Um miúdo

 

 

Fecharam mais de duzentas escolas no interior norte, por terem poucos alunos, nos anos mais recentes. Agora vão fechar mais. Cerca de mil, até 2011.
Mas esta «reforma» inconstitucional e genericamente anti-democrática não é apenas mais uma vitória da lógica grossista e de menoridade média no nosso ensino. É mais um episódio da desertificação e da desigualdade na distribuição da riqueza e dos direitos.
Entretanto, o pretexto do saneamento económico não tem efeito em relação aos dois mil gestores de empresas municipais num país de tamanho s ou xs.

Em 1839 havia um só miúdo a aprender em Vilarinho de Samardã, concelho de Vila Real. Chamava-se Camilo Castelo Branco.

 

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Números

 

Recebemos um e-mail de uma amiga com uma foto de outra amiga. Algures no bairro da Graça, em Lisboa.

troco

 

A responsável da Educação achou que os números dos exames eram óptimos, embora não soubesse quais eram os números. Embora ainda não soubesse que não se trata de números. Não leu aquele jornal inglês que dizia que, na Europa, há três maneiras de tratar os números da educação.
A primeira é fazer como os ingleses: apresentar os números verdadeiros e falsificar nas desculpas. A segunda é fazer como os italianos: falsificar os números. A terceira é fazer como os gregos e os portugueses: falsificar o sistema para conseguir os números certos.
A Sociedade Portuguesa de Matemática respondeu aos números: pôs miúdos a fazerem os exames dos anos seguintes ao seu nível, com resultados integralmente positivos. Segundo um professor envolvido no estudo, as provas actuais estão armadas com um mínimo de perguntas de matéria não estritamente matemática, de senso-comum e lógica ao nível do senso-comum, para garantir um nível mínimo positivo.

No meio da confusão, os putos é que são números. Os putos ardinas, como o do boneco, treinavam com os trocos, e não era mau, quando havia trocos.

 

Insónia e marcha (caminhada nocturna)

 

caminhadanocturna

 

Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.

 

foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas

 

Os Pintores Preferidos do Miúdo

 

 

Numa altura em que por cá os professores de Artes, especialmente os provisórios, se vêem obrigados pelos conselhos de turma a escrever relatórios para justificarem a reprovação de alunos que se recusaram a trabalhar em ambientes já de si muito pouco exigentes, o jornal Guardian de ontem mandou os seus críticos de volta às escolas onde aprenderam o básico, para verem como está tudo agora.

Foram os críticos de Drama e Música Lyn Gardner e Erica Jeal, e também o de Artes Jonathan Jones. Apesar de um esforço de implantação, nalgumas escolas de cá, de cursos de Expressão Dramática, e sabidos os problemas do ensino da Música, que em si é mais um problema do que um ensino, será interessante apenas medir o abismo, nestas áreas.

No caso das Artes, por ser um ensino há muito encaixado no currículo, será interessante ler as diferenças.

Lembramo-nos muito de uma professora de Artes recém-chegada que estava a ler Charlotte Brontë numa sala de professores. Uma colega das disciplinas exigentes comentou: «Ah, és professora de inglês».

 

 

No universo compartimentado e surdo-mudo deste modo de ensinar, as artes tornam-se um incómodo, quando se trata de aprovar à força os alunos que fazem troça do sistema. Os renitentes do Português e da Matemática têm de passar nas Artes. Afinal, são só uns bonecos.

É certo que a produtividade de muitos programas lectivos em Artes Visuais ou Expressão Plástica pode chegar a ser confrangedora, e pode ser resumida numa tripla de tarefas, entre as quais a execução de um postal de Natal e outro do dia da Mãe, que pode durar semanas. Mas aí a responsabilidade é das escolas e dos professores individualmente. É possível fazer muito mais.

Mas o curioso é tantos mestres das disciplinas assentes, as “nobres” do tronco comum, acharem que decorar-se uma pilha de datas e nomes estilísticos a respeito de, por exemplo, Bocage, ou decorar-se uma curta série de fórmulas matemáticas em relação às quais os testes só mudam os valores, ou nem isso, pode ser intelectualmente mais sofisticado do que, por exemplo, o estudo da composição de “Guernica”, ou da carga simbólica de um quadro renascentista, ou a execução de um retrato proporcionado.

A falta de imaginação ajuda à concentração – parece ser o lema.

Uma das coisas que impressionou o crítico do Guardian, Jonathan Jones, para além da dimensão das obras de grupo (com um acabamento que o crítico considerou excelente, havia uma recriação das gravuras rupestres de Lascaux, na sala grande de Artes da sua antiga escola), foi que um miúdo tinha como seus “pintores preferidos” dois artistas contemporâneos: Lucian Freud e Chuck Close.

Pintores preferidos?

 

 

ver artigo de Jonathan Jones

ou os de Lyn Gardner (Drama) e Erica Jeal (Música)

ilustrações: quadros de Lucian Freud (1&2) e Chuck Close (3).

 

O Estrado

 

Incomoda-nos tanto descair para o dia-a-dia. Mas decidimos louvar o Estrado.

Consta que em várias escolas, por indicação da responsabilidade directa ou indirecta do Ministério da Educação, os estrados foram retirados das salas de aula «para que os professores fiquem ao nível dos alunos».

O princípio entre aspas tem um potencial caricatural que fala por si.

Os burocratas estruturalistas que administram a catástrofe educativa, vendo bem, têm, na sua grande massa, apenas um defeito: nunca deram aulas.

Caso contrário, saberiam respeitar o estrado.

Um, o estrado pode ser contornado. E o efeito dramático da descida do estrado não é de desprezar, assim como o da subida. Quem quer que tenha tido um grande professor sabe do que falamos.

O estrado não impede a aproximação. Apenas encoraja a que o seu momento seja escolhido, controlado pelo professor, em vez de uma mera sujeição ao espaço.

Dois, o estrado é um palco. O seu uso traduz-se num enorme ganho acústico. Quando o professor fala do estrado, na maioria das salas, todos os alunos ouvem melhor e por igual. Verdadeiramente ao mesmo nível.

Três, enquanto palco, o estrado permite, na maioria das salas, muito melhor visão de todos os alunos em relação à figura do professor ou a qualquer material exposto. Verdadeiramente ao mesmo nível.

Quatro, o estrado permite ao professor uma visão completa da sala em qualquer momento, o que lhe permite atender instantaneamente o contacto dos alunos sentados nas cadeiras recuadas, em vez de se aproximar de alguns virando as costas a todos os outros. Verdadeiramente ao mesmo nível. Os alunos.

Cinco, o que não vêem os que chegam à teoria pelo caminho da estupidez empírica: enquanto palco, o estrado permite aos alunos que subam a ele, e demonstrem, exponham, expliquem aos colegas numa posição que tem todas as qualidades da mais elementar arte dramática, e lhes permite o que esta escola lhes nega constantemente ou não sabe permitir: um teste formal à autonomia da sua voz individual.

 

Farsa com Farsa

 

A inteligência, por vezes, só pode responder à farsa no mesmo registo. O nosso dia começou na Antena 2, a ouvir Vitorino Magalhães Godinho comentando, com uma tristeza leve, o que viu nos programas escolares (diz-se novos) de Português e História.

Vi coisas… diz. Pedem-lhe que diga que género de coisas. Escolhe:

Olhe. Por exemplo. Vi uma coisa, no programa de Português, que era Estratégias de Audição. Mas que estratégias são estas? O que haverá em estratégias de audição? Eu julguei que só havia duas, que era ouvir às portas, e ouvir debaixo das mesas.

 

Que Cem Flores Desabrochem

 

Não temos qualquer estima pelo assassino de massas. Mas um dos amigos originais que temos juntado decidiu oferecer-nos o icónico Livro Vermelho de Mao Tsetung pelo Natal.

Duas passagens escolhidas do Livro são tudo o mais que temos a dizer a respeito do assunto educativo local, bastante aquém do que Mao vislumbrou em 1957.

 

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A política de “Que cem flores desabrochem” e “Que cem escolas rivalizem” é a política para estimular o progresso da arte e da ciência e o florescimento da cultura socialista no nosso país. Na arte, podem desenvolver-se distintas formas e estilos; na ciência, diferentes escolas podem rivalizar livremente. Julgamos que a imposição, por medidas administrativas, de um só estilo e de uma só escola, e a proibição de outros estilos ou escolas, dificultam o progresso da arte e da ciência. O problema do correcto e do errado na arte e na ciência deve resolver-se pela livre discussão nos meios artísticos e científicos e durante a prática da arte e da ciência. Esse problema não deve ser resolvido por métodos simplistas.

in “Sobre a Justa Solução das Contradições no Seio do Povo”
(27 de fevereiro de 1957).

 

 

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Tropas sem cultura são tropas ignorantes e tropas assim não podem vencer o inimigo.

in “Frente Única no Trabalho Cultural”
(30 de Outubro de 1944, Obras Escolhidas, Tomo III).

 

Reproduções de duas serigrafias da série “Mao”, de Andy Warhol.

 

Para outros assuntos:

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