Precisamos cá de gente

Janeiro 26, 2010

 

 

O jornal Público deu voz à indignação dos que querem vir todos os dias de carro para o centro de Lisboa, na ocasião do anúncio pela empresa municipal de estacionamento de que irá arrancar, ao fim de décadas, uma amostra de ordenamento e restrição do volume de trânsito no centro. As opiniões, como é costume entre nós, engarrafam todas no mesmo sentido. Em sentido contrário, e de temperamento perfeitamente estacionado, agradou-nos a opinião de Ramiro, de Tibaldinho, Mangualde:

 

pagar

 

É pagar e acho muito bem. Se querem trabalhar na capital com salários melhores já têm condições para isso. Se não quiserem pagar venham para a minha aldeia, tem lugares com fartura, à sombra, e precisamos cá de gente.

 

 

 

“First you snub it, then you glug it.”

 

 

parece pouco mas não é; tradução para inglês da frase de promoção da Coca-Cola, por Fernando Pessoa, 1928; copyright dramapessoal

 

O sol da tarde

Janeiro 11, 2010

 

 

 

O aquecimento central marcava 24 graus. Mas sentia-se o frio na pedra, e pelos cantos. De sexta para sábado, podia-se ouvi-los perto da casa, em movimento, na noite gelada. Chegaram a banhar-se no arrozal. De manhã cedo, a geada cobria a erva. Aqui seguiam juntos para as terras mais altas, onde receberam o sol da tarde.

 

foto dramapessoal, Alcácer do Sal

 

 

 

Enquanto estivemos fora, o país mudou. Ontem mesmo, um casal e dois menores tiveram de ser realojados por causa de enxurradas. Parece que uma mulher também ficou ligeiramente ferida num choque em cadeia. Em Guimarães, uma pequena parte do tecto de um café ruiu, confirmando os piores receios de pelo menos um dos empregados. O rio Tua transbordou e cobriu um cais. Os patos tinham-no pressentido. Uma árvore de grande porte caiu em cima de uma casa, destruindo completamente um automóvel. No local, todos concordaram que alguém tem de ser responsabilizado.

 

 

 

 

 

Com chave mutável
abres a casa em que
vagueia a neve daquele que foi silenciado.
Conforme o sangue que te brota
dos olhos, da boca ou dos ouvidos,
muda a tua chave.

Muda a tua chave, muda a palavra
que pode vaguear com os flocos caídos.
Conforme o vento que te empurra
assim aumenta a neve em torno da palavra.

 

 

 

foto: the Guardian
da tradução de João Barrento e Y.K. Centeno
(com uma alteração)

 

Vimo-lo num peru assado do jornal Guardian, por exemplo.
Como diz o chavão da televisão, não deixa de ser preocupante.

 

 

 

Estamos a par

Dezembro 14, 2009

 

 

Estamos a par do nosso longo silêncio. Estamos a par.

 

 

no secrecy in art

Temos estado ocupados. A nossa desculpa para a ausência fomos buscá-la a William Blake, pela mão do desenhador Robert Crumb, na sua Art & Beauty Magazine (Taschen). Reflexão desenhada e comentada sobre o modelo artístico feminino. Temos para nós que o teatro nunca deve esquecer que é uma arte popular. Blake, exemplo daquele que não pára na escada da visão e do sublime, pensava o mesmo da poesia: «Todo o empenho do homem está nas artes, e em tudo o que é comum». As Artes. Espanta-nos sempre o sentido manual e oficinal que o místico dá ao termo Artes. Como se a sua voz laboral fosse sempre a do desenhador.

robertcrumb-femaleform

 

Espera

Outubro 31, 2009

 

 

espera

 

 

 

à espera da toalha de papel – foto dramapessoal

 

Retrato (em leilão)

Outubro 28, 2009

 

Katy Grannan - Middleton, WI, 2000 (300px)

Katy Grannan, Middleton, WI, 2000

 

 

Faça a sua oferta à galeria Phillips de Pury & Company.

(Estimativa 3,000-5,000 US$)

 

Retrato (Sasha Grey)

Outubro 22, 2009

 

shasha grey - richard kern
Sasha Grey, por Richard Kern

 

Father death blues

Setembro 28, 2009

 

Allen Ginsberg - Father Death Blues

 

A presença da morte trouxe a sua monotonia a este blogue. Cada pausa foi sendo alongada por mais uma ocasião de afastamento. Na partida do nosso querido Jorge Vasques, actor, 51 anos, depois de uma récita, louvámos connosco a sua alma calorosa buscando o testemunho de outro comediante triste, o poeta Allen Ginsberg. Quando lhe perguntaram como queria ser lembrado, Ginsberg disse o nome de uma canção, feita para saudar o próprio pai na morte, lembrando a recomendação do pai espiritual na fé budista: «Por favor, deixa-o ir, e continua a tua celebração». Puxou da concertina que tinha aos pés e cantou «Father Death Blues», um hino à graça que tem morrer.

 

A canção deixou de estar disponível em Youtube, mas a entrevista completa, mais o seu remate cantado, do programa Face to Face, com Jeremy Isaacs, autêntica autobiografia compacta com despedida, pode achar-se em Ubuweb (na mesma página de «A video diary of Ginsberg in the days immediately before and after his death», por Jonas Mekas).

 

Father Death Blues

 

Hey Father Death, I’m flying home
Hey poor man, you’re all alone
Hey old daddy, I know where I’m going

Father Death, Don’t cry any more
Mama’s there, underneath the floor
Brother Death, please mind the store

Old Aunty Death Don’t hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moans

O Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts’ll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the rest

Genius Death your art is done
Lover Death your body’s gone
Father Death I’m coming home

Guru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this Blues

Buddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we’ll work it through

Suffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scorn

Father Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell.

Allen Ginsberg

 

Pássaros de Guerra

Setembro 11, 2009

 

battlebirds

 

Uma revista de passatempo para a infância e juventude, coisa deseducativa, era tão irrelevante como hoje qualquer blogue pessoal pouco frequente. O importante, diz-se, é ver as coisas tal como são.

 

Família

Agosto 30, 2009

 

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«A família demorou-se junto à sepultura do senador Edward M. Kennedy, no Cemitério Nacional de Arlington». (New York Times)

Apesar de transformada em miniatura, a fotografia de Doug Mills não fraqueja na sua mecânica intensa. Não há crepúsculo, há só dia. Imobilidade nenhuma.