A emergência

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“Young people long for an emergency. An emergency that will give them values…”

Arthur Miller

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Um lema

Ah, os blogues que  prometem começar, recomeçar ou continuar. Os tempos não estão para tiradas vãs. Muito menos a respeito do teatro, que elegemos como o tema preferencial deste órgão de comunicação social e que, quanto a nós, continua a ser o pequeno sangramento, a pequena verruga ou obstipação, náusea, inchaço ou comichão que revela o cancro. O teatro não faz sentido nenhum aqui e agora, e isto ser uma evidência é que dá especial sentido e razão de ser ao mesmo teatro. Enfim, isto tudo para deixarmos aqui um lema que brotou em conversa, em saudação ao ridículo «acordo ortográfico» que muito poucos tiveram a lucidez de denunciar como mecanismo para forçar a escrita a imitar a fala, quando o seu registo tem níveis de informação totalmente alheios ao mexerico vocal – tudo em nome da utopia burocrática da lusofonia:

Não quero espetadores nos meus espectáculos.

 

De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

«O teatro é mais honesto» (Manoel de Oliveira)

 

 

«Hoje tenho uma ideia muito diversa da de antigamente. Neste meu último filme, Angélica, até mudei um pouco as ideias do que estava para fazer; foi mais por imposição e interesse do produtor que eu me atrevi e adaptei o filme à realidade. Mas, enfim, porque na verdade a gente chega a estas conclusões, a máquina de filmar… O teatro é mais honesto que o cinema, porque o cinema filma sonhos. Ora a máquina de filmar não pode filmar sonhos, a máquina de filmar não pode filmar pensamentos. No teatro nunca se representa um pensamento, nunca se representa um sonho. O actor chega ao palco e diz “eu sonhei isto e aquilo”. Se é verdade ou mentira, não se sabe. Ou então diz “eu pensei isto ou aquilo”, porque isto não se filma. Por essas razões, mudamos a ideia do contexto do cinema, e por isso acho que o teatro é fundamental. E, para mim, a expressão mais rica é a literatura. Lembro-me de que na Guerra e Paz, um sujeito quando estava para morrer – estava ferido, depois acabou por ficar doente -, estava preocupado em saber o que é a morte. Porque era uma porta por onde ele não entraria. Olhou lá para o fundo da sala e vê uma porta, e diz “Ah, é uma porta.” E eu achei isto admirável: a morte é uma porta. No mundo material, a porta dá para o cemitério. No mundo espiritual, a porta dá para algum lado, ou não.»

 

Entrevista ao Diário de Notícias

 

(Repare-se como, nos comentários à entrevista, na página do jornal, os que objectam ao gasto público no cinema se revelam bem instruídos pelo mesmo manual; dois deles chegam a usar, no seu par de curtas linhas, exactamente as mesmas duas expressões: «contribuintes» para si e para a sua voz colectiva, e «caprichos» para os filmes feitos.)

 

As revoluções do Telephone

 

 

A grande novidade que os jornalistas viram na revolta do Irão foi o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. A grande novidade que os jornalistas vêem na revolta da Tunísia é o surgimento das redes sociais como caixa de ressonância. (Chamam-lhes revoluções; fala a geração de jornalistas que não distingue uma revolta de uma revolução.) As visões de futuro agora em campanha vêem… as redes sociais. Voltámos ao entusiasmo pelo Telephone. Entretanto, uma peça de teatro com página no feicebuque junta mais de novecentos amigos… e seis pessoas no segundo dia.

 

Vozes do trabalho

 

 

Temos falado pouco. Os tempos não estão para vozearia (um daqueles termos que um parlamentar descobre e depois são zurrados até se gastarem).
Passada a greve geral, sob a sombra de uma «utilidade» questionada (como se os direitos constitucionais da greve, da liberdade de expressão e de manifestação tivessem de justificar alguma mais-valia), a discussão paupérrima ficou-se pela aritmética disfarçada de estatística, e outras facilidades.

Dizem os ingleses que há duas maneiras de mentir em política: mentindo, ou recorrendo à estatística. A banalidade da estatística no nosso meio passou as fronteiras do hilário.
Na semana passada, um deputado socialista comparava a carga fiscal, e, como que por inferência, a política fiscal e orçamental dos países nórdicos com a nossa, tirando a divertidíssima conclusão de que seriam «idênticas».

A facilidade mais recorrente é a de que é preciso «trabalhar mais». A ministra do trabalho e o líder da oposição gostam dessa tecla, como se o factor trabalho determinasse a produtividade, e não fosse o factor valor muito mais importante nesse cálculo – assim confirmará qualquer caloiro de economia e gestão.

Por mais que nos estafemos a fazer chinelos ou lençóis, nunca teremos a produtividade de quem faz circuitos impressos.

As opções quanto ao valor a produzir cabem aos empresários, gestores e planeadores empresariais e políticos, muitos dos quais aparecem agora a caluniar a massa dos que executam, tendo falhado todos estes anos (falhado é como quem diz… apenas do ponto de vista do ganho comum).

E depois há os que nem sequer passam por ser trabalhadores, e na hora de se exprimirem – e é da expressão que se faz o seu trabalho – se mostram passivos e ignorantes.

Espectáculo no Teatro da Trindade, casa do Inatel, construído a partir de música do trabalho portuguesa que o etnólogo corso Michel Giacometti dedicou anos da vida a recolher, e a quem o Estado Português nunca soube merecer enquanto vivo.
Uma Agenda Cultural da têvê lembra-se de interrogar os actores que encarnam a gente da labuta sobre a greve do dia 24. Duas veteranas da nossa cena abrem a boca.

Uma diz que «o Ministério da Cultura é o que tem menos dinheiro, pelo menos é o que me dizem» e que é «preciso dar a volta a esta situação». A outra diz que «na situação em que estamos, uma greve, não acho correcto». Ou seja, uma acha que é tudo uma questão de dinheiro ministerial. A outra bate na tecla do trabalho. E esta gente ignorante andou anos a representar dificuldades da vida, conflitos de interesses, pessoais, sociais e políticos. Não aprenderam nada. Merecem menos do que têm.

Na peça jornalística seguinte, uma actriz mais nova de olhos redondos a trabalhar em Almada diz qualquer coisa sobre uma peça de Tennessee Williams. Diz o quê?
«É muito actual…»

 

Uma desculpa melhor do que outra qualquer

 

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Temos estado ocupados. A nossa desculpa para a ausência fomos buscá-la a William Blake, pela mão do desenhador Robert Crumb, na sua Art & Beauty Magazine (Taschen). Reflexão desenhada e comentada sobre o modelo artístico feminino. Temos para nós que o teatro nunca deve esquecer que é uma arte popular. Blake, exemplo daquele que não pára na escada da visão e do sublime, pensava o mesmo da poesia: «Todo o empenho do homem está nas artes, e em tudo o que é comum». As Artes. Espanta-nos sempre o sentido manual e oficinal que o místico dá ao termo Artes. Como se a sua voz laboral fosse sempre a do desenhador.

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Father death blues

 

Allen Ginsberg - Father Death Blues

 

A presença da morte trouxe a sua monotonia a este blogue. Cada pausa foi sendo alongada por mais uma ocasião de afastamento. Na partida do nosso querido Jorge Vasques, actor, 51 anos, depois de uma récita, louvámos connosco a sua alma calorosa buscando o testemunho de outro comediante triste, o poeta Allen Ginsberg. Quando lhe perguntaram como queria ser lembrado, Ginsberg disse o nome de uma canção, feita para saudar o próprio pai na morte, lembrando a recomendação do pai espiritual na fé budista: «Por favor, deixa-o ir, e continua a tua celebração». Puxou da concertina que tinha aos pés e cantou «Father Death Blues», um hino à graça que tem morrer.

 

A canção deixou de estar disponível em Youtube, mas a entrevista completa, mais o seu remate cantado, do programa Face to Face, com Jeremy Isaacs, autêntica autobiografia compacta com despedida, pode achar-se em Ubuweb (na mesma página de «A video diary of Ginsberg in the days immediately before and after his death», por Jonas Mekas).

 

Father Death Blues

 

Hey Father Death, I’m flying home
Hey poor man, you’re all alone
Hey old daddy, I know where I’m going

Father Death, Don’t cry any more
Mama’s there, underneath the floor
Brother Death, please mind the store

Old Aunty Death Don’t hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moans

O Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts’ll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the rest

Genius Death your art is done
Lover Death your body’s gone
Father Death I’m coming home

Guru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this Blues

Buddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we’ll work it through

Suffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scorn

Father Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell.

Allen Ginsberg

 

Tarantan

Bananas

Tarantino acha que não seria possível fazer hoje The Dirty Dozen (boa prosódia «pulp», a do título português Doze Indomáveis Patifes). Porque já não há aquele género de actores. Ernest Borgnine. Charles Bronson. Homens a sério. Porque os actores de agora são macios, diz.

Não nos parece prestável o que Tarantino tem feito depois de Jackie Brown, muito menos a convicção que tem de ter “crescido e superado” Godard (mas quem lhe disse que seria capaz de crescer nessa direcção?). Vale na última entrevista ao Guardian o elogio à escrita de Joseph L. Mankiewicz, mesmo se feito à custa de toda a escrita do teatro americano (quem nos dera este tipo de jactância teatral, num meio em que nem os parzinhos de parágrafos das revistas de agenda de espectáculos conseguem ter alguma energia oral, ou conseguem crescer e superar os limites da mera multiplicação do óbvio, para não falar nos limites imaginativos e retóricos da escolaridade obrigatória). Ao menos algum tarantan:

«He could have held the script for All About Eve up against every play ever written for the American stage and said, ‘Suck my dick!’ – It’s that good.»

via Guardian

 

Eu sou a minha mãe

 

Uma das fraquezas da ficção dramática popular, para além do maniqueísmo católico que racha a sua colecção de tipos básicos em dois grupos, os justos e os perversos (há um terceiro grupo, o dos figurantes, parte dos quais falam), é a falta de um elemento de escrita que no teatro romântico dava pelo nome de «grande deixa»: a tensão de uma cena resolvida numa fala, ou numa riposta a uma fala.

 

Prusik-Parkin

 

O novaiorquino Thomas Prusik-Parkin foi recentemente forçado a levar à cena da sua própria vida este recurso estilístico, e fê-lo com eficácia. Foi acusado de falsificação de documentos, fraude, uso de falsa identidade, e etc, depois de ter usado peruca, vestido, maquilhagem e óculos escuros para se fazer passar pela própria mãe, falecida em 2003, e poder receber, em nome dela, cerca de 115 mil dólares em benefícios sociais e subsídios de renda.

Quando foi preso, declarou às autoridades: «Segurei a minha mãe nos meus braços enquanto morria, e respirei o seu último suspiro. Portanto, eu sou a minha mãe».

 

via BBC NEWS