano Torres.

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A aventura do nº 32 da colecção não se passava na Índia ou nos confins do Oriente, mas antes no futuro. Os heróis induzem-se um sono de cem anos, graças a um elixir de flor de lótus, velho segredo egípcio. Acordam num mundo acelerado, cheio de electricidade no ar, que acabará por fazê-los definhar e morrer. Entretanto, correm esse lugar de caos misturado de conforto.

Folheando o livro seco e roído do peixinho de prata, encontramos uma descrição da televisão (com som canalizado), e de um estado de coisas brutal, estranho fruto de uma imaginação delirante:

O doutor ouvira, com um assombro fácil de adivinhar, aquela voz que anunciava espantoso desastre. Levantou rapidamente a roupa, pois lhe pareceu que a voz se fizera ouvir precisamente dentro da cabeceira da cama. Deu com uma espécie de tubo, em cuja borda estava escrito: “Assina-se no World”.
– Uma maravilha do ano dois mil – exclamou – Os jornais comunicavam directamente a notícia para casa dos assinantes. Teriam sido suprimidos o papel e as máquinas de imprimir? Nos nossos tempos ainda não se conheciam estas comodidades. Como o mundo tem progredido!
Estava para chamar o amigo, que não se decidia a abrir os olhos, quando ouviu sair do tubo outro aviso: “Olhem para a cena”.
No mesmo instante viu iluminar-se grande quadro suspenso na parede que ficava defronte do leito, no qual se desenrolou horrível cena de uma veracidade extraordinária.
Via-se uma rua cheia de homens, que atacavam diversos prédios à bomba, fugindo depois em debandada. As paredes desmoronavam-se, os telhados abatiam; homens, mulheres e crianças precipitavam-se para a rua, enquanto compridas línguas de fogo se erguiam sobre aquela amálgama de destroços, tingindo todo o quadro de vermelho…

Há também uma antevisão do e-mail, que, como se sabe, é uma coisa muito simples.

– Aí chega a minha correspondência – disse Holker, levantando-se.
– Outra maravilha! – exclamaram Toby e Brandok, levantando-se também.
– É uma coisa muito simples – respondeu Holker – Olhem, meus amigos.
Premiu um botão na parte inferior de um quadro que representava uma batalha naval. O quadro desapareceu, subindo dentro de duas ranhuras, deixando à vista um vão de meio metro quadrado. Dentro estava um cilindro de metal, de sessenta ou setenta centímetros, com uma circunferência de trinta ou quarenta, coberto de números pintados a preto.
– O meu número de assinatura postal é o mil novecentos e oitenta e sete – elucidou Holker – Ei-lo aqui, e as minhas cartas estão metidas num pequeno compartimento.
Carregou no número, abriu-se uma portinha e tirou a correspondência; depois fez descer o quadro, e premiu outro botão.
– O cilindro já partiu – disse – Vai distribuir a correspondência pelos inquilinos do prédio.

A Wikipédia em inglês (em português há pouco mais que o retrato) dá conta da grande popularidade de Salgari em Portugal e nos países hispânicos. Nunca conseguiu gerir os ganhos de milhões de livros vendidos. Pôs fim à miséria em 1911. Entre os pequenos adeptos da sua fantasia contam-se Sergio Leone, Fellini, Borges, Neruda e Che Guevara.