O burro come jornais


«Os deputados governamentais acercaram-se dele, convidando-o em termos delicados a aceitar, no banquete do progresso, o lugar que a sua inteligência reclamava. Os deputados oposicionistas conjuravam-no a não levantar a mão de sobre os projectos depredadores com que a facção governamental andava cavando novas voragens ao país.»

Camilo Castelo Branco, A Queda de Um Anjo, 1866.

George Grosz
The Eclipse of the Sun, 1926
The Heckscher Museum of Art, Huntingdon, New York © Estate of George Grosz

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Postal de Lisboa (2)

 

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A cor radiante da placa de número prendeu-nos a atenção. Mas um mero toque de filtro digital podia ter feito aquele borrão de vermelho. Sempre foi possível retocar fotografias, em laboratório ou em acção. Mas a dúvida e as ferramentas banalizaram-se. Neste caso, ainda assim, quem anda por Lisboa em Agosto não duvidará da relativa legitimidade dos tons. Continua a ser possível manter algum optimismo criativo em relação à fotografia a cores. Como diz David Hockney, finalmente a fotografia vem ter com a pintura. Com o computador, diz, as mãos entram no retrato.

 

foto dramapessoal (não-tratada; em modo de imitação de cromatografia)

Estranhamente, é perfeitamente aceitável para qualquer taxista, qualquer empregado de mesa

 

 

Este vídeo é falso, não liga. O de baixo também é totalmente falso.

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Entrevista completa, no jornal Guardian

 

[texto do Guardian] Gilbert e George nunca casaram, preferindo, dizem, «viver em pecado». «Queremos ser esquisitos normais», diz George. «Não queremos estar informados, como toda a gente está, porque nesse caso não teríamos nada para dizer». A orientação política de George parece brotar do mesmo impulso: «Eu não sou nada, mas o George é Conservador», diz Gilbert. «Estranhamente, isso é perfeitamente aceitável para qualquer taxista, qualquer empregado de mesa, mas não no mundo da arte», diz George. «Para eles, a esquerda é bom. E a arte é esquerda». Gilbert acrescenta: «Eles acreditam na igualdade. Nós não. Nós queremos ser diferentes».

 

 

[Estranhamente para qualquer taxista, a foto do artigo foi trocada, de uma que mostrava os artistas a fazerem o icónico boca-a-boca-dos-dedos para outra com ambos perfilados, no icónico duelo de gravatas e fatos, até ser substituída pelo vídeo com que fizemos este jogo gráfico rudimentar.]

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O Natal dos Hotéis

[revisto]

 

Artigo 1.º

Definição de jornalista

1 – São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.

2 – Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.

[…]

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—————————

Natal é tempo de televisão, e o meio quase monopolista de recreio artístico e informação entre nós enche-se de mais luz nesta quadra. Porém, o modo estrondoso como a tv cedeu completamente a quem a financia não é notícia, pela mesma razão por que o aspirador não se aspira a si próprio.

O modo paupérrimo como a tv local reflecte a arte e o espectáculo, mesmo o cinema – servindo valores de popularidade gerados pela própria programação televisiva, com seus critérios de fama e estrelato directamente equivalentes a critérios da análise de mercado (o canal público já começou a usar o termo “audiência” como sinónimo de “público”, quando fala de espectáculos ao vivo) – já nem sequer serve a presunção de base da tv de que é capaz de reflectir qualquer recanto da vida pública.

Com que se espanta o pobre? Das quatro pinturas que foram roubadas na Suíça, em Fevereiro, na Fundação E. G. Bührle, tudo o que os apresentadores noticiosos locais foram capazes de dizer para impressionar o vulgo (e a si próprios) em relação ao roubo foi o valor estimado (o valor monetário segurado) de duas das telas perdidas. Monet, Van Gogh, Degas e Cézanne não impressionam. Os irrelevantes (e meramente formais) milhões do capital seguro, esses espantam e exprimem valor. A quase imediata recuperação de “Campo de Papoilas em Vétheuil“, de Monet, e de “Ramos de Castanheiro em Flor“, de Van Gogh, bem como o continuado desaparecimento de “Ludovic Lepic com as Suas Filhas” e “O Rapaz do Colete Encarnado“, de Degas e Cézanne, respectivamente, já nem sequer tiveram seguimento, ao menos no momento da primeira recuperação.

Nada vos preocupa, porque nada vos comove.

Supõe-se que a esta desatenção pela grande dimensão artística se deverá a um critério relativo de prioridade noticiosa: é preciso mostrar as urgências do presente.

Mas tal proporção nunca existe. Os relances cinematográficos da violência ou instantâneos do palco político mundial recebem o mesmo tratamento das notícias da aldeia: mais uma camioneta fora da estrada, uma junta de freguesia indignada, um mau cheiro na praça, um ministro agastado, um esquilo que dança. Um parágrafo para cada. (Dois para o esquilo).

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Resta o enorme tempo concedido a uma actividade altamente duvidosa à luz da ética profissional do jornalista, a chamada “informação comercial”, que dantes, quando os jornais contavam, era claramente demarcada, tanto que as revistas ainda a demarcam – não a televisão.

Então, temos profissionais com carteira de jornalista, e com o entusiasmo de uma infância reencontrada, a mostrarem um estúpido dispositivo para um jogo de pesca virtual lá em casa, ou a “avaliarem” um carro repetindo à letra a lengalenga acariciadora dos folhetos do fabricante (e percorrendo as mesmas estradas vazias escolhidas pelos anúncios do produto, por onde o produto nunca circulará).

Para que falarão do melhor das artes, estes servidores da sua empresa de fornecimento de exposição televisiva, e defensores acérrimos do seu posto de trabalho? Qual seria o retorno para a empresa, se buscassem o que já nem pessoalmente lhes interessa? (Estamos a supor, exageradamente, que os repórteres debatem critérios de edição).

O jornalismo faz-se agora de acordo com um critério totalmente invertido, o mesmo critério do entretenimento de massas e da publicidade pura e dura: é notícia aquilo que a redacção fornecedora supõe que serve o desejo de consumo (não de “informação”, rarefeita e redundante, mas, em abstracto, de televisão, e, pela natureza do género, dos produtos e serviços associados). É notícia tudo o que servir este círculo de ganho empresarial e satisfação da curiosidade de consumo (e este serviço frequentemente pago é coordenado por empresas que pertencem a, ou empregam, “ex-jornalistas”, que produzem material com padrões sazonais de actualidade: a funerária com um serviço inovador; o ginásio com ofertas únicas; o tratamento revolucionário exclusivo de uma clínica; o que as crianças mais querem). É notícia a própria televisão (ao ponto de os canais terem notícias só suas: os seus próprios desmentidos da vida íntima das estrelas, os seus próprios eventos nacionais, os seus próprios furos políticos, geridos pelos seus próprios comentadores políticos).

Quem discute, entre nós, esta escandalosa mudança na prática jornalística? – que faz negociar-se a matéria informativa exactamente da mesma forma que se negoceia o espaço de prateleiras nos mesmos hipermercados e shoppings que a televisão ama como seus iguais (“Vem ao centro comercial porque é mais prático, porque há mais variedade, por causa da qualidade e dos serviços, ou um pouco por tudo isto?” – pergunta típica de jornalista de Natal).

“O consumidor está cada vez mais farto de telemóveis cheios de botões”, é uma frase que recordamos sempre, articulada por um profissional da informação, no momento em que segurava um novo produto com a extrema funcionalidade de não ter os intuitivos botões. Um profissional da informação não é capaz de franzir o sobrolho a uma falsidade estatística tão cómica? Que entidade multifacetada é esta, o Consumidor, cujas faces este jornalista parecia conhecer pessoalmente?

Uma sondagem inventada, em troca da venda de mais algumas centenas de telemóveis inflacionados?

Ficamos por aqui, com o lema escrito e falado de uma detalhada peça jornalística de Natal que conseguiu encapsular, ao mesmo tempo, a absoluta venalidade da profissão informativa actual e, paradoxalmente, a sua total indiferença à realidade:

“As famílias portuguesas procuram cada vez mais [os] hotéis de luxo para a ceia de Natal.”

 

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Artigo 3.º

Incompatibilidades

1 – O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de:

a) Funções de angariação, concepção ou apresentação, através de texto, voz ou imagem, de mensagens publicitárias;

b) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de planificação, orientação e execução de estratégias comerciais;

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artigos estatutários in Estatuto do Jornalista, n’O Sítio do Sindicato dos Jornalistas

fotos dramapessoal

 

A Contracena

 

 

As duas contribuições na entrada anterior completaram-na tão redondamente que nos deixaram em silêncio.

Duas pessoas que conhecemos do irreal quotidiano e da cena reagiram à evocação que o pintor hiper-realista Richard Estes fez da profissão do actor, falando do que será comum às duas artes, em planeamento, em controlo artístico, em execução técnica.

Estamos todos com Oscar Wilde, se negamos uma visão sentimental da expressão artística como maná criativo de um ego mediúnico (ou mediático, num certo presente) e espontâneo. Sim, com bons sentimentos não se faz senão má poesia. O pintor Richard Estes pôs o seu acento no trabalho de repetição do actor, para comparar as faces conscientes dos esforços cénico e pictórico.

Mas uma das duas reacções imediatas ao pequeno texto do pintor que pusemos neste blogue levantou a enorme lebre da contracena. Que rigor pode haver na contracena? Que controlo? Que plano? Que medida? No panorama de uma cena construída, que canais cria esta ou aquela contracena, mais ou menos sensíveis, de dentro e para fora?

A contracena é a maior interrogação do teatro. A maior das peças é um estudo da contracena: Hamlet.

Pensar a contracena empurra-nos para o nevoeiro de energia e dúvida daquela peça. O dilema de Hamlet é o do actor, se o virmos repartido entre dois fossos, o da introspecção e o da expressão. O Fantasma, a voz que instrui, é verdadeira ou falsa? É verdadeira e falsa.

Nós aqui nem conseguimos – epígonos ainda mais ansiosos de Hamlet – chegar a pensar a contracena. “Pensar” é logo o nosso problema. Isto é: até que ponto será produtivo pensar o teatro, se é óbvio que pensar no teatro é sempre um problema?

 

 

David Mamet (preferimos o pensador da cena ao autor, porque pende melhor para o primeiro fosso), mexeu neste lodo do pensamento e da cena com o pragmatismo da sua escola. No capítulo “Find Your Mark/Encontra a Tua Marca” (eis mais um pequeno eco do sarilho hamletiano) do livro True and False, tenta ser o mais categórico possível:

 

Por mais que nós, gente do teatro, gostemos de nos ver como intelectuais, não o somos. A nossa profissão não é uma profissão intelectual. O saber literário inteiro do mundo, as «ideias» todas, não vão capacitar ninguém a fazer Hedda Gabler, e toda a conversa sobre o «arco da personagem» e «baseei a minha personagem nisto…» é tudo babugem. Não há nenhum arco da personagem; e é tão inútil basear uma personagem numa ideia como é basear uma relação amorosa numa ideia. Essas frases não passam de talismãs do actor, que lhe permitem, a ele ou a ela, espantar o mal, e o mal que tentam espantar é o terrível imprevisto.

Essas frases e rituais mágicos são esconjuros para diminuir o terror de sair à frente de corpo nu. Mas é assim que o actor sai à frente, queira ou não queira.

 

O terrível imprevisto é o chão da contracena.

Pensar o terrível imprevisto é uma actividade condenada à contradição. O livro de Mamet nega ali a sua própria razão de ser, e ao mesmo tempo é certo que um livro sobre o teatro assim faça. O pensamento do teatro é um desertor do palco, e tem de viver com essa condição. Mas, queira Mamet ou não, tem de viver.

Tem de viver, por exemplo, para que um workshop sobre Hamlet suba acima de algumas inquietações caseiras, como aquela a que um amigo assistiu no ano passado: «Se o meu tio matasse o meu pai e casasse com a minha mãe, eu também ficava chateado. Não é?»

Não. Não é. Para chegares à «chatice» de Hamlet precisas de mais que da tua mãe.

 

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Pintura de James Ensor. Dois quadros de 1891:

“Esqueletos disputando um arenque fumado”
“Esqueletos disputando um enforcado”

 

Não é assim, de modo nenhum

 

Richard Estes, “34th Street, Manhattan, looking east”, 1982

 

«Penso que o conceito popular do artista é o de uma pessoa que tem uma espécie de grande paixão e entusiasmo e emoção super. Lança-se na sua grande obra-prima e desfalece de exaustão quando termina. Não é assim, de modo nenhum. Geralmente é um processo bastante calculado, continuado e lento, durante o qual uma coisa se vai desenvolvendo. O efeito pode ser de espontaneidade, mas isso faz parte da montagem artística. Um actor pode fazer uma peça na Broadway durante três anos. Todas as noites exprime a mesma emoção, exactamente da mesma maneira. Desenvolveu uma técnica para fazer passar esses sentimentos e assim poder servir a ideia do espectáculo. Ou um músico, que pode não querer tocar aquele raio de música, mas agendou o concerto e tem de fazê-lo. Acho que o verdadeiro teste é planear alguma coisa e ser capaz de a levar mesmo até ao fim. Não que se esteja sempre entusiasmado. É apenas o ter de tirar aquilo para fora. Não se faz com as emoções que tenhamos. Faz-se com a cabeça.»

Richard Estes

 

Mais, do mesmo autor, em Artnet.

 

Os Pintores Preferidos do Miúdo

 

 

Numa altura em que por cá os professores de Artes, especialmente os provisórios, se vêem obrigados pelos conselhos de turma a escrever relatórios para justificarem a reprovação de alunos que se recusaram a trabalhar em ambientes já de si muito pouco exigentes, o jornal Guardian de ontem mandou os seus críticos de volta às escolas onde aprenderam o básico, para verem como está tudo agora.

Foram os críticos de Drama e Música Lyn Gardner e Erica Jeal, e também o de Artes Jonathan Jones. Apesar de um esforço de implantação, nalgumas escolas de cá, de cursos de Expressão Dramática, e sabidos os problemas do ensino da Música, que em si é mais um problema do que um ensino, será interessante apenas medir o abismo, nestas áreas.

No caso das Artes, por ser um ensino há muito encaixado no currículo, será interessante ler as diferenças.

Lembramo-nos muito de uma professora de Artes recém-chegada que estava a ler Charlotte Brontë numa sala de professores. Uma colega das disciplinas exigentes comentou: «Ah, és professora de inglês».

 

 

No universo compartimentado e surdo-mudo deste modo de ensinar, as artes tornam-se um incómodo, quando se trata de aprovar à força os alunos que fazem troça do sistema. Os renitentes do Português e da Matemática têm de passar nas Artes. Afinal, são só uns bonecos.

É certo que a produtividade de muitos programas lectivos em Artes Visuais ou Expressão Plástica pode chegar a ser confrangedora, e pode ser resumida numa tripla de tarefas, entre as quais a execução de um postal de Natal e outro do dia da Mãe, que pode durar semanas. Mas aí a responsabilidade é das escolas e dos professores individualmente. É possível fazer muito mais.

Mas o curioso é tantos mestres das disciplinas assentes, as “nobres” do tronco comum, acharem que decorar-se uma pilha de datas e nomes estilísticos a respeito de, por exemplo, Bocage, ou decorar-se uma curta série de fórmulas matemáticas em relação às quais os testes só mudam os valores, ou nem isso, pode ser intelectualmente mais sofisticado do que, por exemplo, o estudo da composição de “Guernica”, ou da carga simbólica de um quadro renascentista, ou a execução de um retrato proporcionado.

A falta de imaginação ajuda à concentração – parece ser o lema.

Uma das coisas que impressionou o crítico do Guardian, Jonathan Jones, para além da dimensão das obras de grupo (com um acabamento que o crítico considerou excelente, havia uma recriação das gravuras rupestres de Lascaux, na sala grande de Artes da sua antiga escola), foi que um miúdo tinha como seus “pintores preferidos” dois artistas contemporâneos: Lucian Freud e Chuck Close.

Pintores preferidos?

 

 

ver artigo de Jonathan Jones

ou os de Lyn Gardner (Drama) e Erica Jeal (Música)

ilustrações: quadros de Lucian Freud (1&2) e Chuck Close (3).

 

Robert Rauschenberg e o Quadro Apagado

Queremos saudar Robert Rauschenberg, que morreu na segunda-feira.

Lembramos a sua série Cardbird, que fez nascer formas de pássaro de cartões de embalagem rasgados, mas cartões montados, fotografados, impressos, recortados e colados em base de cartão para serem iguais a cartões rasgados, em formas de pássaro.

À parte a pintura, e as colagens, queríamos mencionar o seu “Erased de Kooning Drawing” (“Desenho de de Kooning apagado”).
Rauschenberg decidiu levar o desenho ao branco completo, a partir do desenho. Apagou variados desenhos seus.
Mas aquilo não era nada – conta. Cada um parecia um Rauschenberg apagado. Para ser uma obra, teria de começar como arte. Tinha de ser um de Kooning. Uma coisa importante.

Rauschenberg foi ao estúdio do colega. Comprei uma garrafa de Jack Daniels e fui.
Depois de uma cena de espera e silêncio bastante tensa, com uma sombra de conflito, quando de Kooning trancou a porta com a tela que estava a pintar, de Kooning responde:

Tem de ser uma coisa de que eu sinta mesmo muita falta.

“You see how ridiculously you have to think, in order to make this work?” (Rauschenberg)

Vale a pena ver o vídeo do próprio Rauschenberg a contar o episódio, e o seu plano de trabalho, com o seu humor impossivelmente doce.

Já agora, como complemento para qualquer escrúpulo em relação aos cruzamentos nada/arte, humor/arte, e gostar/não gostar, será de ver o vídeo de Marcel Duchamp sobre o “gosto indiferente”.