Andas na boa-vai-ela («Canção torta»)

 

 

Canção torta

 

 

Andas na boa-vai-ela
Dentadura amarela
Constantemente a raiar

Andas na boa-vai-ela
Foste nado em Portugal
E nem tudo está mal

Andas na boa-vai-ela
Dentadura amarela
Constantemente a raiar

E vais na boa-vai-ela
Prò buraco infernal
E é outra vez Portugal

 

 

poema de Fernando Boas

Poesia pequena e pequena política

 

 

Fim de campanha. No campo da «análise», todos os chavões em parada, até o da distância entre os eleitores e os eleitos. Num país de fracas elites, este lema oco passa por observação política. Neste blogue somos a favor de ainda maior distância. Quando ouvimos aquilo, só nos ocorrem os casos de intensa proximidade entre os eleitores e os seus eleitos: Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, etc.

O pior chavão coube nas palavras de uma comentadora artificiosamente penteada: «…esse é poeta, não sabe a diferença entre uma acção [de empresa] e uma caneta». O lugar-comum da poesia como incapacidade social, cognitiva, política ou científica, só fala da banalidade da ideia de poesia que lhe subjaz. Porém, eis que um credo de mau gosto literário se transforma em argumento político e de campanha eleitoral. Temos poetas engenheiros e matemáticos (e empresários). Mas apetece dizer que, em saber político e económico, Maria João Avillez está algo aquém de Elizabeth I, poeta.

 

No crooked leg, no bleared eye,
No part deformed out of kind,
Nor yet so ugly half can be
As is the inward suspicious mind.

 

Gravado a lápis para sempre

 

 

Na semana passada, um amigo achou um escrito de António da Silva Teixeira Electricidade que esta noite faz dezanove anos. Um feito notável, para um escrito a lápis numa parede de um prédio igualmente parado no tempo, na Rua Rodrigues Sampaio. O tema é denso, talvez captado na imprensa internacional à mostra pelas ruas, ou captado, simplesmente. São modestas, as nossas alegrias.

 

Dois Poemas (de António Manuel Couto Viana)

 

 

Despojo

E, agora, o que faremos?
A quem legar o que resta
Do simulacro de festa
Que tivemos?

Quem aproveita os detritos
De uma alegria forçada?
Quem confunde aflitos gritos
Com imposta gargalhada?

Iremos por onde alguém
Descubra os nossos farrapos.
Vês flores no jardim de além?
– Vejo sapos.

 

Estival

A imensa praia. O sol rubro, preciso.
E o mar de sempre, impetuoso e vário.
Meu corpo nu, aberto no solário,
Sorve o final do dia, lento e liso.

Estio é estar assim, sem pensamento;
Sentir apenas, sobre a pele doirada,
A saliva do mar, fria e salgada,
E o arrepio cálido do vento.

Nada mais. Quando muito, um vago olhar
Um vulto jovem, ágil, que se afasta,
Diluído na luz crepuscular.

E só porque o seu ritmo contrasta
Com a serena vibração do ar
E a paz da minha carne gorda e gasta.

 

 

[in Voo Doméstico, 1978.]

Com Chave Mutável (Paul Celan)

 

 

 

Com chave mutável
abres a casa em que
vagueia a neve daquele que foi silenciado.
Conforme o sangue que te brota
dos olhos, da boca ou dos ouvidos,
muda a tua chave.

Muda a tua chave, muda a palavra
que pode vaguear com os flocos caídos.
Conforme o vento que te empurra
assim aumenta a neve em torno da palavra.

 

 

 

foto: the Guardian
da tradução de João Barrento e Y.K. Centeno
(com uma alteração)

Father death blues

 

Allen Ginsberg - Father Death Blues

 

A presença da morte trouxe a sua monotonia a este blogue. Cada pausa foi sendo alongada por mais uma ocasião de afastamento. Na partida do nosso querido Jorge Vasques, actor, 51 anos, depois de uma récita, louvámos connosco a sua alma calorosa buscando o testemunho de outro comediante triste, o poeta Allen Ginsberg. Quando lhe perguntaram como queria ser lembrado, Ginsberg disse o nome de uma canção, feita para saudar o próprio pai na morte, lembrando a recomendação do pai espiritual na fé budista: «Por favor, deixa-o ir, e continua a tua celebração». Puxou da concertina que tinha aos pés e cantou «Father Death Blues», um hino à graça que tem morrer.

 

A canção deixou de estar disponível em Youtube, mas a entrevista completa, mais o seu remate cantado, do programa Face to Face, com Jeremy Isaacs, autêntica autobiografia compacta com despedida, pode achar-se em Ubuweb (na mesma página de «A video diary of Ginsberg in the days immediately before and after his death», por Jonas Mekas).

 

Father Death Blues

 

Hey Father Death, I’m flying home
Hey poor man, you’re all alone
Hey old daddy, I know where I’m going

Father Death, Don’t cry any more
Mama’s there, underneath the floor
Brother Death, please mind the store

Old Aunty Death Don’t hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moans

O Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts’ll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the rest

Genius Death your art is done
Lover Death your body’s gone
Father Death I’m coming home

Guru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this Blues

Buddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we’ll work it through

Suffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scorn

Father Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell.

Allen Ginsberg

 

O Artifício Agradável

 

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No teatro, ou noutras artes, eis o que muitos ignoram e Boileau já sabia, à sua maneira, no auge do neoclassicismo francês. Que:

 

………………………………………. o artifício agradável,
Do mais afrontoso objecto, faz um objecto amável.

(Boileau, Arte Poética, Capítulo 3)

Todas as épocas têm o seu catálogo de tiques estéticos, que fornecem a público e artistas as suas fugas satisfatórias. E, em larga medida, as épocas artísticas constroem a sua segurança vilipendiando os tiques das épocas passadas (mas não vencidas). Os tiques de muitos de agora, em cena, tendem para o inverso do que Boileau acreditava, e certos actores sabem melhor correr (sim, em palco) ou cuspir, ou mastigar impropérios, do que articular completamente, ou, já agora, projectar com rendimento, ou, agora ainda, estar.
Ou seja, a voga presente tende para a convicção de que o artifício desagradável (para usar os termos de Boileau) faz de todo o objecto amável o afrontoso objecto procurado.

 

 

Pormenor de livro exposto no escaparate da Livraria Sá da Costa,
Chiado, Lisboa, com alegoria de louvor a Boileau
(elástico que prende a página à vista, à esquerda).