De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

Fizemos uma pequena limpeza, sim

 

 

Fizemos uma pequena limpeza, sim. Desde o início, decidimos que, ao contrário da normal postura bloguística, nunca escolheríamos o caminho mais curto. A todos a quem molestou a queda nos estertores (e torpores) quotidianos, o nosso pedido de desculpas. A nós próprios, para começar.

«Não existe pior desperdício do espírito e do coração do que procurar convencer adversários que não se preocupam absolutamente nada em estar de acordo consigo próprios.»

Arthur Schnitzler

 

Andas na boa-vai-ela («Canção torta»)

 

 

Canção torta

 

 

Andas na boa-vai-ela
Dentadura amarela
Constantemente a raiar

Andas na boa-vai-ela
Foste nado em Portugal
E nem tudo está mal

Andas na boa-vai-ela
Dentadura amarela
Constantemente a raiar

E vais na boa-vai-ela
Prò buraco infernal
E é outra vez Portugal

 

 

poema de Fernando Boas

As Massas Construídas

 

 

Teimosamente, continuámos a investigar as fotos da Avenida de Roma passada. A variedade não nos ocupa neste momento.

Tanto os doutores planeadores e empreendedores como os modestos plantadores de prédios acima, todos são anónimos hoje numa fotografia. Moveram massas de terra e ergueram massas de betão que mal nos ocupam a memória imediata.

 

 

Estamos habituados, não precisamos de notar ou sentir o percurso dos prédios no tempo, mais lento que o nosso, mais duradouro. Mas eis a delicada silhueta feminina na varanda, perto do alto poste de madeira provisório. Talvez dure um pouco mais que as massas construídas.

 


 

Gravado a lápis para sempre

 

 

Na semana passada, um amigo achou um escrito de António da Silva Teixeira Electricidade que esta noite faz dezanove anos. Um feito notável, para um escrito a lápis numa parede de um prédio igualmente parado no tempo, na Rua Rodrigues Sampaio. O tema é denso, talvez captado na imprensa internacional à mostra pelas ruas, ou captado, simplesmente. São modestas, as nossas alegrias.

 

Com grandes dúvidas

 

 

Este blogue tem pouco para oferecer, num tempo em que um grupo desordenado de jogadores de futebol se presta a «reconquistar África» (sic) e um festival de música pop com um ano de publicidade grátis e playback ao vivo tem «ofertas para todos os gostos» (sic).
Entretanto, na loja de animais, um gato preto que ninguém quer adoptar, o último da sua ninhada, cedeu à tristeza com a ida do irmão que lhe restava; o esquilo da gaiola ao lado despertou-o da inércia, e agora dormem juntos. Quem finalmente adoptar o gato salva-lhe a vida e destrói uma amizade.

 

«Estou com grandes dúvidas em relação ao médio prazo.»
«Não te preocupes. O que vai acabar contigo é o longo prazo», respondeu o Zé.

 

Alguém tem de ser responsabilizado

 

 

Enquanto estivemos fora, o país mudou. Ontem mesmo, um casal e dois menores tiveram de ser realojados por causa de enxurradas. Parece que uma mulher também ficou ligeiramente ferida num choque em cadeia. Em Guimarães, uma pequena parte do tecto de um café ruiu, confirmando os piores receios de pelo menos um dos empregados. O rio Tua transbordou e cobriu um cais. Os patos tinham-no pressentido. Uma árvore de grande porte caiu em cima de uma casa, destruindo completamente um automóvel. No local, todos concordaram que alguém tem de ser responsabilizado.