«O que faz falta são mensagens positivas»

 

 

«O que faz falta são mensagens positivas.» O resto cabe à erva, que é crescer.

 

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Ao fim de um ano, e após quatro meses de espera por resposta a requerimento

 

 

Exmo Senhor

A Secção de Processo Executivo de Lisboa é a entidade competente para a instauração e instrução dos processos de execução de dívidas à Segurança Social, execução esta que tem por base certidões de dívida emitidas pela entidade credora – no caso em apreço o Centro Distrital de Lisboa do Instituto de Segurança Social, I.P., ou seja, não é a Secção de Processo de Lisboa que analisa a v/ conta corrente e que se pronuncia sobre a existência ou não de valores para cobrar/ executar.
Caso pretenda formalizar nova reclamação, juntando para o efeito os argumentos de facto e de direito que julgue oportunos poderá vir a fazê-lo, registando nova reclamação, que voltará a ser remetida para o Centro Distrital de Lisboa do Instituto de Segurança Social, I.P.

 

Poesia pequena e pequena política

 

 

Fim de campanha. No campo da «análise», todos os chavões em parada, até o da distância entre os eleitores e os eleitos. Num país de fracas elites, este lema oco passa por observação política. Neste blogue somos a favor de ainda maior distância. Quando ouvimos aquilo, só nos ocorrem os casos de intensa proximidade entre os eleitores e os seus eleitos: Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, etc.

O pior chavão coube nas palavras de uma comentadora artificiosamente penteada: «…esse é poeta, não sabe a diferença entre uma acção [de empresa] e uma caneta». O lugar-comum da poesia como incapacidade social, cognitiva, política ou científica, só fala da banalidade da ideia de poesia que lhe subjaz. Porém, eis que um credo de mau gosto literário se transforma em argumento político e de campanha eleitoral. Temos poetas engenheiros e matemáticos (e empresários). Mas apetece dizer que, em saber político e económico, Maria João Avillez está algo aquém de Elizabeth I, poeta.

 

No crooked leg, no bleared eye,
No part deformed out of kind,
Nor yet so ugly half can be
As is the inward suspicious mind.

 

Respeitinho, inho, inho

 

 

Campanha presidencial. A gente cristã escorraça um candidato à presidência da sua «festa religiosa», festa onde pode haver cueca variada, fartura e CD de baile, talvez até o telemóvel desbloqueado, mas não pode haver meia dúzia de bandeiras de uma das candidaturas menos povoadas. «Respeitinho, respeitinho, hã!?», dizem, com um ódio entredentes à festa política, longamente aprendido e já antigo. O re-candidato já tinha feito um discurso em que invocava a «falta de respeito». Em que país europeu democratizado poderia um candidato presidencial invocar o conceito da falta de respeito como coisa pertinente?

Isto não vai a lado nenhum, e drama pessoal vai tentar esquecer Portugal.

[Ao menos hoje surgiu na conversa informativa a clamorosa situação contributiva dos independentes, os dos recibos verdes, trabalhadores individuais que estão a ser taxados como se fossem empresas; proporcionalmente, mais do que as empresas, num saque que afecta tantos do teatro, gente mais cara e chegada a este blogue; «é assim que estão feitas as regras», respondem os funcionários da Segurança Social, com um gosto pela redundância burocrática que nunca acabou com o anúncio da democracia, vai para quarenta anos.]

 

A Cruzada da Caridade

 

 

Passou o Natal, todo dedicado pela comunicação social popular à grande Cruzada da Caridade (posta de parte toda a análise das tiradas acácias do autocrata que quer ser reeleito).

O Banco Alimentar é que está a dar.

Os simpáticos escuteiros da mercearia de emergência estenderam por todo o lado os seus saquinhos, para recolherem os uísques e aguardentes de estágio prolongado, os conhaques, os presuntos, as trufas, os caviares. A alegria por esta jornada compensatória de uma distribuição da riqueza digna de uma democracia foi quase comovente, e contagiou até muitos dos despromovidos sociais mais recentes. O pobre preferirá sempre o impacto do sentimento ao abstracto do rendimento.

Dar é bom (não é?).

O assalto pelas «agências de comunicação» aos conteúdos informativos, por meio de antigos jornalistas tornados vendedores, continua sem ser notícia. A venda de espaço informativo imita a venda do espaço de exposição no mercado: na têvê, uma «especialista» da Corporação Dermo-histérica tem vinte minutos para desbobinar conselhos ao nível do senso-comum mais elementar «para nos ajudar a eliminar os excessos deste Natal». Digerir e defecar não basta. Dar também não. A mulher disse o nome da empresa sempre que pôde, o que na forma publicitária normal seria cobrado ao segundo, e naquela forma ofende um preceito jornalístico básico e até há pouco universalmente respeitado.

É um tempo de balanços. As referências ao avanço civilizacional acabaram sempre com as mesmas duas palavras: feicebuque, tuíter. Um antigo ministro feito conversador televisivo definiu as novas tecnologias com uma lista de produtos de uma só marca: ipod, ipad, iphone. As cabeças já nem sabem o que emitem. Entretanto, os pássaros caem dos céus aos magotes, provavelmente atingidos por vagas de 140 caracteres.

 

[o resto do artigo foi oferecido à caridade]

 

[nota à cabeça]

Este blogue não segue o novo «acordo» ortográfico; escrevemos tal como aprendemos; a escrita não tem nada que imitar a fala, as falas; entre a proximidade ortográfica com o novo mapa tropicalizante ou com as grandes línguas da Europa e da América do Norte (óptimo [PT-pt/CAST] / optimal [ING/us-gb-can] / optimale [FR/ALE]), preferimos continuar em terra firme; os sinais ortográficos carregam história da língua; são sinais que interessam à operação mental da leitura e chamam nexos que são exclusivos da massa escrita e da sua peculiar construção de sentidos. Além disto, os que propagandearam o acordo usaram demasiadas vezes o odioso termo «facilitar».

Insónia e marcha (caminhada nocturna)

 

caminhadanocturna

 

Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.

 

foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas