Azuis e Verdes Molhados

 

 

Reuniram em Guimarães, lugar desta foto, tirada meses mais tarde (há três dias). Alertaram com horror contra a divulgação nas escolas da entidade que designam por «sexo sem afectos», o que nos parece fazer alusão a uma forma de aproximação que custosamente muitos de nós temos tentado apurar, nem sempre com contentamento das partes, mas com os seus altos momentos de gratificação não susceptíveis de partilha verbal, muito menos social (curiosa, a conotação ascensional do adjectivo «altos»). Todavia, os que reclamam nunca fazem uma lista minimamente detalhada desses tais afectos que favoreceriam e sublimariam o contacto genital, que nem sequer os preocupará para toda a eternidade. Esse exercício, se bem que bastante interessante, parece-nos complexo, algo arriscado, mesmo para a imaginação livre, a qual, seja como for, não cultivam. Reclamam a sempiternidade do magistério católico, um fenómeno do século XIX, afinal.
Segundo Diarmaid MacCulloch, como já foi muito visto, a cristandade cauciona a posição social do macho heterossexual no quadro social ainda em vigor, assegurando-lhe as posições de liderança incontestada e respectiva escala hierárquica à imagem da Igreja. Parece que a ansiedade renovada deste tipo de conservadorismo cristão e «familiar» mais agressivo tem afinal raiz numa deslocação tectónica de toda a paisagem dos papéis sexuais.
Uma deslocação pouco sensível numa cidade de azuis e verdes molhados aprazivelmente limpa e semi-morta como Guimarães.

 

Anúncios

Quem Nos Salva da Lama

 

 

No mesmo dia em que na Alemanha e na Europa livre era notícia o facto de o antigo arcebispo de Munique Ratzinger ter sido silenciosamente conivente com a transferência de um capelão abusador sexual de crianças para outro posto, onde continuou os abusos, num processo de duplo encobrimento que durou anos, no portugal-canal-tv era notícia o evento de uma mulherzinha aprisionada pelas lamas ter sido, aparentemente, de acordo com a sua modesta perspectiva de sujeito demasiado próximo dos factos, «salva pela virgem». Este relato afrontoso para o esforço dos bombeiros, INEM, exército e polícia da colónia portuguesa da Madeira, que poderiam, no caso, ter desviado os seus cuidados para quem mais precisava, havia de ter sido completado, noticiosamente, com outros enigmas actuais do catolicismo. De um lado uma virgem que salva das lamas, do outro o arcebispo de Viena, que alerta para a necessidade de um «inquérito implacável» à relação incómoda entre o celibato e a ocorrência sistemática de abuso sexual de crianças nos espaços tutelados pelos funcionários do Jesus romano. Fantasia ou realidade? Evangelismo pop ou jornalismo? Como dizia o Carlos Cruz da rádio a abrir o programa «Pão com Manteiga», é conforme os ouvintes: «Das 11 à 13… ou das 13 às 11, para os que vierem em sentido contrário».

 

Mistério por mistério, deu-nos saudade da pergunta de uma adolescente sexualmente activa na sua aula de poesia portuguesa: «Stôr, o que é uma virgem?»