Ser-se Natural

 

«O ser-se natural é simplesmente uma pose, e uma das poses mais irritantes que conheço».

A entrada anterior poderia ter sido substituída por esta, do manuscrito de «Frases e Filosofias», que Oscar Wilde tanto apreciou que ofereceu ao seu Lorde Henry, de O Retrato de Dorian Gray. Curioso é como um princípio que opõe a verosimilhança cénica à «naturalidade» apareça sob a forma de uma regra de postura no convívio social, num fingimento que transforma a etiqueta na arte cénica por excelência, e, por implicação, todo o «realismo» numa falta de regra, ou quando muito, numa insolência simples. O que Wilde sabia bem, e alguns da cena fingem que não sabem, é que a representação dramática se move sempre, quer se queira quer não, num palco social mais-que-verdadeiro, sejam quais forem os efeitos oferecidos ao estimável público: a naturalidade é um preceito estético da classe-média, tanto quanto o teatro urbano português é uma arte de classe-média, e mais do que nunca quando não se toma como tal. E, já agora, nada há mais classe-média do que a ansiedade de verificar e medir a relação da arte com o dinheiro público. Nada mais propenso à imaterialidade e à fraude do que a mais-valia artística. Enfim, a classe-média, por definição, lida mal com imaterialidades: financeiras, estéticas, morais.

 

Oscar-Wilde-being-natural

 

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Entre pintor e poetas (& uma fotografia recente)

 

beauty «Não há nada que seja feio. Nunca vi nada que fosse feio em toda a minha vida, pois seja qual for a forma de uma coisa, a luz, a sombra e a perspectiva poderão sempre torná-la bela.»

John Constable

«Não há nada que seja tão belo que, sob certas condições, não se torne feio.»

Oscar Wilde

«És a mulher mais linda que eu já vi na minha vida, o que não te favorece grande coisa.»

Groucho Marx

 

 

A Contracena

 

 

As duas contribuições na entrada anterior completaram-na tão redondamente que nos deixaram em silêncio.

Duas pessoas que conhecemos do irreal quotidiano e da cena reagiram à evocação que o pintor hiper-realista Richard Estes fez da profissão do actor, falando do que será comum às duas artes, em planeamento, em controlo artístico, em execução técnica.

Estamos todos com Oscar Wilde, se negamos uma visão sentimental da expressão artística como maná criativo de um ego mediúnico (ou mediático, num certo presente) e espontâneo. Sim, com bons sentimentos não se faz senão má poesia. O pintor Richard Estes pôs o seu acento no trabalho de repetição do actor, para comparar as faces conscientes dos esforços cénico e pictórico.

Mas uma das duas reacções imediatas ao pequeno texto do pintor que pusemos neste blogue levantou a enorme lebre da contracena. Que rigor pode haver na contracena? Que controlo? Que plano? Que medida? No panorama de uma cena construída, que canais cria esta ou aquela contracena, mais ou menos sensíveis, de dentro e para fora?

A contracena é a maior interrogação do teatro. A maior das peças é um estudo da contracena: Hamlet.

Pensar a contracena empurra-nos para o nevoeiro de energia e dúvida daquela peça. O dilema de Hamlet é o do actor, se o virmos repartido entre dois fossos, o da introspecção e o da expressão. O Fantasma, a voz que instrui, é verdadeira ou falsa? É verdadeira e falsa.

Nós aqui nem conseguimos – epígonos ainda mais ansiosos de Hamlet – chegar a pensar a contracena. “Pensar” é logo o nosso problema. Isto é: até que ponto será produtivo pensar o teatro, se é óbvio que pensar no teatro é sempre um problema?

 

 

David Mamet (preferimos o pensador da cena ao autor, porque pende melhor para o primeiro fosso), mexeu neste lodo do pensamento e da cena com o pragmatismo da sua escola. No capítulo “Find Your Mark/Encontra a Tua Marca” (eis mais um pequeno eco do sarilho hamletiano) do livro True and False, tenta ser o mais categórico possível:

 

Por mais que nós, gente do teatro, gostemos de nos ver como intelectuais, não o somos. A nossa profissão não é uma profissão intelectual. O saber literário inteiro do mundo, as «ideias» todas, não vão capacitar ninguém a fazer Hedda Gabler, e toda a conversa sobre o «arco da personagem» e «baseei a minha personagem nisto…» é tudo babugem. Não há nenhum arco da personagem; e é tão inútil basear uma personagem numa ideia como é basear uma relação amorosa numa ideia. Essas frases não passam de talismãs do actor, que lhe permitem, a ele ou a ela, espantar o mal, e o mal que tentam espantar é o terrível imprevisto.

Essas frases e rituais mágicos são esconjuros para diminuir o terror de sair à frente de corpo nu. Mas é assim que o actor sai à frente, queira ou não queira.

 

O terrível imprevisto é o chão da contracena.

Pensar o terrível imprevisto é uma actividade condenada à contradição. O livro de Mamet nega ali a sua própria razão de ser, e ao mesmo tempo é certo que um livro sobre o teatro assim faça. O pensamento do teatro é um desertor do palco, e tem de viver com essa condição. Mas, queira Mamet ou não, tem de viver.

Tem de viver, por exemplo, para que um workshop sobre Hamlet suba acima de algumas inquietações caseiras, como aquela a que um amigo assistiu no ano passado: «Se o meu tio matasse o meu pai e casasse com a minha mãe, eu também ficava chateado. Não é?»

Não. Não é. Para chegares à «chatice» de Hamlet precisas de mais que da tua mãe.

 

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Pintura de James Ensor. Dois quadros de 1891:

“Esqueletos disputando um arenque fumado”
“Esqueletos disputando um enforcado”

 

O Matar do Tempo (Dois diários da guerra)

 

“Há muito a dizer em favor do jornalismo moderno. Ao trazer-nos as opiniões dos deseducados, mantém-nos em contacto com a ignorância da comunidade” Oscar Wilde

 

Espreitei um canal noticioso local para ver que horas eram, ao canto do ecrã. Mau hábito. A apresentadora anunciava a publicação de uma antologia de versos sobre a Guerra de África dum autor conhecido.

O que leva a televisão a escolher sempre o mesmo barítono para ditar a canção do combate em África não é de interesse. A redundância, em televisão, não é uma questão de conteúdo. É uma questão de género.

Há um poeta do costume pela mesma razão que há um astrólogo do costume, ou temas do costume, conforme a época do ano (vendidos metodicamente como se vende espaço de prateleira nos hipermercados). Não se peça a um jornalista que faça juízos estéticos, quando não faz outros mais urgentes.

Os melhores textos dedicados à guerra não interessam à conversa rápida. Não cabe a um texto dedicado à guerra harmonizar a experiência intratável, a não ser que o faça num registo altíssimo. E o registo altíssimo não é o da tv e de quem a segue. Não chegam umas rimas de baloiço.

Um dos grandes textos dedicados à guerra é de um jornalista, de uma geração de jornalistas que não confundia sob e sobre: Fernando Assis Pacheco. Por causa da censura, Catalabanza, Quilolo e Volta, editado em 1976, teve uma primeira versão em 1972, a fingir que era um livro sobre o Vietnam. Câu Kiên: um Resumo – chamou-se, com título de reportagem e com nomes de lugares orientais, para tapar. (Ou para mostrar ainda mais).

 

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“Mutter Ridge”, de Larry Burrows (morto em serviço)

Neste livro não há cantigas. Ouvimos um soldado a falar como aos seus, com uma raiva descrente, um medo sem tempo para se cuidar.

Na Quijinga apeia-te do carro.
Não fumes. Olho vivo na estrada!
[…]
Não fales. São palavras inúteis.
Deixaste um copo a meio, voltarás
para bebê-lo de uma vez (com gana).
[…]

[“Conselhos Para a Quijinga”]

O único sítio de paz foi cavado anteontem. Entra-se por um lado, caga-se e sai-se pelo outro.

[“Por Estes Matos”]

[…]
Os meus olhos já foram brilhantes.
Sei fazer alguns versos mas nem sempre.
[…]
Durante os ataques doía-me um joelho.
Estou pronto, pensei.
Ninguém me conhece.
Os ratos são felizes.

[“O Garrote”]

Umas Cobras

Vindima, areia no rio?
Não me escrevam.

Deito-me com cobras.
Enrolam-se. Eu masmorro-me.
Deixem as cartas para outra altura.

Escrevam: nada.
Responderei coiso: nada.
Elas mostram a língua.
Vêm muito devagar,
caem nos rios
com um baque inesperado.
Mijou-se. Era eu.

Escrevam postais
apenas: sim, bem,
Julho.

Vou defender-me.

O ritmo de “Os cães” não é de balada. É cardíaco, melhor, craniano. Entre cães e homens, quem é quem? Uma das coisas que mais moeu o espírito dos combatentes, conforme o escreveram, foi o abandono, a monotonia da espera pela missão, ou a espera indefinida. O meu pai tem fotografias de “orquestras de ratos”, grandes formações em leque de ratos mortos, em cima de um oleado. O rato maior era o maestro. E, depois, as várias classes de artistas, por peso e tamanho. Era o matar do tempo. Os cães cercavam. Assistiam.

Os Cães

Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.

A penúltima secção do livro diz respeito ao tempo de retiro do mato. Chama-se “Luanda”. Ode ao medicamento da paz. Louvor do repouso químico. Há um último poema dedicado à Lisboa do regresso.

Ode ao Librium Dez

Embora química a tua
é realmente uma paz
para duas longas horas,
paz sentada, na varanda,
folheando jornais,
lendo só os títulos
(o novo papa recebe),

uma paz assim fresca,
sem grandes gestos
escusados, diria
uma paz no duche,
ou depois à mesa
comendo a sopa leve,
o bife grelhado
com pouco sal,

paz da papaia doce,
gotas de limão,
paz de um copo de água,
uma brisa ténue,
arrepiando quase nada
os pêlos das pernas,
[…]

Outro dos dois textos que vão aqui escolhidos foi comprado na feira de livros com desconto, na Estação do Oriente. Custou três euros. Vai cem vezes mais longe na história e no enigma que os romances pseudohistóricos e pseudoenigmáticos do tamanho de caixas de sapatos que se vendem aí aos milhares.

Diário do Tempo de Guerra (1966-1970), de A. do Carmo Reis, é um diário ilustrado da experiência angolana do autor, para além de um testemunho da crise académica de 1969. Edição do Museu da Guerra Colonial. Com um estilo directo, mas sempre recordado da literatura de sempre que lhe possa trazer alguma luz, o oficial narrador é capaz de olhar para a História e para o quotidiano das tolices de passatempo, dos medos, das interrogações íntimas, do absurdo, dos comes e bebes, das rotinas militares, com a mesma estranha conta de aproximação e de calma distante.

Numa literatura cheia de fugas sentimentais ou rebuscamentos fúteis, este livro traz a sua lição. Nem tudo é fácil de tragar, para quem foi educado numa retórica politicamente mais correcta, mas tudo é pão-pão (não havia queijo). Hoje seria um blogue de guerra. O militar dá testemunho de uma Angola ainda com fortes laços com as hierarquias antigas (e com uma arte tribal ainda viva, que, segundo muitos coleccionadores especialistas internacionais, a brutal guerra civil extinguiu para sempre). Só algumas entradas, mais ou menos salteadas:

Catxinga, 7 de Março de 1968.
Veio aqui um pequeno pedir-me de comer. O pobre do miúdo só tem ossos e pele encurrilhada. Vamos lá a ver se o rapazito recupera, na companhia dos faxinas gordinhos e roliços que sorriem com dentinhos de prata.
As chuvas encalham os unimogs na picada lamacenta, o correio atrasa-se e o reabastecimento não chega. A malta irrita-se mas aguenta. São já quinze dias de lerpa! Parece que, em Abril, vamos ser beneficiados com a carreira de um táxi aéreo.

Catxinga, 4 de Abril de 1968.
Os soldados preferem correio a comida.
Isto hoje foi o fim do mundo! Imagine-se que veio um avião de Luremo e se esqueceu de trazer a correspondência!
Logo que chegam as cartas, o furriel do dia forma o pelotão para entregar notícias. São momentos de ansiedade que se estampam no rosto dos soldados. Quem recebe, fica satisfeito e extravasa contentamento. Quem lerpa, fica triste e, por vezes, não resiste a um gesto de desespero ou deixa escapar uma imprecação furtiva.

Catxinga, 28 de Abril de 1968.
O soba Muximo veio acusar um soldado da milícia de lhe ter roubado a mulher que levou consigo para a Marimba, do outro lado do Cuango. Queria que o raptor lhe pagasse o alambamento, ou seja, o preço da mulher: 10 cabras e 1.200$00. Escrevi então ao meu camarada da zona para que resolvesse esta maca.
Foi este soba que me ofereceu uma cara com coroa de rei. Quando lhe inquiri o significado da escultura ele me explicou que representava os antigos soberanos da tribo anteriores à ocupação portuguesa.

Catxinga, 17 de Maio de 1968.
Nesta vida de guerra há o respeito pela hierarquia. Um soldado bem penteado, barbeado e tímido é maçarico. Com três meses de mato, sobe a ultramarino. Ao fim de seis meses, já habituado à guerrilha, é ultramaroto. Com nove meses de África, é promovido a ultramalandro. Terminado um ano, maduro e desiludido, é um mestre pistoleiro, é um velhinho.
Há três meses precisamente que batemos aqui com as costas.

Catxinga, 23 de Maio de 1968.
Vesti a pele de justiceiro.
Um indígena ameaçou um soldado, de catana em punho. Mandei que prendessem o prevaricador e, depois de reunir os homens da sanzala e de lhes explicar o delito, apliquei-lhe uma carga de porrada.

Catxinga, 30 de Maio de 1968.
Chegam ecos de Paris! É a contestação da Universidade velha. É a revolta contra a ordem estabelecida. É o sonho a voar com as asas da Liberdade.

Catxinga, 3 de Junho de 1968.
Encontrei-me com a rainha de Makengue, uma velha de porte direito e fala serena. Traz ao pescoço uma argola de cobre, símbolo de realeza.

Catxinga, 5 de Junho de 1968.
Temos já um balanço negativo do cacimbo. Na verdade, dois soldados deram em chalupas e lá foram para o hospital dos malucos! Um deles peregrinou pela parada, de joelhos, a rezar o terço. Depois, agarrou numa bacia, borrifou o capitão com água fresca e traçou-lhe a sina: haveria de ser padre e ter muitos filhos!

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Larry Burrows

Catxinga, 12 de Junho de 1968.
Há pouco, um furriel batia com as mãos na cabeça como se fosse um macaco e dizia desesperado: “Eu qualquer dia mato-me, eu morro, eu já não sei o que digo”.
É o cacimbo.

Catxinga, 7 de Setembro de 1968.
Tiroteio em Catxinga City! 10 minutos debaixo de fogo!
Acordei com o matraquear das metralhadoras. As balas sibilavam no chão da parada e o estrépito do morteiro ribombou com o estrondo das granadas caídas na encosta do morro. Eram duas da manhã. Quando a cadência do tiro intervalava, a caminho do fim, ouvia-se ainda cantar a Breda, e a boa disposição dos nossos soldados decorava uma pesada atmosfera de pólvora com insultos escabrosos e maldições ao turra.
Ao romper d’alva, a frente Norte do acampamento estava coberta de cápsulas e alguns panfletos convidavam os sobas da sanzala a fugir para o Congo. Reparei então que uma bala abrira um buraco a um palmo onde inclinara a minha cabeça! Estou vivo!

Catxinga, 15 de Setembro de 1968.
O Leão chegou à sanzala. A P.I.D.E. esteve cá!
Os sobas foram presos. Dizem-me que, durante a viagem de regresso, a P.I.D.E. matou alguns e lançou-os ao rio para pasto dos vorazes jacarés.
Uma coisa é certa: se os sobas estivessem do nosso lado, este ataque seria impossível. Diz Mao Tsé-Tung: “A guerrilha quando tem as populações a favor é como o peixe na água”.
As mensagens do Mussuco e Catxinga passarão a ser transmitidas em cripto.

Catxinga, 14 de Dezembro de 1968.
Acabo de fazer uma patrulha ao Tunguila. De regresso, acampei na sanzala do Muginga. Entre as meninas que brincavam no largo havia uma pretinha muito engraçada de olhos grandes e vivos. Perguntei-lhe quem era. Ela disse-me que era filha do soba de Muginga (que fora preso pela P.I.D.E. e morrera de bala). Voltei a perguntar onde se encontrava o seu pai e a pequenita começou a chorar aquelas lágrimas de inocência que não têm culpa de os homens serem maus a ponto de lhe matarem o pai. Dei-lhe uns doces de fruta e ela fugiu para dentro da palhota misturando um sorriso de gratidão com a amargura da sua orfandade.

Catxinga, 27 de Janeiro de 1969.
Um ano de comissão! Mandei tocar o clarim a formar, fiz uma breve alocução às tropas em parada. Em resumo, frisei que não me dessem cabo do juízo. Por aqui continuaremos encurralados, suportando a nossa cruz. Vou prosseguir a leitura do Toynbee.

Catxinga, 15 de Fevereiro de 1969.
O Lopes, algarvio castiço, apostou comigo. Teimava que eu não furaria um rolo de papel higiénico a 100 metros. Primeiro, porque eu não acertava e, segundo, que uma bala de G3 não vara o papel higiénico. Chamei testemunhas, apontei a arma, disparei e o Lopes perdeu uma cerveja.

Catxinga, 19 de Fevereiro de 1969.
Tenho aqui um furriel que, se não faz mais nada, pisca os olhos e sacode os ombros. Um soldado que passe, se lhe faz uma pergunta, responde logo: “Aguenta os cavalos, que eu vou chamar os índios”. Outro, por tudo e por nada, sai-se com esta: “É à Lisboa. É à Lisboa”. Enfim, o cacimbo

Catxinga, 10 de Abril de 1969.
No Mussuco, um valentão puxou de faca para um camarada. Isto promete…

Catxinga, 4 de Janeiro de 1970.
O cabo Pedro, lisboeta castiço, um destes mosqueteiros que enobrecem a genealogia de quantos aprendem a arte de Júlio César, veio apresentar-me um poeta que reza assim:

Maçarico!
Se puderes resistir à solidão que te rodeia
Sem ficares meio maluco;
Se puderes aguentar as patrulhas a pé
Sem no regresso ficares cinco dias de cama;
Se suportares o arroz, a massa e o feijão
Sem ficares com uma úlcera no estômago;
Se tiveres calma para escutar os teus superiores
Sem sentires vontade de fazer o contrário do que te estão a dizer;
Se conseguires passar pela Missão
Sem sequer olhar para a Elisa;
Se passares os vinte e quatro meses
Sem ouvires uma única vez a “Hora do Soldado”;
Se saltares o arame que rodeia o destacamento
Sem o alferes dar por isso;
Se em todo o tempo que estiveres no mato
Não pedires um isqueiro ao Movimento Nacional Feminino;
Se conseguires roubar um cabrito
E convidar o próprio dono para o ajudar a comer;
Se fores capaz de ver o bife que te dão ao domingo
Sem necessitares de usar óculos;
Se chegares ao fim da comissão
Sem o comandante de destacamento descobrir que lhe roubaste três frangos;
Se fores capaz, ao longo da tua comissão
De fazer tudo isto,
Então, sim,
És um verdadeiro velhinho!

A de roubar o cabrito foi partida que fizeram ao Rovisco, alentejano e bom rapaz. A dos frangos foi comigo… Já me quiseram dizer quem foi o autor do crime, mas prefiro não saber.

Catxinga, 8 de Fevereiro de 1970.
Os maçaricos estão a chegar! Prepara-se uma recepção solene. No tronco de uma árvore, uma tábua escrita reza assim: «Maçarico, se você demorasse mais uma hora, todos os velhinhos se enforcariam!» Na barraca da enfermagem: «Matadouro Municipal». Na casa do comerciante: «Caixa Geral de Depósitos». Na messe dos furriéis, está pendurado um boneco promovido a deus da guerra – O «Xalavadunga».

Luanda, 20 de Março de 1970.
Dois soldados pegaram-se à bulha. Um deles era açoreano. Já escorria sangue no ardor raivoso da refrega quando o ilhéu consegue atirar o adversário ao chão. O miserável vencido fica à mercê do terrível gladiador. Naquele instante, passa por ali um gato e o castigador vitorioso mata-o à cacetada.
Logo se volta para o desgraçado a seus pés e remata assim: «Isto é para não te matar a ti!»

Gelados e Sabão

 

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O segundo maior fabricante mundial de sabões também é um dos maiores fabricantes de gelados. Lançou uma campanha com uma actriz de tv daquelas que também servem para isco. A frase publicitária portuguesa é qualquer coisa como: «Tenho gostos simples, contento-me com o melhor», um dito roubado a Oscar Wilde. No Reino Unido, as frases publicitárias apropriadas levam em letra pequena o nome do autor. A primeira imagem aqui é da campanha italiana. Sempre a Carne, sempre a Gula, sempre a Tentação. Desta vez, por cá, decidiram-se pelo hedonismo mais directo. Mas a abordagem bíblica podia não ser vulgar. Uma proposta Drama Pessoal:

 

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