[sem título]

 

 

Um pedido de desculpas pela demorada suspensão sem aviso. Algum trabalho criativo afastou-nos daqui. Estamos também a pensar em mudar um pouco o conteúdo deste blogue. Esperamos que a imagem escolhida para figurar a pausa seja do agrado dos visitantes. Há anos que a temos guardada, em tamanho maior, talvez para ilustrar um pequeno livro em parte dedicado ao Tempo (enfim; em certo sentido, os livros são todos dedicados ao Tempo). Parece que há uma tribo da Amazónia que não tem a palavra tempo (parece que há uma tribo na Amazónia para cada um dos nossos problemas). Não podemos dar-nos a esse luxo (outra palavra frequentemente dispensada pelas culturas, algumas bastante complexas).

 

Anúncios

As Massas Construídas

 

 

Teimosamente, continuámos a investigar as fotos da Avenida de Roma passada. A variedade não nos ocupa neste momento.

Tanto os doutores planeadores e empreendedores como os modestos plantadores de prédios acima, todos são anónimos hoje numa fotografia. Moveram massas de terra e ergueram massas de betão que mal nos ocupam a memória imediata.

 

 

Estamos habituados, não precisamos de notar ou sentir o percurso dos prédios no tempo, mais lento que o nosso, mais duradouro. Mas eis a delicada silhueta feminina na varanda, perto do alto poste de madeira provisório. Talvez dure um pouco mais que as massas construídas.

 


 

Variedades e Actualidades

 

 

Preferimos a expressão “os nossos tempos” a “o nosso tempo”. Nunca houve um só tempo.

Em que tempo estão os espectadores de uma peça? De preferência, no da peça, ou, melhor, num tempo que a cena criou, sempre imaginário.

Assim são os tempos de cada um dos espectadores, todos diferentes. Uns oitocentistas, ou mais antigos, outros adiante do tempo presente, que é sempre um pouco recuado; uns mais coerentes nos seus tempos, outros mais misturados, conforme puxa cada área da sua experiência. Estão todos ali para estarem unidos na ficção de um só tempo.

As frases que começam com o truísmo “hoje em dia”, começam sempre com um abuso estatístico ou uma extrapolação que só vê uma das faces do presente.

A metáfora do telemóvel é prática, aqui: o aparelho da transição do século é manipulado por uma vasta maioria que nem sequer consegue imaginar como estarão presos os botões (quando os há) e como se produz o efeito de mola, contra a pressão do dedo, por exemplo. A miniaturização de circuitos garantiu um enorme poder comunicativo – embora nunca a comunicação – a qualquer um, que logo se acha no tempo do aparelho.

No entanto, o utilizador está, muitas vezes, num tempo do saber anterior ao tempo mental de Alessandro Volta, e da sua pilha de discos metálicos e tecido embebido em ácido, primeiro passo do caminho para o aparelho. Nas ideias e na imaginação o fosso pode ser ainda maior.

 

 

Quem é contemporâneo de Wittgenstein, ou do Shakespeare de King Lear? Nós aqui ainda vamos no longo caminho e muito aquém.

A melhor coisa que um jornalista parece conseguir dizer sobre uma peça de teatro é que é actual. Ora, o critério da actualidade é uma preocupação exclusivamente jornalística. Uma peça ou qualquer obra de arte não são matéria de relatório quotidiano.

Woody Allen lembrou um dia a distinção que o próprio Heródoto fez entre História e Poesia: A História é uma coisa que aconteceu uma vez e nunca mais acontece. A Poesia é uma coisa que nunca aconteceu mas está sempre a acontecer.

O jornalismo, quando vale, serve a primeira categoria. O teatro, quando vive, serve a segunda. Os jornalistas, que decidem duvidosamente sobre a actualidade de muitas notícias, e de muitas e redundantes não-notícias (com uma falsa actualidade de raiz comercial, ou outras), têm uma enorme ânsia em decidir com certeza a actualidade (ou seja, a relação directa com o presente jornalístico) do teatro e da arte em geral. E há no teatro quem acredite.