De volta aqui

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Regressar a este blogue foi regressar a dois dos blogues que nos fizeram descobrir o género, e continuamos a estimar e recomendar. Wood S Lot, que se mantém admiravelmente inalterado, e Spurious, em parte agora dedicado à notoriedade recente do seu autor Lars Iyer (ou da sua personagem W., que interpela o melindroso narrador do blogue, sem nome, e que nem mencionámos no nosso artigo preguiçoso ou displicente; blogue escrito, portanto, em drama).

Será estranho insistir no teatro, num momento de negação da razão de ser às artes públicas, e até à discussão pública, num momento em que é todos os dias declarado ser politicamente vantajoso não haver drama. Num momento de uma espécie de louvor da economia de sobrevivência, por oposição a uma economia de vivência – à imagem do passado Estado Novo, ou qualquer estado de união forçada. (No drama, tal qual o entendemos, o palco é um lugar formal dentro da grande cena; isto quando consegue ser esse outro lugar; a negação desse espaço só passa despercebida porque todo o outro espaço público já foi desertado.)

Mas o facto de o drama geral ter sido sempre tão raro aqui (tanto quanto o drama artístico é escasso e quase irrelevante socialmente), dá a esta saudação e pressão para a paz formal um carácter ainda mais intrigante. Causam o deserto e chamam-lhe paz – foi o que se disse das legiões romanas, no que, quanto a nós, descreve o espírito que presentemente invade.

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A Pintura Verdadeira do Erro

 

A pintura verdadeira do êrro é a pintura indirecta da verdade. A pintura verídica da verdade é a única verdadeira.

 

 

Existimos em relação com todos os pontos do universo, tal como com o futuro e com o passado. É só da direcção e da duração da nossa atenção observadora que depende a questão de sabermos que relação preferimos cultivar, que relação será para nós a mais importante e a mais activa.

 

 

Toda a descida em nós mesmos é simultâneamente uma ascensão, uma assumpção, uma vista do verdadeiro exterior.

 

 

O seio é o peito elevado à categoria de mistério: o peito moralisado.

A luz é símbolo e agente de pureza. Onde a luz não tem nada a fazer, nada a unir ou nada a separar, passa.

Tudo é naturalmente eterno. A mortalidade e a instabilidade são privilégio das naturezas superiores.

Os corpos são pensamentos precipitados e cristalizados no espaço.

 

 

Estamos sós com tudo aquilo que amamos.

 

fotografia: Katy Grannan (ver em Artnet)
texto: fragmentos de Novalis, traduzidos por Mário Cesariny
(ortografia do tradutor)

por ordem:
“Dale, Pacifica”, 2006.
“Nicole, Sunnydale Avenue”, 2006.
“Angie”.
“Gail and Dale, Pacifica”, 2007.

agradecimentos: Wood S Lot

 

Decomposição Controlada

Houve uma geração que brincou na rua e viu, ou podia ter visto, o melhor do cinema de animação, na tv pública, à mesma hora a que os que agora crescem vêem gente excipiente e hidrogenada a louvar o veneno bacteriano diluído que injecta nas rugas de expressão.

Há um humor especial em chamar-se rejuvenescimento a uma decomposição controlada.

Na procura quase falhada por um filme de que tínhamos saudades recentes, achámos um filme de ainda mais longa espera. História da nossa vida. Um mal por uma coisa leva a um conforto por outra, um erro leva ao único caminho para um acerto.

O primeiro filme desejado era Ce Que Je Vous Dois (“O Que Eu Vos Devo”), curta-metragem de Olivier Bouffard, com o actor Michael Lonsdale como um velho que vive num apartamento privado de um lar. A cena da teimosia da mão que treme contra a velha Philishave último modelo tem o melhor tempo real que se poderia arranjar.

 

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Não se contam filmes. Não se entra a pé e a falar no comboio-fantasma. Tem de ser rápido e nos carris, para poupar no que Coleridge chamou a “suspensão da descrença”. (“Deixei de gostar de filmes quando comecei a fazê-los” – Orson Welles).

Esta curta-metragem foi uma das perdas da nossa catástrofe informática, mas vai ser transmitida na TV5 Monde no dia 25/2, às 3.25h. Quem puder, não se arrependerá de mandar alguma máquina gravá-la, ou de vê-la ao fim do serão. (Bouffard, curiosamente, foi assistente de realização do filme mais recente de Manoel de Oliveira, Cristóvão Colombo – O Enigma).

Graças ao nosso estimado blogue Wood S Lot, voltámos a encontrar-nos com o outro filme muito procurado, dedicado ao desenhador e animador Ryan Larkin. Fizemos uma colecção no Youtube de várias peças que documentam o trabalho e a pessoa do artista morto em Fevereiro, há um ano. Ryan Larkin fez todo o caminho, desde a cerimónia dos Óscares ao peditório de rua.

O filme Ryan, de Chris Landreth, regista o encontro do cineasta com o seu mentor, no cenário de uma cantina social onde as chagas interiores e as exteriores de ambos transparecem à vista desarmada.

A cópia disponível não tem a definição ideal, mas nada que impeça o choque estético. (Ainda assim, visto online, em corrente, o filme tem menor qualidade do que gravado e lido num leitor interno. Recebeu há uns anos o boneco dourado para a melhor animação e foi apoiado pelo mesmo National Film Board of Canada que tinha acolhido o “creative meaningful stuff” de Ryan Larkin, nas palavras de Landreth).

ver o filme Ryan

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A mesma cantina social surge de relance no curtíssimo documentário Ryan after Ryan by Gibran Ramos, onde têm voz Chris Landreth e o próprio Ryan Larkin.

Na mesma avenida Youtube acha-se o noticiário em género “dinâmico” sobre a morte de Ryan, da CBC News. Ryan é tratado como “both talented and troubled”.

Ficam aqui os caminhos para três dos filmes de Ryan Larkin disponíveis no canal aberto: Syrinx, Walking, e Street Musique.

Tudo Canos Vazios

Podemos ler em blogues nacionais (vede o paradoxo) o que andam a escrever sobre a qualidade dos blogues nacionais. Ou podemos escolher melhor o que lemos.

 

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Podemos antes ler o que vale em qualquer suporte, seja um painel, o papel ou um ecrã, ou mesmo um blogue, desses que correm mundo sem bandeira certa, como os navios transoceânicos.

Curioso é os blogues, especialmente os locais, discursarem como se não fossem um meio minoritário, com um conteúdo que, em massa, traz mais espuma do que maré.

 

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Os blogues que escrevem sobre a qualidade dos blogues recomendam-se a si próprios.
Drama Pessoal, até porque acabou de chegar, responde ao dilema da qualidade dos blogues com o que tem na sua lista de visitas recomendadas, o seu blogroll, que junta, neste momento, quatro blogues que ganharam o seu lugar no mundo.

Discussão mais vasta e ainda mais entediante que a da qualidade dos blogues é a dos males da Internet, repetição das que aconteceram quando a música popular, a rádio, o cinema, os livros aos quadradinhos, a televisão, sucessivamente, sacudiram as massas, e, parece, abateram gerações inteiras.

 

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Nós, os sobreviventes, sabemos que não há ninguém que se perca na Internet e perca todo o seu tempo a bater palmas com o macaco da pandeireta que, não houvesse Net, estaria antes a ler o ensaio «Proust», de Samuel Beckett. (a)

Doris Lessing falava das «inanidades da Internet» no seu discurso de recepção do Nobel da Literatura (sempre o mais inane), enquanto, com termos dignos, prezava a fome de livros que viu entre gente que sofre da outra, sem sacrificar a primeira, no seu amado Zimbabwe.

Esqueceu as inanidades dos livros, onde, como por todo o lado onde há gente, escorre o lixo e sempre escorreu.

Na mesma edição do Guardian Unlimited (a excelente edição online do Guardian) que publicou o discurso, o actor, realizador, escritor e divulgador artístico Stephen Fry entretinha-se a explicar as vantagens do seu browser Mozilla Firefox.

 

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Entre outras coisas, o browser permite encomendar livros que já não chegam às nossas livrarias, e cinema que deixou de chegar às salas, ou vídeo que já não passa na tv, para além da leitura do queixoso discurso Nobel.

Stephen Fry é como aquele monge budista japonês que sorri ao pulo e ao tremor da tecnologia como à montanha quieta, porque por tudo passa o mesmo vento de sempre, e ainda explica que tem uma Skuteru para não amarrotar o seu hábito, mas preferia uma Motobaiku, para correr a cavalo por entre os arrozais e ir beber chá com os crentes mais idosos e benzê-los de acordo com o ritual milenar.

Cabe aqui uma frase recente do blogue Hak Pak Sak, um dos da nossa lista, a respeito da Internet (falando da questão da greve americana dos argumentistas):

«…os media são apenas aquilo que a palavra implica, i.e., fibra óptica inerte e canos vazios, veículos para transporte de conteúdo, nada mais…» (b)
«…media are just what the word implies, i.e. “dark fiber” and “empty pipes”, vehicles for conveying content and no more…»

 

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Hak Pak Sak é um blogue sem efeitos de apresentação, dedicado a temas de política, sociedade e comunicação, história e memória, ou, de acordo com o seu lema: «Stephen Lewis escreve sobre Infraestruturas, Identidades, Comunicação e Mudança». Temos muito pouco em papel periódico que se lhe pareça (temos muito pouco em papel e em geral). Um bom começo poderá ser o artigo «Library Access, the Limits of the Web, and the Shelling of Sarajevo», um apanhado limpo e drástico da má qualidade arquivística da Internet no presente, lembrando a destruição da histórica biblioteca de Sarajevo durante a última guerra dos Balcãs.

Em contrapeso a este pessimismo informado, ou ao de Doris Lessing, há muitos blogues de leitura e de amor aos livros a consultar (uma lista do Guardian), de cunho mais pessoal, para além de sites que já são arquivos sérios dos autores a que são dedicados, como o de Walt Whitman ou o de Dante Gabriel Rossetti.

Entre os sites dedicados ao serviço do livro e ao debate do futuro da qualidade documental da Internet, que compensam aquela visão mais negativa, há o «Fob», de nome completo The Future of The Book, dedicado ao livro-objecto-de-papel, onde também se fala de tudo o que são maquinetas para o texto, como o último leitor digital, que a moda volta a dizer que é alternativa ao papel. Ali preferem perguntar se não será «mais uma marmita», porque compraram todas até agora (curiosamente, são os produtores e os vendedores que já não lhe chamam «livro digital», mas «dispositivo de leitura/reading device»). O site festejou nove anos de idade recentemente, o que, em Internet, são duas épocas.

Mas já que é óbvio que as mãos preferem o papel ao plástico, os olhos, mais fáceis de enganar, podem continuar a amar o livro através de um dos blogues visualmente mais ricos de toda a Net, e um calmo guia do mundo ilustrado: BibliOdyssey. Tirando Stephen Fry no seu sofá, todas as ilustrações deste post foram roubadas nos variadíssimos capítulos desse blogue.

 

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Para dar espaço à liberdade, fica só um parágrafo para cada um dos outros dois blogues extraordinários:

Horses Think tem um grande título, grande cabeçalho, conteúdo bem contado e sempre bem contido: belos lugares, belos objectos de arte. Estilo curto, falado. Boa companhia.

Wood S Lot é o blogue que faz acreditar na capacidade do género. Da autoria do canadiano Mark Woods, é um blogue pessoal com as dimensões de uma revista. Não fala de si, a não ser por raras fotos da natureza do seu Canadá. Recolhe amostras de leituras de reflexão estética e política, e poética, que vão seguindo o seu veio. WSL traz escolhas muito fortes de fotografia e artes plásticas, com ligações para as séries completas dos objectos, em arquivos ou galerias, ou para a História, ou histórias. Um elemento especialmente comovente é o modo como WSL vai lembrando artistas notáveis que viveram mais ou menos na sombra, ou estão na sombra do presente imediato, ou nem por isso, com uma ou outra notícia necrológica muito sóbria, uma data comemorativa, mais um retrato, um objecto que conta uma vida, um curto manifesto. O blogroll de WSL tem uma colecção de blogues capaz de atirar qualquer generalização sobre o fenómeno para o canto de qualquer café.

A urgência de um blogue, vendo bem, não é maior que a urgência do livro. As vidas continuam curtas.

[…]
O que procuro, o que neles descubro
é a visão do mundo a que assistiram
no espaço-tempo de entre ir e vir
e o regresso ao desconhecido.
O que procuro – algumas palavras
que me revelem o prodigioso
mistério aberto entre duas almas,
antes que seja tarde e a noite avance,
a morte vença de uma vez para sempre
e deles não fique senão o vislumbre.

Ruy Cinatti

[pedaço partido do poema «Os Pela Segunda Vez Nascidos», de 56 Poemas, Regra do Jogo, 1981.]

Notas

(a) Volume IV – «Poems, Short Fiction, Criticism» da edição internacional do Centenário de Beckett, da Grove Press, esgotou entretanto. Guarde o link da Book Depository, onde poderá mandar vir livros sem custos de envio para todo o mundo, mais em conta que pela Amazon.

(b) Já agora, media [diz-se /média/] é a palavra latina, igual ao plural português meios, e tornou-se o termo abrangente para dizer «meios de comunicação»; o inglês usa directamente termos do latim na linguagem oral e corrente (mais do que nós), mas usa-os com as normas de pronúncia adaptadas à sua fonética; ou seja, a palavra brasileira mídia ou a pronúncia à inglesa, por cá, são sinais exteriores de pobreza.