Revulsão tecnológica

 

 

A internet no Egipto foi cortada aos primeiros sinais da rebelião. No primeiro par de dias o assunto noticioso já não foi a deslumbrante influência que os famigerados feicebuque e tuíter tiveram na revolta, mas a influência que poderiam ter tido (!). Imagine-se a influência que poderiam ter tido na Revolução Francesa. No 25 de Abril, o capitão Salgueiro Maia teria tuítado: «O Sr. Professor não se quer render a uma baixa patente. Vamos esperar com dignidade». Será que o povo, de telemóvel em punho, teria aguentado? Quem seria o primeiro a re-tuítar: «Vamos a ele»? O que se teria perdido em dignidade talvez se tivesse ganho em rapidez, dirão alguns. Ainda que o ganho tecnológico tivesse resultado, curiosamente, numa descida do nível civilizacional.

Todavia, eis que a revolta egípcia teimou em permanecer artesanal, e curiosamente mais eficaz que outras bem tuítadas e feicebucadas, feita à base de ingredientes tradicionais: querer, voz, resistência e risco físico, fogo e pedras. E muito boca-a-boca. Os meios também fortemente tecnológicos e novos da fotografia digital e vídeo muito mais facilitados – para além do telefone «fixo» – não são assunto, obviamente porque já não são tão picantes comercialmente. Em breve, a revolução só será possível com tabletes (que jornalistas e políticos deslumbrados continuam a tratar obsessivamente por um nome comercial), do mesmo modo que ter mais do que um filho só é possível com uma carrinha multifuncional, ou as pazes do namoro só seriam possíveis por telemóvel com videochamada (esta receita parece que falhou enquanto coisa urgente, talvez porque o mercado da sedução aposta bastante no produto descartável e não tanto na recuperação para uso prolongado; ou, ainda mais simplesmente, porque a voz é muito mais prática do que a pose espelho-meu à frente da caixinha de plástico com câmara).

Anteontem, um comentador de tevê gabava-se de poder consultar os jornais internacionais «rapidamente» a respeito da revolta egípcia, graças à sua tablete da empresa Apple (como se não o pudesse fazer de nenhuma outra maneira). A apresentação das eleições presidenciais foi feita de tabletes na mão, e anunciada como tal ao longo de dias, o que manifestamente não teve qualquer utilidade televisiva (à parte a entorpecedora função de teleponto manual, e à parte o lucrativo patrocínio comercial, o único critério substantivo para quem televisiona, como se sabe). O Presidente da Câmara de Lisboa António Costa acabou uma entrevista na rádio escolhendo falar da sua tablete da empresa Apple, em vez de outro tema da cidade (em vez de, por exemplo, responder ao facto de o estacionamento nos bairros circundantes ao Bairro Alto ser totalmente isento de controlo nocturno, e de o recenseamento dos veículos de moradores datar de 1991 (vinte anos), no caso do bairro de São Mamede, ao Príncipe Real, por exemplo, e de os moradores serem sistematicamente vítimas de multas e reboque por não conseguirem estacionar ao fim do dia e à noite, por perderem o «jogo das cadeiras» com os turistas da bebedeira durante as 12 horas de suspensão do Código da Estrada e da Lei do Ruído, aliás não-regulamentada, portanto impossível de aplicar directamente pelas forças de segurança, em nome de alguma qualidade de vida mais urgente). Mas, enfim, este assunto é demasiado local, não tem valor globalizante. Se tivéssemos uma tablete teríamos outra capacidade.

 

 

[note-se como, nas televisões que se apressaram a adoptar o «acordo ortográfico», o Egipto passou a «Egito», mas os locutores continuam a dizer «egípcios», já que «egícios» ninguém dirá; Egito/egípcios – um de muitos casos de desordenamento e estupidez da sinalização etimológica, tal como no caso que interessa ao espectáculo: «espetadores»; é feio, inútil]

 

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Poesia pequena e pequena política

 

 

Fim de campanha. No campo da «análise», todos os chavões em parada, até o da distância entre os eleitores e os eleitos. Num país de fracas elites, este lema oco passa por observação política. Neste blogue somos a favor de ainda maior distância. Quando ouvimos aquilo, só nos ocorrem os casos de intensa proximidade entre os eleitores e os seus eleitos: Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, etc.

O pior chavão coube nas palavras de uma comentadora artificiosamente penteada: «…esse é poeta, não sabe a diferença entre uma acção [de empresa] e uma caneta». O lugar-comum da poesia como incapacidade social, cognitiva, política ou científica, só fala da banalidade da ideia de poesia que lhe subjaz. Porém, eis que um credo de mau gosto literário se transforma em argumento político e de campanha eleitoral. Temos poetas engenheiros e matemáticos (e empresários). Mas apetece dizer que, em saber político e económico, Maria João Avillez está algo aquém de Elizabeth I, poeta.

 

No crooked leg, no bleared eye,
No part deformed out of kind,
Nor yet so ugly half can be
As is the inward suspicious mind.

 

As revoluções do Telephone

 

 

A grande novidade que os jornalistas viram na revolta do Irão foi o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. A grande novidade que os jornalistas vêem na revolta da Tunísia é o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. (Chamam-lhes revoluções; fala a geração de jornalistas que não distingue uma revolta de uma revolução.) As visões de futuro agora em campanha vêem… as redes sociais. Voltámos ao entusiasmo pelo Telephone. Entretanto, uma peça de teatro com página no feicebuque junta mais de novecentos amigos… e seis pessoas no segundo dia.

 

Respeitinho, inho, inho

 

 

Campanha presidencial. A gente cristã escorraça um candidato à presidência da sua «festa religiosa», festa onde pode haver cueca variada, fartura e CD de baile, talvez até o telemóvel desbloqueado, mas não pode haver meia dúzia de bandeiras de uma das candidaturas menos povoadas. «Respeitinho, respeitinho, hã!?», dizem, com um ódio entredentes à festa política, longamente aprendido e já antigo. O re-candidato já tinha feito um discurso em que invocava a «falta de respeito». Em que país europeu democratizado poderia um candidato presidencial invocar o conceito da falta de respeito como coisa pertinente?

Isto não vai a lado nenhum, e drama pessoal vai tentar esquecer Portugal.

[Ao menos hoje surgiu na conversa informativa a clamorosa situação contributiva dos independentes, os dos recibos verdes, trabalhadores individuais que estão a ser taxados como se fossem empresas; proporcionalmente, mais do que as empresas, num saque que afecta tantos do teatro, gente mais cara e chegada a este blogue; «é assim que estão feitas as regras», respondem os funcionários da Segurança Social, com um gosto pela redundância burocrática que nunca acabou com o anúncio da democracia, vai para quarenta anos.]

 

Um tornado tão pequeno

 

 

 

Na Costa do Marfim, hoje.

 

Onze deram a vida por um resultado eleitoral. Por cá, o (bom) costume. Continua a ser necessário entender as regras do futebol para entender as metáforas políticas: cartão amarelo, fora de jogo, jogar à defesa. Parece que houve um tornado horrível. Mas não há portugueses entre as vítimas.

 

fonte: El País (recorte fotográfico deste blogue)

 

Vozes do trabalho

 

 

Temos falado pouco. Os tempos não estão para vozearia (um daqueles termos que um parlamentar descobre e depois são zurrados até se gastarem).
Passada a greve geral, sob a sombra de uma «utilidade» questionada (como se os direitos constitucionais da greve, da liberdade de expressão e de manifestação tivessem de justificar alguma mais-valia), a discussão paupérrima ficou-se pela aritmética disfarçada de estatística, e outras facilidades.

Dizem os ingleses que há duas maneiras de mentir em política: mentindo, ou recorrendo à estatística. A banalidade da estatística no nosso meio passou as fronteiras do hilário.
Na semana passada, um deputado socialista comparava a carga fiscal, e, como que por inferência, a política fiscal e orçamental dos países nórdicos com a nossa, tirando a divertidíssima conclusão de que seriam «idênticas».

A facilidade mais recorrente é a de que é preciso «trabalhar mais». A ministra do trabalho e o líder da oposição gostam dessa tecla, como se o factor trabalho determinasse a produtividade, e não fosse o factor valor muito mais importante nesse cálculo – assim confirmará qualquer caloiro de economia e gestão.

Por mais que nos estafemos a fazer chinelos ou lençóis, nunca teremos a produtividade de quem faz circuitos impressos.

As opções quanto ao valor a produzir cabem aos empresários, gestores e planeadores empresariais e políticos, muitos dos quais aparecem agora a caluniar a massa dos que executam, tendo falhado todos estes anos (falhado é como quem diz… apenas do ponto de vista do ganho comum).

E depois há os que nem sequer passam por ser trabalhadores, e na hora de se exprimirem – e é da expressão que se faz o seu trabalho – se mostram passivos e ignorantes.

Espectáculo no Teatro da Trindade, casa do Inatel, construído a partir de música do trabalho portuguesa que o etnólogo corso Michel Giacometti dedicou anos da vida a recolher, e a quem o Estado Português nunca soube merecer enquanto vivo.
Uma Agenda Cultural da têvê lembra-se de interrogar os actores que encarnam a gente da labuta sobre a greve do dia 24. Duas veteranas da nossa cena abrem a boca.

Uma diz que «o Ministério da Cultura é o que tem menos dinheiro, pelo menos é o que me dizem» e que é «preciso dar a volta a esta situação». A outra diz que «na situação em que estamos, uma greve, não acho correcto». Ou seja, uma acha que é tudo uma questão de dinheiro ministerial. A outra bate na tecla do trabalho. E esta gente ignorante andou anos a representar dificuldades da vida, conflitos de interesses, pessoais, sociais e políticos. Não aprenderam nada. Merecem menos do que têm.

Na peça jornalística seguinte, uma actriz mais nova de olhos redondos a trabalhar em Almada diz qualquer coisa sobre uma peça de Tennessee Williams. Diz o quê?
«É muito actual…»

 

Dias de sol dos antigos

 

 

Os noticiários televisivos locais repetiram o truque publicitário da Amazon.com, que divulgou ter vendido, pela primeira vez, mais livros digitais que livros de capa dura. Os jornalistas portugueses saltaram imediatamente para a conclusão de que o papel morreu. Lessem mais papel e saberiam a diferença entre hardbacks e paperbacks. A Amazon quer vender Kindles, e os jornalistas, tal como disse Salvador Dalí a um jornalista português, querem ser mais Dalí que Dalí.

 

Temos estado ocupados. Não fomos indiferentes à agitação política que mudará este país, bem expressa nos abaixo-assinados e movimentações contra o pagamento de estradas prontas e acabadas, nunca questionadas, ou nas duas ferozes manifestações contra a transferência de dois padres.
Corremos departamentos da Segurança Social e das Finanças para resolver uma questão com o Estado. Uma semana de lento progresso, enquanto em Israel se discutia o destino dos papéis de Kafka. O recorde de espera foi o do dia 22: 5 horas no balcão do Saldanha da Segurança Social.
Na chamada Secção de Processo, na Praça de Londres, o chamado beneficiário (os independentes não beneficiam de nada) tem de ficar em pé diante de um balcão de um palmo e três dedos de fundo por três palmos de largura para dispor o seu caso em papéis, com um mínimo de dez pessoas em redor a ouvirem a narrativa dos seus erros ou pedidos.
Uma ideia simples, que proporciona fluidez no atendimento.

 


As pressões do absurdo burocrático que assola os trabalhadores independentes das artes fomos aliviá-las no último piso do centro comercial Acqua, na Avenida de Roma, cuja zona de restauração está rodeada por fotografias da avenida, dos tempos em que o sol mandava e os carros obedeciam.

 

Em cartaz, já sob a sombra de A Sede do Mal, o filme Nathalie [Agente Secreta], de Henri Decoin, 1959, com Martine Carol, a quem só Brigitte Bardot veio ocultar.

 

[fotos em exibição na zona dos restaurantes e na página online do centro]

 

Quem Nos Salva da Lama

 

 

No mesmo dia em que na Alemanha e na Europa livre era notícia o facto de o antigo arcebispo de Munique Ratzinger ter sido silenciosamente conivente com a transferência de um capelão abusador sexual de crianças para outro posto, onde continuou os abusos, num processo de duplo encobrimento que durou anos, no portugal-canal-tv era notícia o evento de uma mulherzinha aprisionada pelas lamas ter sido, aparentemente, de acordo com a sua modesta perspectiva de sujeito demasiado próximo dos factos, «salva pela virgem». Este relato afrontoso para o esforço dos bombeiros, INEM, exército e polícia da colónia portuguesa da Madeira, que poderiam, no caso, ter desviado os seus cuidados para quem mais precisava, havia de ter sido completado, noticiosamente, com outros enigmas actuais do catolicismo. De um lado uma virgem que salva das lamas, do outro o arcebispo de Viena, que alerta para a necessidade de um «inquérito implacável» à relação incómoda entre o celibato e a ocorrência sistemática de abuso sexual de crianças nos espaços tutelados pelos funcionários do Jesus romano. Fantasia ou realidade? Evangelismo pop ou jornalismo? Como dizia o Carlos Cruz da rádio a abrir o programa «Pão com Manteiga», é conforme os ouvintes: «Das 11 à 13… ou das 13 às 11, para os que vierem em sentido contrário».

 

Mistério por mistério, deu-nos saudade da pergunta de uma adolescente sexualmente activa na sua aula de poesia portuguesa: «Stôr, o que é uma virgem?»

 

 

Precisamos cá de gente

 

 

O jornal Público deu voz à indignação dos que querem vir todos os dias de carro para o centro de Lisboa, na ocasião do anúncio pela empresa municipal de estacionamento de que irá arrancar, ao fim de décadas, uma amostra de ordenamento e restrição do volume de trânsito no centro. As opiniões, como é costume entre nós, engarrafam todas no mesmo sentido. Em sentido contrário, e de temperamento perfeitamente estacionado, agradou-nos a opinião de Ramiro, de Tibaldinho, Mangualde:

 

pagar

 

É pagar e acho muito bem. Se querem trabalhar na capital com salários melhores já têm condições para isso. Se não quiserem pagar venham para a minha aldeia, tem lugares com fartura, à sombra, e precisamos cá de gente.