Há mais mundo
Julho 1, 2009

Há uns dias, parece que morreu
«o maior artista de todos os tempos de todo o mundo».
Hoje relembramos, com alegria e tristeza, que há mais mundo.
Estranhamente, é perfeitamente aceitável para qualquer taxista, qualquer empregado de mesa
Junho 24, 2009
Este vídeo é falso, não liga. O de baixo também é totalmente falso.

Entrevista completa, no jornal Guardian
[texto do Guardian] Gilbert e George nunca casaram, preferindo, dizem, «viver em pecado». «Queremos ser esquisitos normais», diz George. «Não queremos estar informados, como toda a gente está, porque nesse caso não teríamos nada para dizer». A orientação política de George parece brotar do mesmo impulso: «Eu não sou nada, mas o George é Conservador», diz Gilbert. «Estranhamente, isso é perfeitamente aceitável para qualquer taxista, qualquer empregado de mesa, mas não no mundo da arte», diz George. «Para eles, a esquerda é bom. E a arte é esquerda». Gilbert acrescenta: «Eles acreditam na igualdade. Nós não. Nós queremos ser diferentes».
[Estranhamente para qualquer taxista, a foto do artigo foi trocada, de uma que mostrava os artistas a fazerem o icónico boca-a-boca-dos-dedos para outra com ambos perfilados, no icónico duelo de gravatas e fatos, até ser substituída pelo vídeo com que fizemos este jogo gráfico rudimentar.]

Números
Junho 21, 2009
Recebemos um e-mail de uma amiga com uma foto de outra amiga. Algures no bairro da Graça, em Lisboa.

A responsável da Educação achou que os números dos exames eram óptimos, embora não soubesse quais eram os números. Embora ainda não soubesse que não se trata de números. Não leu aquele jornal inglês que dizia que, na Europa, há três maneiras de tratar os números da educação.
A primeira é fazer como os ingleses: apresentar os números verdadeiros e falsificar nas desculpas. A segunda é fazer como os italianos: falsificar os números. A terceira é fazer como os gregos e os portugueses: falsificar o sistema para conseguir os números certos.
A Sociedade Portuguesa de Matemática respondeu aos números: pôs miúdos a fazerem os exames dos anos seguintes ao seu nível, com resultados integralmente positivos. Segundo um professor envolvido no estudo, as provas actuais estão armadas com um mínimo de perguntas de matéria não estritamente matemática, de senso-comum e lógica ao nível do senso-comum, para garantir um nível mínimo positivo.
No meio da confusão, os putos é que são números. Os putos ardinas, como o do boneco, treinavam com os trocos, e não era mau, quando havia trocos.
Eu sou a minha mãe
Junho 17, 2009
Uma das fraquezas da ficção dramática popular, para além do maniqueísmo católico que racha a sua colecção de tipos básicos em dois grupos, os justos e os perversos (há um terceiro grupo, o dos figurantes, parte dos quais falam), é a falta de um elemento de escrita que no teatro romântico dava pelo nome de «grande deixa»: a tensão de uma cena resolvida numa fala, ou numa riposta a uma fala.

O novaiorquino Thomas Prusik-Parkin foi recentemente forçado a levar à cena da sua própria vida este recurso estilístico, e fê-lo com eficácia. Foi acusado de falsificação de documentos, fraude, uso de falsa identidade, e etc, depois de ter usado peruca, vestido, maquilhagem e óculos escuros para se fazer passar pela própria mãe, falecida em 2003, e poder receber, em nome dela, cerca de 115 mil dólares em benefícios sociais e subsídios de renda.
Quando foi preso, declarou às autoridades: «Segurei a minha mãe nos meus braços enquanto morria, e respirei o seu último suspiro. Portanto, eu sou a minha mãe».
Insónia e marcha (caminhada nocturna)
Junho 13, 2009

Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.
foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas
Tudo de férias
Junho 8, 2009

A flagelação (também conhecida como auto-flagelação) é um passatempo nacional em que não gostamos de ter grande parte. Mas…
Mas que país curto o do chamado rescaldo das eleições. A retórica notarial do idoso precoce que «ganhou» as eleições, as outras vitórias todas, os discursos de junta de freguesia nacional, as previsões, oh, as previsões, os hotéis vazios, os jovens, os agradecimentos aos jovens, a festa, enfim, por um milhão e cem mil votos, a conta de uma vitória numa cidade europeia média. E a lírica de: «É jota, é dê, é jota-ésse-dê».
Ser-se Natural
Junho 4, 2009
«O ser-se natural é simplesmente uma pose, e uma das poses mais irritantes que conheço».
A entrada anterior poderia ter sido substituída por esta, do manuscrito de «Frases e Filosofias», que Oscar Wilde tanto apreciou que ofereceu ao seu Lorde Henry, de O Retrato de Dorian Gray. Curioso é como um princípio que opõe a verosimilhança cénica à «naturalidade» apareça sob a forma de uma regra de postura no convívio social, num fingimento que transforma a etiqueta na arte cénica por excelência, e, por implicação, todo o «realismo» numa falta de regra, ou quando muito, numa insolência simples. O que Wilde sabia bem, e alguns da cena fingem que não sabem, é que a representação dramática se move sempre, quer se queira quer não, num palco social mais-que-verdadeiro, sejam quais forem os efeitos oferecidos ao estimável público: a naturalidade é um preceito estético da classe-média, tanto quanto o teatro urbano português é uma arte de classe-média, e mais do que nunca quando não se toma como tal. E, já agora, nada há mais classe-média do que a ansiedade de verificar e medir a relação da arte com o dinheiro público. Nada mais propenso à imaterialidade e à fraude do que a mais-valia artística. Enfim, a classe-média, por definição, lida mal com imaterialidades: financeiras, estéticas, morais.

O Artifício Agradável
Junho 2, 2009

No teatro, ou noutras artes, eis o que muitos ignoram e Boileau já sabia, à sua maneira, no auge do neoclassicismo francês. Que:
………………………………………. o artifício agradável,
Do mais afrontoso objecto, faz um objecto amável.
(Boileau, Arte Poética, Capítulo 3)
Todas as épocas têm o seu catálogo de tiques estéticos, que fornecem a público e artistas as suas fugas satisfatórias. E, em larga medida, as épocas artísticas constroem a sua segurança vilipendiando os tiques das épocas passadas (mas não vencidas). Os tiques de muitos de agora, em cena, tendem para o inverso do que Boileau acreditava, e certos actores sabem melhor correr (sim, em palco) ou cuspir, ou mastigar impropérios, do que articular completamente, ou, já agora, projectar com rendimento, ou, agora ainda, estar.
Ou seja, a voga presente tende para a convicção de que o artifício desagradável (para usar os termos de Boileau) faz de todo o objecto amável o afrontoso objecto procurado.
Pormenor de livro exposto no escaparate da Livraria Sá da Costa,
Chiado, Lisboa, com alegoria de louvor a Boileau
(elástico que prende a página à vista, à esquerda).
Queres saber
Junho 1, 2009

Imenso tempo
Maio 31, 2009

Londres. Piccadilly. Por Chalmers Butterfield.

São dez para a uma. Belo dia.

Sempre que olhamos para ele, a mesma certeza. Tem imenso tempo.
fonte: Wikipedia – foto kodachrome de Chalmers Butterfield.
Normal surreal
Maio 23, 2009

Num dos caminhos da Internet que vão dar a nenhures, soubemos que um dos muitos jornalistas-romancistas de tv, ou romancistas-jornalistas de tv, foi afectado por uma pleuresia. O golpe de realidade – que classificou como «Uma coisa chata e morosa» (com termos idênticos àqueles um colega descreveu o sentimento dos que ficaram fechados no Metro, parece que «indignados e chateados») – recebeu dois comentários numa página de Internet anexa a um jornal gratuito. Enfim, duas pessoas dispensaram minutos dos seus dias (com um mês de intervalo) para fazerem como nós aqui, mas num canto de uma de infinitas páginas de um jornal que se oferece nos corredores do Metro real e virtual.
Que emoções trazem consigo, quando se dedicam a registar nessa espécie de imensa parede pública?
* Olá [Nome].
Desejo que esta fase má da sua vida passe depressa e que regresse rapidamente (com mais calma) aos telejornais da TVI e restante actividade profissional.
Acredite que o telejornal da TVI não é o mesmo sem si.
Rápido restabelecimento e acredite que há mais coisas para além do trabalho…
Um abraço solidário
Isabel Cruz
MARIA ISABEL CRUZ | 12.05.2009 | 18.17H | DENUNCIAR COMENTÁRIO
* Olha, aproveita e lava a cabeça!…
JFK | 14.04.2009 | 15.34H | DENUNCIAR COMENTÁRIO
Olhos no céu, olhos no chão
Maio 16, 2009

A Vénus das pastagens pedregosas foi ao encontro do tótem de betão. Mais uma vez, 1959 proporcionou bonitas imagens e encantadoras comparações. Na ocasião, Blaise Pascal soa óbvio e pedagógico, para além de pouco amigo de Portugal: L’esprit croit naturellement, et la volonté aime naturellement; de sorte que, faute de vrais objects, il faut qu’ils s’attachent aux faux. Ainda assim, o rapaz prefere buscar chão seguro antes de acolher a luz da fé, sob a forma do disco solar observado através do filtro da condensação atmosférica, até ao ponto de verificar-se o traumatismo da retina na área de mais prolongada exposição à radiação excessiva, por sua vez sentido como mancha visual neutra, em aparente movimento, ao ritmo da rotação ocular.
«Um ar inocente, ácido» (Mário Cesariny)
Maio 15, 2009
mágica
É uma estrada no céu silenciosa
um anão sem ninguém que o suspeite
é um braço pregado a uma rosa
um mamilo escorrendo leiteSão edénicos anjos expulsos
sonhando quietude e distância
são homens marcados nos pulsos
é uma secreta elegânciaSão velhos demónios ociosos
fitando o céu bailando ao vento
são gritos rápidos, nervosos
que destroem todo o pensamentoÉ o frio deserto marinho
operando na escuridão
é o corpo que geme sozinho
é a veia que é coraçãoSão aranhas jovens, pernaltas
arrastando embrulhos para o mar
são altas colunas tão altas
que o chão ameaça estalarSão espadas voantes são vielas
passeios de todos e nenhuns
são grandes rectas paralelas
são grandes silêncios comunsÉ uma edição reduzida
das aras da história sagrada
é a técnica mais proibida
da mágica mais procuradaÉ uma estrada no céu silenciosa
por um domingo extenso e plácido
é um anoitecer cor de rosa
um ar inocente, ácido
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Parece que «Fátima não é varinha mágica para a resolução de todos os problemas», nas pobres palavras de um bispo. Ocorreu-nos, para fugir àquele vento de desolação imaginativa, um par de objectos muito mais videntes, de dentro e de fora da fé: a Maria de Pasolini, e «mágica», de Mário Cesariny.
Poema do livro Manual de Prestidigitação, Assírio & Alvim.
Meus amiguinhos
Maio 9, 2009

Nos nichos de um urbanismo tantas vezes absurdamente inclemente para com a memória e os seus animais, a natureza faz por não esquecer os seus hábitos mais disciplinados. O ninho de andorinhas que o Zé acompanhou este ano, no fundo de um saguão do século XIX, serviu desta vez três irmãos. Os fios que se notam são cabelos humanos, colhidos nos salões de coiffure da zona.


À espera que a Staples de Alfragide abrisse, eram 9:30 de um sábado recente, fomos ver o quadro natural nas fendas da que é hoje uma zona industrial e comercial tipicamente sobrelotada. O cheiro a contágio fecal e fosfatos não consegue destruir alguma paz harmónica. A posar para a fotografia do desfiladeiro fabril da ribeira de Algés, acima, descobrimos um amiguinho a tratar do pequeno-almoço.

fotos dramapessoal
e (ao alto) JGF.
a imagem ao fundo é um pormenor.
