Sem Sol (adeus Chris Marker)

Não vale a pena resistir a transformar um blogue num obituário. (Não houve quem provasse com cálculo que o próprio Facebook não tardaria a transformar-se num cemitério? – hão-de resolver isso, com um botão R.I.P. que minimiza desaparecidos; mas quem cuidará das suas hortas?)

Chris Marker deu com François Truffaut na rua. Reconheceu-o de vista como um habitual dos serões de cinema de Paris. Truffaut não pediu ajuda. Andava fugido do serviço militar. Mas Marker (pseud.) reparou no calçado gasto sem meias. E tratou de encaminhar o rapaz.

foto: Chris Marker, Sans Soleil (1982)

Anúncios

«O teatro é mais honesto» (Manoel de Oliveira)

 

 

«Hoje tenho uma ideia muito diversa da de antigamente. Neste meu último filme, Angélica, até mudei um pouco as ideias do que estava para fazer; foi mais por imposição e interesse do produtor que eu me atrevi e adaptei o filme à realidade. Mas, enfim, porque na verdade a gente chega a estas conclusões, a máquina de filmar… O teatro é mais honesto que o cinema, porque o cinema filma sonhos. Ora a máquina de filmar não pode filmar sonhos, a máquina de filmar não pode filmar pensamentos. No teatro nunca se representa um pensamento, nunca se representa um sonho. O actor chega ao palco e diz “eu sonhei isto e aquilo”. Se é verdade ou mentira, não se sabe. Ou então diz “eu pensei isto ou aquilo”, porque isto não se filma. Por essas razões, mudamos a ideia do contexto do cinema, e por isso acho que o teatro é fundamental. E, para mim, a expressão mais rica é a literatura. Lembro-me de que na Guerra e Paz, um sujeito quando estava para morrer – estava ferido, depois acabou por ficar doente -, estava preocupado em saber o que é a morte. Porque era uma porta por onde ele não entraria. Olhou lá para o fundo da sala e vê uma porta, e diz “Ah, é uma porta.” E eu achei isto admirável: a morte é uma porta. No mundo material, a porta dá para o cemitério. No mundo espiritual, a porta dá para algum lado, ou não.»

 

Entrevista ao Diário de Notícias

 

(Repare-se como, nos comentários à entrevista, na página do jornal, os que objectam ao gasto público no cinema se revelam bem instruídos pelo mesmo manual; dois deles chegam a usar, no seu par de curtas linhas, exactamente as mesmas duas expressões: «contribuintes» para si e para a sua voz colectiva, e «caprichos» para os filmes feitos.)

 

Tarantan

Bananas

Tarantino acha que não seria possível fazer hoje The Dirty Dozen (boa prosódia «pulp», a do título português Doze Indomáveis Patifes). Porque já não há aquele género de actores. Ernest Borgnine. Charles Bronson. Homens a sério. Porque os actores de agora são macios, diz.

Não nos parece prestável o que Tarantino tem feito depois de Jackie Brown, muito menos a convicção que tem de ter “crescido e superado” Godard (mas quem lhe disse que seria capaz de crescer nessa direcção?). Vale na última entrevista ao Guardian o elogio à escrita de Joseph L. Mankiewicz, mesmo se feito à custa de toda a escrita do teatro americano (quem nos dera este tipo de jactância teatral, num meio em que nem os parzinhos de parágrafos das revistas de agenda de espectáculos conseguem ter alguma energia oral, ou conseguem crescer e superar os limites da mera multiplicação do óbvio, para não falar nos limites imaginativos e retóricos da escolaridade obrigatória). Ao menos algum tarantan:

«He could have held the script for All About Eve up against every play ever written for the American stage and said, ‘Suck my dick!’ – It’s that good.»

via Guardian

 

Adeus Vasco Granja

 

Vasco Granja morreu anteontem de madrugada, com 83 anos. A arte do obituário é uma coisa patética, mas a morte de mais um educador artístico não deve deixar-se cair.

Durante anos, uma das polémicas artísticas deste país, talvez a maior, a que formou gerações, foi em redor da escolha de filmes de animação de V.G. para os seus programas: sobre se devia pôr no ar mais filmes da Warner Brothers, da série Looney Tunes, de montagem rápida, banda sonora estridente e humor de choque, ou se tinha o direito de insistir no material de outros mestres, como o checo Jirí Trnka, ou o canadiano Norman McLaren, entre tantos.

 

synchromymp4_000041065

 

Os filmes da Warner já tinham saída na transmissão corrente, e já tinham formado o gosto dominante, aquele mesmo que se alimenta dos filmes-de-acção & catástrofe-com-chacota de um Bruce Willis, ou infinitas variantes dessa variante. O próprio Vasco Granja brincava com a sede de muitos espectadores pelos brinquedos ruidosos, extraordinários, diga-se, mesmo quando apostavam no mecanismo tão televisivo da rotina cómica com estreita variação.

Mas até esses filmes caíram vítimas da psicologia popular de reacção piedosa à «violência» na tv. Nós aqui achamos mais violento que um champô prometa «biovitaminas», e «alimente» o tecido morto do cabelo directamente. Nós aqui só aprendemos com aquela que foi talvez a única sequência sem fuga histriónica de toda essa cinematografia, a famosa noite de insónia do gato Silvester/Silvestre, um momento de Kafka-para-todas-as-criancinhas, que o avô Granja apreciava especialmente.

Não sabemos se Vasco Granja morreu com a mesma sensação de dever cumprido de Mel Blanc, pai da voz de Bugs Bunny & outros, que deixou no seu próprio epitáfio a legenda final desses filmes: That’s All Folks! – ao mesmo tempo uma espécie de «manguito» existencialista.

 

synchromymp4_000286166

synchromymp4_000286433

 

Mas sabemos que muitos lhe estão gratos como nós. Por ter aberto o ponto de vista, algo de que hoje a nossa televisão foge a sete pés (… eis uma figura animada). Porque, dizem os seus donos, «não têm nada que educar as massas». Nesta fórmula, que F.P. Balsemão usou, está escondido, curiosamente, o eco talvez involuntário de uma caricatura de Vasco Granja, vinda do tempo da guerra fria, de quando o divulgador era visto, sempre com uma bonomia pálida, como uma «espécie de embaixador dos países de Leste».

Por isso escolhemos agradecer especialmente a Vasco Granja a descoberta do insuspeito canadiano Norman McLaren, músico e desenhador, a cujos filmes sonoros, baseados exactamente no mesmo princípio jazzístico dos Looney Tunes, dedicámos uma parte do dia de ontem. No Youtube é possível ver o enérgico «Sinchronomy», bem como «Sinchronomy on Mars» ou «Lignes Verticales/Lines Vertical».

 

synchromymp4_000394033

synchromymp4_000394166

synchromymp4_000394566

Imagens do filme «Synchronomy», de Norman McLaren.

 

Sexta-feira 13, dia de namorados

 

Amanhã, festeja o rebanho. Hoje, e quando calha, tantas vezes quando não calha mesmo nada, festejam os outros. Festejam é como quem diz. Muitos acham que palavras como «amor» têm um sentido muito claro. É porque não sabem nada de Linguística, disciplina sócio-científica que nos diz que as palavras mais usadas de uma língua são, por isso mesmo, as mais ambíguas, i.e., mais polidas de algum depósito de sentido, e mais facilmente conformadas aos muitos pequenos círculos em que são usadas. Círculos muito pequenos, tantas vezes.

hotel-chevalier-01

Para o dia da colectivização da intimidade, escolhemos uma curta-metragem que alguns ainda não viram, felizes de frescos. Podem ir a Zinnaglism, se quiserem perder a frescura.

 

– Have you slept with anyone?
– No. Have you?
(pausa)
– No.
– That was a long pause.
(silêncio)
– I guess it doesn’t really matter.
– No it doesn’t.

[…]
– If we fuck, I’m gonna feel like shit tomorrow.
– That’s okay with me.

 

hotel-chevalier-02
Hotel Chevalier, de Wes Anderson, com Natalie Portman e Jason Schwartzman (12:59).

 

O Natal dos Hotéis

[revisto]

 

Artigo 1.º

Definição de jornalista

1 – São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.

2 – Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.

[…]

natal

—————————

Natal é tempo de televisão, e o meio quase monopolista de recreio artístico e informação entre nós enche-se de mais luz nesta quadra. Porém, o modo estrondoso como a tv cedeu completamente a quem a financia não é notícia, pela mesma razão por que o aspirador não se aspira a si próprio.

O modo paupérrimo como a tv local reflecte a arte e o espectáculo, mesmo o cinema – servindo valores de popularidade gerados pela própria programação televisiva, com seus critérios de fama e estrelato directamente equivalentes a critérios da análise de mercado (o canal público já começou a usar o termo “audiência” como sinónimo de “público”, quando fala de espectáculos ao vivo) – já nem sequer serve a presunção de base da tv de que é capaz de reflectir qualquer recanto da vida pública.

Com que se espanta o pobre? Das quatro pinturas que foram roubadas na Suíça, em Fevereiro, na Fundação E. G. Bührle, tudo o que os apresentadores noticiosos locais foram capazes de dizer para impressionar o vulgo (e a si próprios) em relação ao roubo foi o valor estimado (o valor monetário segurado) de duas das telas perdidas. Monet, Van Gogh, Degas e Cézanne não impressionam. Os irrelevantes (e meramente formais) milhões do capital seguro, esses espantam e exprimem valor. A quase imediata recuperação de “Campo de Papoilas em Vétheuil“, de Monet, e de “Ramos de Castanheiro em Flor“, de Van Gogh, bem como o continuado desaparecimento de “Ludovic Lepic com as Suas Filhas” e “O Rapaz do Colete Encarnado“, de Degas e Cézanne, respectivamente, já nem sequer tiveram seguimento, ao menos no momento da primeira recuperação.

Nada vos preocupa, porque nada vos comove.

Supõe-se que a esta desatenção pela grande dimensão artística se deverá a um critério relativo de prioridade noticiosa: é preciso mostrar as urgências do presente.

Mas tal proporção nunca existe. Os relances cinematográficos da violência ou instantâneos do palco político mundial recebem o mesmo tratamento das notícias da aldeia: mais uma camioneta fora da estrada, uma junta de freguesia indignada, um mau cheiro na praça, um ministro agastado, um esquilo que dança. Um parágrafo para cada. (Dois para o esquilo).

natal-02-blogue_dramapessoal

Resta o enorme tempo concedido a uma actividade altamente duvidosa à luz da ética profissional do jornalista, a chamada “informação comercial”, que dantes, quando os jornais contavam, era claramente demarcada, tanto que as revistas ainda a demarcam – não a televisão.

Então, temos profissionais com carteira de jornalista, e com o entusiasmo de uma infância reencontrada, a mostrarem um estúpido dispositivo para um jogo de pesca virtual lá em casa, ou a “avaliarem” um carro repetindo à letra a lengalenga acariciadora dos folhetos do fabricante (e percorrendo as mesmas estradas vazias escolhidas pelos anúncios do produto, por onde o produto nunca circulará).

Para que falarão do melhor das artes, estes servidores da sua empresa de fornecimento de exposição televisiva, e defensores acérrimos do seu posto de trabalho? Qual seria o retorno para a empresa, se buscassem o que já nem pessoalmente lhes interessa? (Estamos a supor, exageradamente, que os repórteres debatem critérios de edição).

O jornalismo faz-se agora de acordo com um critério totalmente invertido, o mesmo critério do entretenimento de massas e da publicidade pura e dura: é notícia aquilo que a redacção fornecedora supõe que serve o desejo de consumo (não de “informação”, rarefeita e redundante, mas, em abstracto, de televisão, e, pela natureza do género, dos produtos e serviços associados). É notícia tudo o que servir este círculo de ganho empresarial e satisfação da curiosidade de consumo (e este serviço frequentemente pago é coordenado por empresas que pertencem a, ou empregam, “ex-jornalistas”, que produzem material com padrões sazonais de actualidade: a funerária com um serviço inovador; o ginásio com ofertas únicas; o tratamento revolucionário exclusivo de uma clínica; o que as crianças mais querem). É notícia a própria televisão (ao ponto de os canais terem notícias só suas: os seus próprios desmentidos da vida íntima das estrelas, os seus próprios eventos nacionais, os seus próprios furos políticos, geridos pelos seus próprios comentadores políticos).

Quem discute, entre nós, esta escandalosa mudança na prática jornalística? – que faz negociar-se a matéria informativa exactamente da mesma forma que se negoceia o espaço de prateleiras nos mesmos hipermercados e shoppings que a televisão ama como seus iguais (“Vem ao centro comercial porque é mais prático, porque há mais variedade, por causa da qualidade e dos serviços, ou um pouco por tudo isto?” – pergunta típica de jornalista de Natal).

“O consumidor está cada vez mais farto de telemóveis cheios de botões”, é uma frase que recordamos sempre, articulada por um profissional da informação, no momento em que segurava um novo produto com a extrema funcionalidade de não ter os intuitivos botões. Um profissional da informação não é capaz de franzir o sobrolho a uma falsidade estatística tão cómica? Que entidade multifacetada é esta, o Consumidor, cujas faces este jornalista parecia conhecer pessoalmente?

Uma sondagem inventada, em troca da venda de mais algumas centenas de telemóveis inflacionados?

Ficamos por aqui, com o lema escrito e falado de uma detalhada peça jornalística de Natal que conseguiu encapsular, ao mesmo tempo, a absoluta venalidade da profissão informativa actual e, paradoxalmente, a sua total indiferença à realidade:

“As famílias portuguesas procuram cada vez mais [os] hotéis de luxo para a ceia de Natal.”

 

—————————

Artigo 3.º

Incompatibilidades

1 – O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de:

a) Funções de angariação, concepção ou apresentação, através de texto, voz ou imagem, de mensagens publicitárias;

b) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de planificação, orientação e execução de estratégias comerciais;

—————————

artigos estatutários in Estatuto do Jornalista, n’O Sítio do Sindicato dos Jornalistas

fotos dramapessoal

 

Ou Realismo Popular ou Cinema

 

youngromance

– Não me digas que estás a começar a gostar do Gonçalo.

– Eu? Estás louca? Só faço isto porque me dá gozo.

– Humm. Não sei, amiga.

– Ouve lá…

 

Parabéns Manoel de Oliveira.

Um Aniversário solidário.

 

Nenhum Sexo Ontem à Noite

 

 

 

A maior parte do tempo a direito, entre entrepostos de serviço automóvel, de serviço de restauração e bebidas, de serviço de alojamento nocturno, e de serviço matrimonial, para um gesto de ficção, ou chamemos-lhe fantasia, conforme a escola estética.

Sigamos Sophie Calle e Greg Shephard a encenarem os bastidores de uma relação, nos bastidores de uma América menos iluminada (filme que teve conversão de DV8 para 35 mm e relançamento internacional com estreia portuguesa pela mão do produtor Paulo Branco, ocasião em que mudou de nome, de Double-Blind para No Sex Last Night).

 

Ligação ao fundo.

Disponível em Ubuweb.

 

Opiário

[revisto]

Quem pesquisar games waste of time vai encontrar enormes quantidades de sugestões de um género particular de jogos electrónicos, ultra-leves, que se gabam de fazer desperdiçar o tempo eficazmente.

 

 

As velhas fotografias dos pavilhões de ópio do século XIX, cheias de homens (e mulheres, nas salas e caves clandestinas de Nova Iorque e São Francisco, ou Sidney) de olhos vidrados, em posição fetal, não tombaram no passado. Estão aqui, com a sua aura e vórtice de fibra óptica.

A caminho de ver um amigo há muito distante, com quem tínhamos partilhado um concerto do guitarrista norueguês Terje Rypdal, fomos procurar um disco do músico na FNAC, de passagem.

Ali, o cinema e a música estão a sofrer uma razia de quantidade, e o desastre, na escolha e ordem. A mostra passou de fraca a aleatória. Os discos de cinema e os de música e vídeo musical migraram e juntaram-se, e a maior clareira é agora dedicada aos jogos de computador e às suas máquinas caras.

A loja que engoliu as outras lojas está confusa. Assente a moda de que os suportes materiais de música e vídeo podem ser substituídos pelo fumo do tráfego digital (e fugidos muitos dos que não pensam assim para a encomenda directa, ou para uma ou outra pequena loja temática) o grande retalhista parece acreditar que pode vender mais jogos em suporte físico. Será por pouco tempo.

Evaporados os narcóticos jogos para o trânsito virtual, vai sobrar muito espaço na loja. Ficarão só as máquinas. Depois trazem-se uns tapetes, e umas enxergas e colchas, para conforto dos experimentadores dos terminais e suas miragens de fogo, vertigem e repetição. Depois umas cortinas, contra a crua luz do dia…

————-

 

(Este texto acabou por ser escrito num dia obscuro em que nos perdemos no labirinto da loja em questão e acabámos por imaginar que a secção de cinema era ainda mais pequena do que de facto é. Mas, também de facto, está mais pequena do que já foi. Nos dias obscuros cai-se para fora da rotina, e pode ver-se a sombra que o presente larga para diante. Enfim. Comprámos um disco: de Rabih Abou-Khalil: “em português“, do músico libanês com o fadista Ricardo Ribeiro, & Luciano Biondini, Michel Godard e Jarrod Cagwin; Enja Records, 2008).

 

Por razões que já não recordo

 

Regressamos muito à autobiografia de Luis Buñuel, O Meu Último Suspiro, um tratado das tropelias da criatividade de grupo, e dos limites da vida e do espectáculo, ou entre ambos. Teve uma edição portuguesa, que hoje se perderia entre novelas de mulheres árabes sofredoras, folhetos de auto-ajuda com receitas místicas e dietéticas, manuais de assassínio comercial e romances portugueses no mau sentido dos dois termos.

Temos falado pouco de teatro. Mas a melhor maneira de falar dele é cada vez mais não falar muito.

«… Quanto a La Mort En Ce Jardin, recordo-me sobretudo de problemas dramáticos em relação ao argumento, o que é a pior das coisas. Não conseguia resolvê-los. Muitas vezes, levantava-me às duas horas da manhã para escrever, durante a noite, as cenas que entregava a Gabriel Arout para que ele me pudesse corrigir o francês. Tinha de rodar essas mesmas cenas no próprio dia. Raymond Queneau veio passar quinze dias ao México para tentar, em vão, ajudar-me a sair desta alhada. Recordo ainda o seu humor, a sua delicadeza. Ele nunca dizia: «Não gosto disto, não é bom», mas fazia sempre começar as suas frases por um: «Pergunto-me se…»

Ele foi o autor de uma descoberta engenhosa. Simone Signoret, no papel de uma prostituta que vive numa pequena cidade mineira onde já tinham ocorrido distúrbios, está a fazer as suas compras numa mercearia. Compra sardinhas, agulhas, diversos produtos de que precisa, e, depois, pede um sabão. Nesse momento, ouvem-se os toques de corneta dos soldados que vinham restabelecer a ordem na cidade. Ela muda de repente de opinião e pede cinco sabões.

Infelizmente, por razões que já não me recordo, esta curta cena de Queneau não pôde figurar no filme.

Julgo que Simone Signoret não tinha qualquer desejo de fazer La Mort En Ce Jardin, preferindo ficar em Roma com Yves Montand. Tendo de passar por Nova Iorque a caminho do México, ela introduziu ostensivamente no seu passaporte documentos comunistas, ou soviéticos, na esperança de que as autoridades americanas a mandassem para trás – no entanto, deixaram-na passar sem qualquer comentário.

Como se mostrou bastante turbulenta durante a rodagem do filme, distraindo os outros actores, um dia pedi ao chefe maquinista que pegasse numa fita métrica, medisse uma distância de cem metros a partir da máquina de filmar e instalasse a esta distância os lugares dos actores franceses.

Em contrapartida, graças a La Mort En Ce Jardin conheci Michel Piccoli, que se tornou um dos meus melhores amigos. Fizemos cinco ou seis filmes juntos. Gosto do seu sentido de humor, da sua generosidade secreta, do seu grão de loucura e do respeito que nunca me tem.»

 

Signoret & Piccoli, La Mort En Ce Jardin