Father death blues

 

Allen Ginsberg - Father Death Blues

 

A presença da morte trouxe a sua monotonia a este blogue. Cada pausa foi sendo alongada por mais uma ocasião de afastamento. Na partida do nosso querido Jorge Vasques, actor, 51 anos, depois de uma récita, louvámos connosco a sua alma calorosa buscando o testemunho de outro comediante triste, o poeta Allen Ginsberg. Quando lhe perguntaram como queria ser lembrado, Ginsberg disse o nome de uma canção, feita para saudar o próprio pai na morte, lembrando a recomendação do pai espiritual na fé budista: «Por favor, deixa-o ir, e continua a tua celebração». Puxou da concertina que tinha aos pés e cantou «Father Death Blues», um hino à graça que tem morrer.

 

A canção deixou de estar disponível em Youtube, mas a entrevista completa, mais o seu remate cantado, do programa Face to Face, com Jeremy Isaacs, autêntica autobiografia compacta com despedida, pode achar-se em Ubuweb (na mesma página de «A video diary of Ginsberg in the days immediately before and after his death», por Jonas Mekas).

 

Father Death Blues

 

Hey Father Death, I’m flying home
Hey poor man, you’re all alone
Hey old daddy, I know where I’m going

Father Death, Don’t cry any more
Mama’s there, underneath the floor
Brother Death, please mind the store

Old Aunty Death Don’t hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moans

O Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts’ll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the rest

Genius Death your art is done
Lover Death your body’s gone
Father Death I’m coming home

Guru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this Blues

Buddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we’ll work it through

Suffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scorn

Father Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell.

Allen Ginsberg

 

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Adeus Vasco Granja

 

Vasco Granja morreu anteontem de madrugada, com 83 anos. A arte do obituário é uma coisa patética, mas a morte de mais um educador artístico não deve deixar-se cair.

Durante anos, uma das polémicas artísticas deste país, talvez a maior, a que formou gerações, foi em redor da escolha de filmes de animação de V.G. para os seus programas: sobre se devia pôr no ar mais filmes da Warner Brothers, da série Looney Tunes, de montagem rápida, banda sonora estridente e humor de choque, ou se tinha o direito de insistir no material de outros mestres, como o checo Jirí Trnka, ou o canadiano Norman McLaren, entre tantos.

 

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Os filmes da Warner já tinham saída na transmissão corrente, e já tinham formado o gosto dominante, aquele mesmo que se alimenta dos filmes-de-acção & catástrofe-com-chacota de um Bruce Willis, ou infinitas variantes dessa variante. O próprio Vasco Granja brincava com a sede de muitos espectadores pelos brinquedos ruidosos, extraordinários, diga-se, mesmo quando apostavam no mecanismo tão televisivo da rotina cómica com estreita variação.

Mas até esses filmes caíram vítimas da psicologia popular de reacção piedosa à «violência» na tv. Nós aqui achamos mais violento que um champô prometa «biovitaminas», e «alimente» o tecido morto do cabelo directamente. Nós aqui só aprendemos com aquela que foi talvez a única sequência sem fuga histriónica de toda essa cinematografia, a famosa noite de insónia do gato Silvester/Silvestre, um momento de Kafka-para-todas-as-criancinhas, que o avô Granja apreciava especialmente.

Não sabemos se Vasco Granja morreu com a mesma sensação de dever cumprido de Mel Blanc, pai da voz de Bugs Bunny & outros, que deixou no seu próprio epitáfio a legenda final desses filmes: That’s All Folks! – ao mesmo tempo uma espécie de «manguito» existencialista.

 

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Mas sabemos que muitos lhe estão gratos como nós. Por ter aberto o ponto de vista, algo de que hoje a nossa televisão foge a sete pés (… eis uma figura animada). Porque, dizem os seus donos, «não têm nada que educar as massas». Nesta fórmula, que F.P. Balsemão usou, está escondido, curiosamente, o eco talvez involuntário de uma caricatura de Vasco Granja, vinda do tempo da guerra fria, de quando o divulgador era visto, sempre com uma bonomia pálida, como uma «espécie de embaixador dos países de Leste».

Por isso escolhemos agradecer especialmente a Vasco Granja a descoberta do insuspeito canadiano Norman McLaren, músico e desenhador, a cujos filmes sonoros, baseados exactamente no mesmo princípio jazzístico dos Looney Tunes, dedicámos uma parte do dia de ontem. No Youtube é possível ver o enérgico «Sinchronomy», bem como «Sinchronomy on Mars» ou «Lignes Verticales/Lines Vertical».

 

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Imagens do filme «Synchronomy», de Norman McLaren.

 

Opiário

[revisto]

Quem pesquisar games waste of time vai encontrar enormes quantidades de sugestões de um género particular de jogos electrónicos, ultra-leves, que se gabam de fazer desperdiçar o tempo eficazmente.

 

 

As velhas fotografias dos pavilhões de ópio do século XIX, cheias de homens (e mulheres, nas salas e caves clandestinas de Nova Iorque e São Francisco, ou Sidney) de olhos vidrados, em posição fetal, não tombaram no passado. Estão aqui, com a sua aura e vórtice de fibra óptica.

A caminho de ver um amigo há muito distante, com quem tínhamos partilhado um concerto do guitarrista norueguês Terje Rypdal, fomos procurar um disco do músico na FNAC, de passagem.

Ali, o cinema e a música estão a sofrer uma razia de quantidade, e o desastre, na escolha e ordem. A mostra passou de fraca a aleatória. Os discos de cinema e os de música e vídeo musical migraram e juntaram-se, e a maior clareira é agora dedicada aos jogos de computador e às suas máquinas caras.

A loja que engoliu as outras lojas está confusa. Assente a moda de que os suportes materiais de música e vídeo podem ser substituídos pelo fumo do tráfego digital (e fugidos muitos dos que não pensam assim para a encomenda directa, ou para uma ou outra pequena loja temática) o grande retalhista parece acreditar que pode vender mais jogos em suporte físico. Será por pouco tempo.

Evaporados os narcóticos jogos para o trânsito virtual, vai sobrar muito espaço na loja. Ficarão só as máquinas. Depois trazem-se uns tapetes, e umas enxergas e colchas, para conforto dos experimentadores dos terminais e suas miragens de fogo, vertigem e repetição. Depois umas cortinas, contra a crua luz do dia…

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(Este texto acabou por ser escrito num dia obscuro em que nos perdemos no labirinto da loja em questão e acabámos por imaginar que a secção de cinema era ainda mais pequena do que de facto é. Mas, também de facto, está mais pequena do que já foi. Nos dias obscuros cai-se para fora da rotina, e pode ver-se a sombra que o presente larga para diante. Enfim. Comprámos um disco: de Rabih Abou-Khalil: “em português“, do músico libanês com o fadista Ricardo Ribeiro, & Luciano Biondini, Michel Godard e Jarrod Cagwin; Enja Records, 2008).

 

Rés-do-chão

 

 

[TSF]

O corpo da cantora Cândida Branca Flor, que foi autopsiado ontem, quinta-feira, encontra-se há 24 horas no Instituto de Medicina Legal (IML) porque ninguém aparece para o reclamar, afirmou à Lusa uma fonte daquela instituição.
A situação é no mínimo insólita, e já foi confirmada pela editora que gravou o seu último trabalho, a Sucesso.

 

 

 

Tanto a Sucesso como o IML, garantem que até ao momento não foram contactados nem por familiares nem por amigos da cantora, encontrada morta quarta-feira na sua casa, em Massamá. Quanto à família da cantora, resume-se à mãe, muito idosa com mais de 90 anos, e vive num lar no Alentejo. […]
O resultado da autópsia não pode ser revelado, visto estar em segredo de justiça. Aparentemente, tudo indica que a cantora se terá suicidado com álcool e comprimidos.

 

 

 

[NetParque]

[…]

O NetParque apurou junto da Aqui Há Música – Produção de Espectáculos, empresa de agenciamento de Cândida Branca Flor, que será rezada uma missa, pelas 13h30 de sábado, antes da saída do corpo da cantora da igreja para a sua última morada.
Segundo a mesma fonte, a notícia da Agência Lusa dizendo que o corpo permaneceu 24 horas no Instituto de Medicina Legal sem ser reclamado “é falsa e alguém terá de responder por ela”. O corpo de Cândida Branca-Flor foi reclamado por uma sobrinha, que se encontra a tratar de todo o processo relacionado com o enterro.

 

 

 

 

[NetParque]

A cantora Cândida Branca Flor foi encontrada morta em sua casa, em Massamá, na tarde de quarta-feira, 11 de Junho. Tinha 51 anos e 25 de carreira.
A notícia, avançada pela edição online do jornal “Público”, foi confirmada ao NetParque pelos Bombeiros de Queluz, entidade que recebeu uma chamada, às 16h21, a alertar para a existência de uma vítima de paragem cardíaca.
De acordo com a Agência Lusa, a chamada foi realizada por amiga de Cândida Branca Flor que, estranhando o facto de a cantora não atender o telefone, se deslocou à residência, de que possuía uma chave. […]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao NetParque, a editora Sucesso e a empresa de agenciamento da cantora, Aqui Há Música, afirmaram, ao início da noite, não ter conhecimento do facto.
Cândida Maria Coelho Soares Rosado, nascida a 12 de Novembro de 1949, vivia sozinha em sua casa e a única família que tinha era a sua mãe.
Foi na televisão que Cândida Branca Flor se revelou, em 1976, ao lado de Júlio Isidro na apresentação do “Fungagá da Bicharada”. Nesse mesmo ano, a sua voz chamou a atenção no álbum “Coisas do Arco da Velha” da Banda do Casaco (ainda com o nome Cândida Soares).
Mas foi só mais tarde que Cândida Branca Flor (nome adoptado a partir de uma canção da Banda do Casaco) se lançaria como cantora, exactamente com a edição da banda sonora do “Fungagá da Bicharada”.
Em 1978, Branca Flor participou pela primeira vez no Festival RTP da Canção com “A Nossa História de Amor”, antes de regressar por duas vezes ao mesmo Festival, ao lado de Carlos Paião, com quem cantou dois dos seus maiores êxitos – “Trocas e Baldrocas”, em 1982, e “Vinho do Porto”, em 1983.
Ídolo das crianças de finais de 70 e inícios de 80, Cândida Branca Flor editou oito discos entre 1978 e 1993, sempre com um piscar de olhos ao público infantil. Do seu vasto repertório popular e romântico contam-se ainda as muitas interpretações de canções de Beatriz Costa.
Nos últimos anos, Cândida Branca Flor colaborou com muitos outros nomes da música popular e deu numerosos espectáculos para as comunidades de emigrantes portugueses no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos da América, Canadá, África do Sul e Austrália.

 

 

 

 

 

 

 

 

[Oeste Diário]

[…]

O último espectáculo da cantora Cândida Branca Flor, encontrada morta em sua casa na quarta-feira, dia 11 de Julho, foi em Pero Negro (concelho do Sobral do Monte Agraço), no sábado anterior.
A cantora Cândida Branca Flor, de 51 anos, foi encontrada morta em sua casa, em Massamá, na quarta-feira, dia 11 de Julho. Aparentemente terá sido suicídio, mas as entidades policiais não confirmaram ainda esta hipótese.
O ultimo concerto que a artista deu foi no sábado anterior, dia 7 de Julho, no concelho do Sobral do Monte Agraço. Cândida Branca Flor actuou no pavilhão gimnodesportivo do Clube Desportivo e Recreativo de Pero Negro, onde esteve com as suas bailarinas e o seu amigo e também cantor Luís Portela.
A carreira de Cândida Branca Flor não estava a correr bem. Exemplo disso é o facto de no espectáculo realizado em Pero Negro só terem estado presentes cerca de 30 pessoas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Redacção noticiosa da rádio TSF de 13 de Julho de 2001 & locais online Netparque
& Oeste Diário]

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