Pequena História com Dois Poemas (de Adília Lopes)
Maio 15, 2008
Aqui gostamos de poemas que contam histórias, e especialmente dos que parecem que contam histórias, esses que trazem o que nunca aconteceu, mas está sempre a acontecer.
A propósito dos dois poemas que juntamos aqui, deixamos uma história que temos com a autora, que se calhar mais ninguém tem (para além de uma conversa sobre os ensaios de M.S. Lourenço, a cujo propósito trocámos memórias comuns, e a certa preferência por dois textos muito diferentes).
Foi na loja da editora Assírio & Alvim, na Rua Passos Manuel. Estendemos a mão ao livro Maria Cristina Martins, para comprá-lo. 250 exemplares. 500 escudos. Black Son Editores. Ao lado, havia um volume da mesma cor, rosa: Os 5 livros de versos que salvaram o tio. Edição de autor, com data de Lisboa, 1985. Em vez do preço, tinha um recado a lápis: “Oferta da autora”.
Levámos os dois livros até ao balcão. “Este livro tem aqui escrito…”.
“Sim, sim. Oferta da autora. É isso mesmo. É para levar. Com muito prazer”, disse-nos a responsável da loja.
Para um vil criminoso
Fizeste-me mil maldades
e uma maldade muito grande
que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa
a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém
uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe
O vestido cor de salmão
Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço
poemas dos livros Um Jogo Bastante Perigoso, e O Decote da Dama de Espadas, de Adília Lopes.
pintura de Mark Ryden: “Inside Sue” (ver galeria em markryden.com)
Robert Rauschenberg e o Quadro Apagado
Maio 14, 2008

Queremos saudar Robert Rauschenberg, que morreu na segunda-feira.
Lembramos a sua série Cardbird, que fez nascer formas de pássaro de cartões de embalagem rasgados, mas cartões montados, fotografados, impressos, recortados e colados em base de cartão para serem iguais a cartões rasgados, em formas de pássaro.
À parte a pintura, e as colagens, queríamos mencionar o seu “Erased de Kooning” (”Desenho de de Kooning apagado”).
Rauschenberg decidiu levar o desenho ao branco completo, a partir do desenho. Apagou muito do que fez.
Mas aquilo não era nada - conta. Cada um parecia um Rauschenberg apagado. Para ser uma obra, teria de começar como arte. Tinha de ser um de Kooning. Uma coisa importante.
Rauschenberg foi ao estúdio do colega. Comprei uma garrafa de Jack Daniels e fui.
Depois de uma cena de espera e silêncio bastante tensa, com uma sombra de conflito, quando de Kooning trancou a porta com a tela que estava a pintar, de Kooning responde:
Tem de ser uma coisa de que eu sinta mesmo muita falta.
“You see how ridiculously you have to think, in order to make this work?” (Rauschenberg)
Vale a pena ver o vídeo do próprio Rauschenberg a contar o episódio, e o seu plano de trabalho, com o seu humor impossivelmente doce.
Já agora, como complemento para qualquer escrúpulo em relação aos cruzamentos nada/arte, humor/arte, e gostar/não gostar, será de ver o vídeo de Marcel Duchamp sobre o “gosto indiferente”.
Pequeno-almoço Fora (Caminhada Matinal)
Maio 13, 2008

Farsa com Farsa
Maio 12, 2008
A inteligência, por vezes, só pode responder à farsa no mesmo registo. O nosso dia começou na Antena 2, a ouvir Vitorino Magalhães Godinho comentando, com uma tristeza leve, o que viu nos programas (diz-se novos) de Português e História.
Vi coisas… diz. Pedem-lhe que diga que género de coisas. Escolhe:
Olhe. Por exemplo. Vi uma coisa, no programa de Português, que era Estratégias de Audição. Mas que estratégias são estas? O que haverá em estratégias de audição? Eu julguei que só havia duas, que era ouvir às portas, e ouvir debaixo das mesas.
A Grande Radiofonia
Maio 10, 2008

A maior ansiedade da indústria da divulgação é divulgar-se a si própria. Remunerar-se e remunerar os seus associados. Tudo serve, para continuar. Maria Felismina está grávida na primeira página, com poster do feto, ou o último grande êxito de Goma Xantana, que saiu ontem, já estão a ouvi-lo.
Nós aqui, sem fins lucrativos, não adiantamos nem temos de adiantar quando não temos nada a adiantar. Fazemos como Suze Rotolo - a namorada da capa de The Freewheelin’ Bob Dylan, o segundo disco, que fará 45 anos a 27 de Maio - que num aniversário do companheiro há muito afastado lhe desejou “Muitos mais anos e menos biografias”.
A Net não tem só defeitos. Com ela, e com o acesso digital, desvaneceu-se o poder de uma rádio portuguesa que passava em bateria a música como tempo de publicidade. Qualquer hipérbole valia, e depois, em ciclos de menos de uma hora, a dúzia de jingles dominantes rodava em contínuo, nas poucas estações que mandavam.
Os empregados das editoras liam pelos papéis que lhes mandavam traduzidos, ou que eles próprios transduziam. Repetiam saberes de ouvido. Historietas. Riam muito. E fizeram a sua vida. Cada super-êxito passava pontual e levava a sua multidão como carruagens do Metro.
Numa rádio que tinha uma memória histórica de alguns meses, Bob Dylan era sempre descrito como a curiosidade de 1961, ou um baladeiro dum além-Tejo americano. Mais umas piadas sobre a voz que não entendiam - num país em que a grande voz era um cantor de peitaça de opereta e reportório de bricabraque. (Quantas vozes tem Dylan?).
Nunca passaram daí. Agora que The Man é um dos temas maiores da sua cultura e chama à sua plateia todo o zoo artístico, o rádio de pilhas pequenino que foi essa rádio distribuidora fica à vista no seu tamanho real.
A dimensão da obra de Dylan que nos interessa aqui é a mais recente, e diz respeito à rádio. Dylan é o apresentador e senhor gerente de Theme Time Radio Hour. Viajando pela história da música popular americana e por uma escolha presente que a continua, com um tema diferente a cada programa de uma hora, ouvimos um contador de histórias e um grande ironista dos dilemas que vão sendo cantados.
Nós aqui descobrimos o programa através da hora com o título «Death and Taxes/Morte e Impostos», onde foi possível ouvir a definição de IRS do próprio Dylan, ou o gingão «I Paid My Income Tax Today», com Gene Autry e o trio de Jimmy Wakely (1942), «Tax Paying Blues», de J.B. Lenoir (1954), «Sunny Afternoon», dos Kinks, «Taxman», dos Beatles (ambas de 1966, ecos do cenário fiscal artístico do Reino Unido, que o anfitrião descreve); ou, ainda, canções com morte como «Freddie’s Dead», de Curtis Mayfield (1972), e «Rock ‘n’ Roll Suicide», de David Bowie (1972), todas alinhadas pelo melhor guia, em ambiente conversado e nocturno.

A conversa vai longa. O que queremos mesmo é enviar os amigos para um blogue de um dos admiradores tipicamente exaustivos de Dylan - e generosos - o músico canadiano Patrick Cosley, que gere Theme Time Radio Hour with Host Bob Dylan - um lugar todo dedicado ao programa, onde é possível fazer a descarga/download das duas temporadas já cumpridas, em pastas compactadas de ficheiros mp3 (zip). Quem sabe lidar com zipes, siga.
Aconselhamos também - mais uma expressão do gigantesco movimento em redor de Dylan - uma página exclusivamente dedicada à listagem de toda a música passada no programa e ao guião da locução (siga o link no blogue TTRH; ou vá directo para The Annotated Theme Time), como uma espécie de manual de serviço. Na Wikipédia, está disponível um artigo para cada uma das duas temporadas já cumpridas, e o elenco, canção a canção, de cada um dos 50 programas por temporada (alguns com duas horas), com datas e ligações aos artigos individuais dos autores, bem como aos artigos dedicados a algumas das canções (Temporada Um & Temporada Dois).
Cosley, também carinhosamente tratado por «Coz», tem o seu próprio blogue, que renasceu este ano, reformulado, depois de ter corrigido a sua política de publicação de gravações (para não infringir direitos da indústria). Assim, publica gravações não-oficiais, ou do domínio público. Tem já disponíveis gravações raras de Dylan, Neil Young, Joni Mitchel, Van Morrison, Rolling Stones, ou Jimi Hendrix e Leonard Cohen (o seu primeiro concerto, ou, melhor, recital de poesia com final à guitarra)… ou Bach. Junta também ligações para rádio de interesse histórico sonoro, curiosidades musicais, e curiosidades curiosas, do seu gosto mais privado.
Drama Pessoal será sempre um blogue com um olho para o teatro. Deixamos aqui o que diz sobre a arte cénica o próprio Bob Dylan, no primeiro volume da sua autobiografia, Chronicles/Crónicas:
Gostei do palco desde sempre, e, ainda mais, do teatro. Sempre me pareceu o trabalho artístico supremo, entre todos os trabalhos artísticos. Em qualquer ambiente, no salão de baile ou na rua, no pó de uma estrada do campo, a acção tinha sempre lugar num eterno “agora”.
Um Nocturno (Juan Luis Panero)
Maio 9, 2008
Às Vezes, Muito Raramente
Quando pouco na vida nos consola
do tempo, esse verdugo indiferente,
às vezes, muito raramente, na monotonia da noite,
entre repetidos sonhos, surge uma imagem
que reflecte o desejo que ali deixámos
e um rosto - a sua remota aparência - reconstrói
um intenso instantâneo da felicidade.
Quando tão misterioso privilégio nos chega,
despertarmos depois é viver o inferno:
não aquele jogo de chamas e demónios,
mas antes o demónio da luz de novo,
o fogo do primeiro cigarro.
Na Savana
Maio 7, 2008

O Zé, à hora do almoço e em geral, gosta de ser breve. Às vezes a conversa entra no grande plano. Pela hora do café, a existência está em revista.
O importante é sabermos que animal somos na savana. Que bicho és tu, na savana da luta primitiva?
Eu acho que sou um babuíno médio. Dou uns tabefes, deito mão a alguma coisa que me interessa, mas tenho de me afastar da sombra quando os violentos gritam ou descem das árvores. Tenho de cheirar o leopardo. De vez em quando, um de nós acaba na boca do grande gato.
Mas aventuro-me. E pronto. Um dia acabo debaixo de um jipe do turismo. E tu, sabes que bicho és, na savana?
- Eu ia a guiar o jipe, pá.
foto dramapessoal
Maio
Maio 5, 2008

[17]
«Deixei o mundo com a ajuda de outro mundo;
um desígnio foi apagado,
por virtude de um desígnio mais alto.
De ora em diante vou a caminho do Repouso,
onde o tempo descansa na Eternidade dos Tempos.
Agora entro no Silêncio.»
Tendo dito isto, Maria ficou em silêncio,
pois fora no silêncio que o Mestre lhe falara.
Então falou André, e disse aos seus irmãos:
«Dizei-me, o que pensais das coisas que ela nos tem dito?
Quanto a mim, não acredito
que o Mestre lhe falasse desta maneira.
Estas ideias são muito diferentes das que aprendemos.»
E Pedro acrescentou:
«Como é possível que o Mestre falasse
desta maneira com uma mulher
a respeito de segredos que nós próprios ignoramos?
Deveremos mudar os nossos costumes,
para ouvirmos esta mulher?
Será que Ele a escolheu, e a preferiu a nós?[18]
Foi então que Maria chorou,
e lhe respondeu:
«Meu irmão Pedro, em que pensas tu?
Pensas que isto sou eu só que o imagino,
que eu inventei esta visão?
Ou crês que eu mentiria a respeito do nosso Mestre?»
Nisto, Levi ergueu a sua voz:
«Pedro, sempre foste colérico no temperamento,
e agora vemos que repudias uma mulher,
assim como fazem os nossos adversários.
Todavia, se o Mestre a ela deu valor,
quem és tu para rejeitá-la?
Por certo o Mestre a conheceu muito bem,
pois a amou mais que a nós.
Tratemos então de achar acordo,
e tornemo-nos em tudo humanos,
para que o Mestre crie raízes em nós.
Cresçamos como Ele nos pediu,
e sigamos ao caminho a espalhar o evangelho,
sem nos metermos a criar quaisquer regras e leis
para além daquelas de que fomos testemunhas».
texto: páginas 17 e 18 do Evangelho de Maria,
também conhecido por Evangelho de Maria Madalena,
apócrifo extraído do Códice de Akhmim, trazido do Cairo, em 1896, por Carl Reinhardt,
e dos Códices de Nag Hammadi, descobertos num vaso selado enterrado no deserto.
fotografia: pormenor de figurino da colecção Primavera-Verão 2007
de Jean-Paul Gaultier: desfile em Style.com ou em Vogue Australia
Estilo (caminhada matinal)
Maio 3, 2008

Como diz o lisboeta, temos uma escultura de Rui Chafes no jardim. Descemos a Rua do Salitre, que já foi uma rua de teatro, para ir vê-la, à frente do número 224 da Avenida da Liberdade. Partilhamos com o escultor, para além de alguma leitura romântica e matérias de gosto, a percepção de que “Portugal é um país oitocentista”. Não podemos, infelizmente, partilhar com ele a capacidade de emigrar profissionalmente.

O dia de hoje trouxe uma luz do sul demasiado cortante para permitir à nossa máquina digital de campismo um ponto de vista mais fundo. Fica o cromo ofuscado. “O sol é o esplendor da vulgaridade” - Pascoaes.
O objecto responde às árvores e ignora o trânsito horizontal. À ida, tínhamos visto o pombo-das-rochas com a saudade instintiva das rochas. Vimos uma referência ao descobridor da América que ninguém vê. E uma porta fechada, em Santa Marta. No regresso, fomos seguindo as portas do Salitre, uma rua que tem uma relação estranhíssima com o sol, com o tempo, e com a passagem das gentes.


Picasso definiu o que é o estilo:
Sempre que o artista tenta desenhar um círculo perfeito, tudo o que sai errado é o seu estilo.
































Dia Laboral Mundial
Maio 1, 2008
Há um ano ou dois, um tocador de guitarra e demagogo musical nacional falou na rádio de uma sua visita aos Estados Unidos. Disse que não tinha tido qualquer interesse em conhecer as pessoas. Que as pessoas conhecia dos filmes. Que tinha ido para conhecer os museus que eles têm por causa do dinheiro que têm.

Pondo de parte qualquer pormenor da história dos museus norte-americanos, e do destino que teve o dinheiro de muito legado industrial, que noutros sítios como Portugal nunca foi para os museus privados ou públicos nalguma proporção infimamente comparável, decidimos escolher da nossa colecção alguns dos maravilhosos positivos de gelatina dedicados ao trabalho e à paisagem laboral americana que a Biblioteca do Congresso oferece ao usufruto público. Eis algumas pessoas.

(Generosamente, a Biblioteca convida os visitantes a afixarem os seus comentários às imagens postas à disposição no site popular Flickr; à parte as exclamações de respeito e admiração, e algumas informações úteis, os engraçados do costume deixaram a sua troça elementar; a comparação do humor débil e infantil dos superprotegidos com os traços físicos e os cenários da vida da gente do trabalho pesado, em tempo de guerra, não deixa de ser enriquecedora).


Para ver as séries integrais a Preto e Branco e a Cor:
Library of Congress em Flickr
À Espera
Abril 30, 2008
O autor e tradutor especializado a tempo inteiro mas regime parcial com estatuto não reconhecido abusivamente taxado e subavaliado logo pelo Estado foi ver as duas belas intermitentes que estão a ensaiar o seu texto mais recente (levado à cena numa casa de banho verdadeira em ambiente dos anos 70) e que estão, graça de grupo, a trabalhar para ele.
À espera da boleia de uma delas, tirou algumas fotos à bomba de gasolina que finalmente acabou, no Jardim do Príncipe Real, a quarenta metros do largo e sempre cheiroso cedro centenário que João César Monteiro amava e Werner Schroeter também amou (deu-lhe uma cena do seu Deux-Duas).



Werner Schroeter em Senses of Cinema
Variedades e Actualidades
Abril 27, 2008

Preferimos a expressão “os nossos tempos” a “o nosso tempo”. Nunca houve um só tempo.
Em que tempo estão os espectadores de uma peça? De preferência, no da peça, ou, melhor, num tempo que a cena criou, sempre imaginário.
Assim são os tempos de cada um dos espectadores, todos diferentes. Uns oitocentistas, ou mais antigos, outros adiante do tempo presente, que é sempre um pouco recuado; uns mais coerentes nos seus tempos, outros mais misturados, conforme puxa cada área da sua experiência. Estão todos ali para estarem unidos na ficção de um só tempo.
As frases que começam com o truísmo “hoje em dia”, começam sempre com um abuso estatístico ou uma extrapolação que só vê uma das faces do presente.
A metáfora do telemóvel é prática, aqui: o aparelho da transição do século é manipulado por uma vasta maioria que nem sequer consegue imaginar como estarão presos os botões (quando os há) e como se produz o efeito de mola, contra a pressão do dedo, por exemplo. A miniaturização de circuitos garantiu um enorme poder comunicativo - embora nunca a comunicação - a qualquer um, que logo se acha no tempo do aparelho.
No entanto, o utilizador está, muitas vezes, num tempo do saber anterior ao tempo mental de Alessandro Volta, e da sua pilha de discos metálicos e tecido embebido em ácido, primeiro passo do caminho para o aparelho. Nas ideias e na imaginação o fosso pode ser ainda maior.

Quem é contemporâneo de Wittgenstein, ou do Shakespeare de King Lear? Nós aqui ainda vamos no longo caminho e muito aquém.
A melhor coisa que um jornalista parece conseguir dizer sobre uma peça de teatro é que é actual. Ora, o critério da actualidade é uma preocupação exclusivamente jornalística. Uma peça ou qualquer obra de arte não são matéria de relatório quotidiano.
Woody Allen lembrou um dia a distinção que o próprio Heródoto fez entre História e Poesia: A História é uma coisa que aconteceu uma vez e nunca mais acontece. A Poesia é uma coisa que nunca aconteceu mas está sempre a acontecer.
O jornalismo, quando vale, serve a primeira categoria. O teatro, quando vive, serve a segunda. Os jornalistas, que decidem duvidosamente sobre a actualidade de muitas notícias, e de muitas e redundantes não-notícias (com uma falsa actualidade de raiz comercial, ou outras), têm uma enorme ânsia em decidir com certeza a actualidade (ou seja, a relação directa com o presente jornalístico) do teatro e da arte em geral. E há no teatro quem acredite.
