A emergência

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“Young people long for an emergency. An emergency that will give them values…”

Arthur Miller

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Um lema

Ah, os blogues que  prometem começar, recomeçar ou continuar. Os tempos não estão para tiradas vãs. Muito menos a respeito do teatro, que elegemos como o tema preferencial deste órgão de comunicação social e que, quanto a nós, continua a ser o pequeno sangramento, a pequena verruga ou obstipação, náusea, inchaço ou comichão que revela o cancro. O teatro não faz sentido nenhum aqui e agora, e isto ser uma evidência é que dá especial sentido e razão de ser ao mesmo teatro. Enfim, isto tudo para deixarmos aqui um lema que brotou em conversa, em saudação ao ridículo «acordo ortográfico» que muito poucos tiveram a lucidez de denunciar como mecanismo para forçar a escrita a imitar a fala, quando o seu registo tem níveis de informação totalmente alheios ao mexerico vocal – tudo em nome da utopia burocrática da lusofonia:

Não quero espetadores nos meus espectáculos.

 

Ao fim de um ano, e após quatro meses de espera por resposta a requerimento

 

 

Exmo Senhor

A Secção de Processo Executivo de Lisboa é a entidade competente para a instauração e instrução dos processos de execução de dívidas à Segurança Social, execução esta que tem por base certidões de dívida emitidas pela entidade credora – no caso em apreço o Centro Distrital de Lisboa do Instituto de Segurança Social, I.P., ou seja, não é a Secção de Processo de Lisboa que analisa a v/ conta corrente e que se pronuncia sobre a existência ou não de valores para cobrar/ executar.
Caso pretenda formalizar nova reclamação, juntando para o efeito os argumentos de facto e de direito que julgue oportunos poderá vir a fazê-lo, registando nova reclamação, que voltará a ser remetida para o Centro Distrital de Lisboa do Instituto de Segurança Social, I.P.

 

Andas na boa-vai-ela («Canção torta»)

 

 

Canção torta

 

 

Andas na boa-vai-ela
Dentadura amarela
Constantemente a raiar

Andas na boa-vai-ela
Foste nado em Portugal
E nem tudo está mal

Andas na boa-vai-ela
Dentadura amarela
Constantemente a raiar

E vais na boa-vai-ela
Prò buraco infernal
E é outra vez Portugal

 

 

poema de Fernando Boas

Poesia pequena e pequena política

 

 

Fim de campanha. No campo da «análise», todos os chavões em parada, até o da distância entre os eleitores e os eleitos. Num país de fracas elites, este lema oco passa por observação política. Neste blogue somos a favor de ainda maior distância. Quando ouvimos aquilo, só nos ocorrem os casos de intensa proximidade entre os eleitores e os seus eleitos: Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, etc.

O pior chavão coube nas palavras de uma comentadora artificiosamente penteada: «…esse é poeta, não sabe a diferença entre uma acção [de empresa] e uma caneta». O lugar-comum da poesia como incapacidade social, cognitiva, política ou científica, só fala da banalidade da ideia de poesia que lhe subjaz. Porém, eis que um credo de mau gosto literário se transforma em argumento político e de campanha eleitoral. Temos poetas engenheiros e matemáticos (e empresários). Mas apetece dizer que, em saber político e económico, Maria João Avillez está algo aquém de Elizabeth I, poeta.

 

No crooked leg, no bleared eye,
No part deformed out of kind,
Nor yet so ugly half can be
As is the inward suspicious mind.

 

Respeitinho, inho, inho

 

 

Campanha presidencial. A gente cristã escorraça um candidato à presidência da sua «festa religiosa», festa onde pode haver cueca variada, fartura e CD de baile, talvez até o telemóvel desbloqueado, mas não pode haver meia dúzia de bandeiras de uma das candidaturas menos povoadas. «Respeitinho, respeitinho, hã!?», dizem, com um ódio entredentes à festa política, longamente aprendido e já antigo. O re-candidato já tinha feito um discurso em que invocava a «falta de respeito». Em que país europeu democratizado poderia um candidato presidencial invocar o conceito da falta de respeito como coisa pertinente?

Isto não vai a lado nenhum, e drama pessoal vai tentar esquecer Portugal.

[Ao menos hoje surgiu na conversa informativa a clamorosa situação contributiva dos independentes, os dos recibos verdes, trabalhadores individuais que estão a ser taxados como se fossem empresas; proporcionalmente, mais do que as empresas, num saque que afecta tantos do teatro, gente mais cara e chegada a este blogue; «é assim que estão feitas as regras», respondem os funcionários da Segurança Social, com um gosto pela redundância burocrática que nunca acabou com o anúncio da democracia, vai para quarenta anos.]

 

Um lavatório verdadeiro

 

 

As generalidades mais instrumentais, tal como Goebbels já sabia, contaminam a realidade e instituem-se em verdade pela repetição. O princípio segundo o qual «Os portugueses vivem acima das suas possibilidades» é dos que ganharam certeza própria. Nesta foto de um apartamento «totalmente remodelado» para arrendar (T0, arredores de Lisboa), vemos que o inquilino à data da publicação do anúncio dispõe, nada mais nada menos, de três escovas de cabelo, para além de um pente. Se é demagógico supor que num T0 viverão mais do que um ou dois ocupantes, ainda assim pelo menos uma escova e um pente, ou duas escovas, ou no mínimo uma delas, estão em excesso. Também parece haver um consumo excessivo de papel higiénico.
À parte a nota sociológica, um pormenor de interesse artístico está nos dois frasquinhos, um laranja-vivo e outro verde, postos lado a lado junto ao frasco de sabonete redondo exactamente pelo mesmo critério harmónico que pôs os dois copos quadrados de loiça antes do copo redondo, da esquerda para a direita.